Foi uma saga mesmo. Mas não apenas a história, senão a história de como consegui o último livro de "As Crônicas das Trevas Antigas": "O Caçador de Fantasmas", de Michelle Paver. O livro apareceu no site da Rocco, a editora da franquia no Brasil, antes do fim mês de setembro. Muito entusiasmada, corri à livraria e pedi que o encomendassem (gosto da livraria, os vendedores são meus amigos etc. e tal). Passaram-se duas semanas e nada. A livraria, contrangidíssima, me informou que o problema era que o distribuidor da Rocco no Rio Grande do Sul não tinha recebido o livro, nem tinha previsão de receber. Fiquei indignada, mas como a Feira do Livro de Porto Alegre ia iniciar na virada do mês, decidi esperar, porque na feira de POA sempre aparecem os lançamentos.
Só que, mais uma vez, nada. De banca em banca, procurei os vendedores da Rocco no Rio Grande do Sul e ninguém tinha o livro, nem previsão de receber. Perdida a paciência, pedi o livro ao site da Livraria Cultura.
Levou mais de duas semanas para o livro chegar, como seu eu morasse em algum lugar longínquo e não há 40 km de Porto Alegre. Ao todo, quase dois meses entre ver o livro no site e tê-lo nas mãos. Dois meses dentro do mesmo país. Convenhamos isso não é distribuição de produto. Isso é sacanagem. E logo a Rocco, uma das maiores editoras do país! Como é possível que a distribuição seja tão ruim? E depois dizem que o brasileiro não lê. O brasileiro não lê porque o livro demora para estar na sua mão, só isso. Porque se "Caçador de Fantasmas" estivesse onde deveria de estar - na livraria - na semana seguinte ao lançamento, eu o teria comprado no ato. Agora, eu sou doida por livros. Se eu fosse uma leitora média e nesse meio tempo tivesse aparecido um lançamento de CD ou DVD que me interessasse, uma roupa nova, um passeio à Gramado, alguém tem dúvida de que o livro teria sido preterido em função dos outros atrativos? Convenhamos, se as editoras querem vender seus livros, precisam ter muito mais agilidade na distribuição, para se rivalizar com os outros entretenimentos oferecidos. Ninguém gosta de esperar e esperar por diversão é impensável!
Feita a reclamação, vamos adiante.
"Caçador de Fantasmas" chega com a tradução de Domingos Demasi. Confesso que como final de saga me decepcionei. Não que o livro seja ruim, porque não é: mais uma vez a prosa de Michelle Paver mostra qualidade, e a pesquisa sobre a qual a história está assentada é muito sólida. A descrição de figurino, armas e alimentação do homem da Idade do Gelo é muito contundente e muitas vezes o estômago civilizado desta leitora se repugnou com o cardápio apresentado - enfim, eram essas as fontes de energia da dez, onze mil anos atrás e bem-vindas eram quando apareciam. Em vários momentos me lembrei da descoberta feita nos Alpes italianos, um caçador com todos os seus apetrechos e roupa, mumificado e preservado - as descrições do livro são muito convincentes.
Também é preciso comentar o excelente "elenco" animal do livro. Lobo, como sempre, apresentando um texto desafiante para a criadora, seu tradutor e até o leitor. Michelle consegue oferecer um texto que remete às atitudes de um animal, ao que a gente acha que eles compreendem do mundo, e eu ouso acreditar que ela consegue chegar muito próxima do que deve passar pela cabeça de seu lobo de estimação. Percebe-se em cada linha dedicada a Lobo, um grande tempo gasto em observações e convivência amistosa e respeitosa. Ao logo dos livros, o relacionamento de Torak e Lobo é cada vez mais esmiuçado e seus encontros mais bem postos em palavras, e isso é uma delícia de ler, sobretudo para quem gosta de animais. Contudo em "Caçador de Fantasmas" os dois grandes personagens coadjuvantes são Rip e Reck, os dois corvos que acompanham Torak. Não dá para se dizer que eles são "bichos de estimação" na nossa medida, mas que eles fazem parte do grupo do Espírito Errante, disso não há a menor sombra de dúvida, pelo menos enquanto houver o que comer - depois se verá. "Corvelíneo" isso! Divertidos e cínicos, as duas aves são um caso à parte, atrapalhando, ajudando e, sobretudo, se aproveitando de cada sobra de migalha e protagonismo que surgir.
O que já não me pareceu tão espetacular foi a história em si mesma. Leia-se bem: "espetacular". A história é boa e entretendia, com uma dose massiva de aventura, perigos e emoções. Todos nós queremos ver Torak crescer e vencer e, de preferência, ficar com Renn. Mas eu esperava algo mais. Eu esperava ver o início do fim da Era do Gelo. Algo como o derretimento das geleiras, a abertura do Estreito de Bering, essas coisas enormes e espetaculares, porque quando um jovem se enfrenta a uma maga capaz de comandar o clima, eu fico esperando por coisas assim.
Contudo, a história fica com um gosto de requentada. Mais uma vez Torak parte sozinho para realizar seu destino (ele ainda não aprendeu que as coisas não são assim?). Mais uma vez Renn o segue e Fin-Kedinn parte no rastro de ambos, buscando ajudá-los de alguma forma. No mundo gelado em que vivem, mais uma vez eles se deparam com profundas e terríveis cavernas, onde coisas medonhas acontecem. Para quem leu e se apaixonou pela série em "Devorador de Almas", que consumiu num piscar de olhos "Perjuro" e "Desterrado", este último livro ficou um pouco aquém do esperado. Na verdade, a apocalíptica visão da geleira se rompendo em "Perjuro" é bem mais colossal do que qualquer coisa que veio depois. E foi por isso que eu achei que "Caçador de Fantasmas" ia oferecer uma visão maior.
Fica, porém, a isca: que outra floresta é essa que Torak vê desde o alto da Montanha dos Fantasmas? Fica parecendo que Michelle nos apontou o caminho feito pelas tribos, há doze mil anos, quando, dizem, os seres humanos passaram do continente europeu para o americano, justamente pelo Estreito de Bering, na época uma ponte de gelo entre ambas porções de terra. Se isso é assim, pelo menos, a série se resolve bem. Mas me deixou a impressão de que faltaram ideias - ou ousadia - no final da empreitada. O que é pena, porque o texto de Michelle é tão bom, que mesmo lendo o que se poderia chamar de "mais do mesmo", dá gosto de ler.
(visite também o site http://jointheclan.com/, com notícias, informações e curiosidades sobre a época)
(01.12.2011)
Mais uma série
Sim, bem, mais uma série. Fazer o quê? Elas pululam nas prateleiras das livrarias sob o condinome de "Literatura Infanto-Juvenil" e, francamente, se eu tivesse dezesseis anos já teria levado meu pai à falência por conta delas. Contudo, eu ainda prefiro um bom livro grande, do que uma boa série de livros pequenos. Gostos pessoais.Gostos, como eu dizia, pessoais. Muito pessoais.
A série da vez é "Rangers - A Ordem dos Arqueiros". Arqueiros são sujeitos que me interessam um bocado, porque meu avô me legou um arco antigo e uma vez pus distancia entre eu e um sujeito inconveniente por conta de um arco e flecha de brinquedo. Então eu os tenho em alta conta e de maneira geral prefiro um arqueiro a um guerreiro disposto a muito barulho e muita sangria.
A edição é australiana, de autoria de John Flanagan. No Brasil é editado pela Fundamento, com capas muito atrativas (logo eu que não ia falar das capas...). A série se centra na figura de Will, órfão criado no castelo de Redmont que aos doze anos é chamado, assim como seus companheiros de condição, a escolher a profissão que irá nortear seu futuro. Will é recrutado um tanto contra a própria vontade, por Halt, o arqueiro do castelo, e a partir daí estão abertos os caminhos da aventura (e de vez em quando das desventuras, que sem elas não há aventura que se sustente). Li a série até a metade do quarto volume mas em seu país de origem A Ordem dos Arqueiros já vai pelo décimo primeiro volume. No Brasil, chegou ao nono.
A leitura é fácil e para dizer a verdade, o primeiro deles me decepcionou um bocado. Na verdade, eu comecei a ler a série, porque vi um rapagão comprar dois volumes de uma vez na livraria do shopping e fiquei interessada em descobrir que tipo de texto poderia atraír um jovem leitor, quando são eles acusados de não ler nada, de passar o tempo jogando videogames e de não estar nem aí para os livros. Pecados mortais em nossos dias tão cheios de tentações.
Como eu dizia, me decepcionei um pouco com o primeiro volume. O texto é pasteurizado - chamemos assim aquele tipo de texto escrito para a venda massiva. Os personagens, como é característica deste tipo de texto, são estereotipados. O meio em que aventura acontece é mais ou menos a Baixa Idade Média, em um reino idealizado que faz limite com o reino de um vilão malvado, que escraviza um povo meio animal, meio inteligente, e com outros tantos com caracteristicas bastante marcantes. Este primeiro livro tem várias pinceladas de fantasia de capa e espada, como o próprio Morgarath, o vilão, e as criaturas que ele "recruta" para levar a cabo a conquista de Araluen, o reino onde vive Will. Não estava muito animada, e, francamente, nem um pouco interessada no segundo volume, mas o terminei lendo meio que no vácuo dos demais que tenho para ler (na verdade, estou esperando "Caçador de Fantasmas" de Michelle Paver, editado pela Rocco, que tem se esmerado por não enviar o livro para as livrarias do sul do país). Confesso que o me senti mais animada, porque o livro não amarra todas as pontas. Aliás, no início dele há uma ponta solta que não se soluciona nem sequer nos volumes subsequentes, o que me incomodou como leitora, pois criou uma expectativa que, ao final, se esfumou totalmente. O final do segundo volume é um claro convite ao terceiro e é aí que a série começa a definir seu verdadeiro "mapa" e ritmo. E o mapa é o mundo da Idade Média, com escandinavos, mongóis, árabes e outros povos, levando o leitor, através das aventuras do aprendiz de arqueiro, a tomar contato com os diferentes grupos que fizeram da Idade Média essa verdadeira paixão para tanta gente. Will sai do mundo protegido de Araluen para aterrizar em cheio no quebra-cabeças da Idade das Trevas.
Há alguns pontos que me incomodaram nos textos que li. Por exemplo, os elementos de fantasia heróica que aparecem no primeiro e segundo volumes são totalmente dispensados no terceiro e quarto, o que me deixou com a sensação de que não saber exatamente de que se trata a série. Se é fantasia, falta-lhe elementos fantásticos. Se não é fantasia, falta-lhe mais pesquisa e credibilidade. Outro ponto que me deixou perdida foi a presença dos amigos de Will, o grupo de órfãos com quem cresceu, que estão presentes no primeiro volume e depois desaparecem para dar lugar à Evanlin (com excessão de Horace, seu desafeto de infância que se revela um bom amigo mais tarde). De acordo com as resenhas que pesquei na rede, alguns destes personagens voltarão em volumes posteriores, mas ainda assim, a proposição da série é um renovação constante de nomes e rostos. Achei diferente, mas não sei dizer com honestidade se gostei disso (afinal de contas uma das coisas que mais me incomodou em "Crônicas do Gelo e do Fogo" foi a profusão de personagens).
Sem acertar sempre no alvo, mas preenchendo de maneira entretenida as poucas horas vagas, "A Ordem dos Arqueiros" é uma opção interessante para quem gosta de séries e de uma maneira bem divertida me fez pensar que os adolescentes que vão entrando na vida adulta querem de um livro exatamente aquilo que encontram nos jogos e na TV: pura diversão.
E por que não?
(06.11.2011)
Futuro imperfeito
Foi uma leitura meio conturbada. Foi meio complicado de conseguir o livro e depois houveram inúmeras interrupções. E para completar, o tempo todo ficou martelando na minha cabeça que "este foi o livro que inspirou os irmãos Washowski a fazerem Matrix". Fiquei procurando Neo o tempo todo, fiquei procurando o lado zen, a filosofia de "eu domino minha própria realidade, porque a realidade soy yo" e por aí vai.Nada a ver, então, por favor, se você for ler "Neuromancer" a partir desta crônica não procure por Matrix. Tirando algumas noções, você não vai encontrar lá a história do hacker entediado que escolhe descobrir a verdadeira realidade das coisas.
Isso posto, vamos lá: a leitura da vez é "Neuromancer" de William Gibson, numa edição digital da http://www.sabotage.revolt.org/, com tradução de Adoulie Sam Boyd e Lumir Hahodil. Mas se você é daqueles que não gosta de ler na tela do computador, sugiro a edição da Editora Aleph com tradução de Fábio Fernandes, que é a edição da capa que ilustra esta crônica.
O livro já completou 25 anos da primeira edição e segue oferecendo um texto atualíssimo e contundente. E, ao mesmo tempo, muito próximo da nossa realidade, embora, felizmente, ainda seja Ficção Científica em vários pontos. Mas a gente vai lendo e vai encontrando os parâmetros de comparação com nossos próprios dias e vamos compreendendo que tudo o que está lá ainda não aconteceu por uma questão de tempo.
Para quem não sabe, o romance conta a história de Case, um pirata do cyberespaço, principal noção desenvolvida por Gibson neste livro, e que o tornou o referencial da cybercultura. O cyberespaço é o espaço virtual da rede, por onde circulam imagens, dados corporativos e vírus. E também inteligências artificiais, algumas menos independentes e pelo menos uma que está em busca de independecia total - e existência real, dentro das possibilidades que a rede oferece. Para conseguir fazer o link entre a parte ativa desta consciência e uma outra parte, mas restrita, mas infiinitamente mais poderosa, é que Case é contratado por Molly, uma espécie de samurai, fisicamente "reformada" com várias "melhorias" tecnológicas, que extrapolam a ideia de ciborg.
Ou, pelo menos, foi isso o que entendi.
O fato é que "Neuromancer" é tão moderno, que ainda oferece novidades e possibilidades de compreensão diferentes. No meu entender de leiga em tecnologia, eu, que não utilizo nem a metade das possibilidades do meu celular (isso, quando ele está ligado, o que não acontece neste momento em que escrevo, por exemplo), o jargão duro utilizado pelo autor só rivalizou com suas ideias ainda mais viajantes e revolucionárias. E, ao mesmo tempo, convencionais. Porque Gibson, com seu vocabulário tecnológico, suas ideias inovadoras, seu jogo com a linguagem, buscando o limite para criar uma espécie de dialeto para um dos personagens, visita vários paradigmas comuns na Ficção Científica. O ciborgue, como eu comentava, está universalmente presente, os poderes mentais que confundem a realidade, as viagens espaciais, a criação de uma inteligência e sua evolução estão lá e, mais para o final, o prêmio mais desejado: a confirmação de vida além das fronteiras de nosso planeta, vida inteligente e dispota a se comunicar.
Tudo isso está lá, mas tudo se apresenta com uma nova roupagem.
Começa que Gibson não apenas apresenta um futuro sombrio, ele apresenta um futuro possível. Quase tangível, mesmo. Tudo é revestido de um pessimismo e de um cinismo de fim de século e fim de caminho, como se a raça humana tivesse chegado a tocar o poder dos deuses, mas fosse incapaz de ser mais do que humanos, cometendo os mesmos erros, ainda que com nomes diferentes, drogando-se, mesmo que com outras drogas, enganando-se, matando e morrendo aparentemente sem uma perspectiva real de alguma coisa. O futuro, em "Neuromancer" chegou, mas ele apenas difere dos nossos dias na tecnologia, porque no fundo, nós seguimos sempre iguais.
Mas justamente aí está a procura desta inteligencia virtual por seu complemento, na ânsia de ser uma consciência completa, capaz de ter suas próprias memórias e, assim, buscar seu próprio futuro. É essa busca, essa luta por uma unidade, que levará Case e o leitor a paraísos estranhos e lugares irreais, viajando quase que numa overdose de LDS literário. E emergindo, finalmente, de um futuro/presente sem esperança, para uma promessa de continuidade, não do indivíduo humano, mas de uma criação da inteligência humana: a Inteligência Artificial.
Genial, opressivo, perturbador e possível. "Neuromancer" é muito mais do que Matrix e seu discurso zen. "Neuromancer" é a reinvenção da Ficção Científica - mesmo que ela tenha acontecido há mais de 25 anos.
(15.10.2011)
Missões em canto
Não se trata de literatura, exatamente: trata-se de uma obra que reúne esboços arquitetônicos que José María executou in loco, o que dá ao desenhos dinâmicas interessantes. Alguns deles, por exemplo, oferecem uma perspectiva diferenciada às fotos e desenhos tradicionais da Missão de Sâo Miguel, dada às necessidades do arquiteto de refugiar-se do sol ou de fugir do frio. O lançamento, que aconteceu no Instituo Cervantes de Porto Alegre, marcou também uma exposição dos originais que compõem a obra e reuniu vários conhecidos do autor. Interessante ouvir as colocações de José Mária, sobretudo no que concerne à falta de interesse real pelos 30 Povos. Mais ou menos como se o fato de o território ter sido perdido para Portugal, e consequentemente ter sido o estopim para o final do sonho missioneiro na América e o afastamento da Companhia de Jesus dos costumeiros postos de poder que ocupavam, incluindo na supressão da ordem em 1773 (ela só voltaria a ser ativada em 1814), fosse razão para ignorar este episódio histórico. Está na hora de fazermos algo para por as Missões no mapa, não apenas como ruínas bem conservadas e sítios arqueológicos em exploração, mas como um real tesouro arquitetônico e histórico.
Junto com o livro, acompanha um CD gravado pela Capilla de Música Catedral de Pamplona, com regência de Aurélio Sagaseta, com 11 músicas das que se executavam nas reduções Jesuíticas entre 1691 e 1767. Detalhe: se hoje a gravação é da Capilla de Pamplona, nas Missões elas eram magnificamente executadas pelos construtores e moradores das Missões: os guarani.
Vale a pena conferir.
(25.09.2011)
Saudades do que às vezes fomos
Sentei para ler "Tudo o que fizemos", de Carlos André Moreira, sem grandes expectativas. Foi mais uma curiosidade: o título, editado pela Leitura XXI, concorre ao Gauchão de Literatura deste ano. De Carlos, os únicos textos que conhecia eram as matérias da Zero Hora, onde ele trabalha, atualmente na editoria de Cultura. Mas foi só começar as primeiras páginas para me entusiasmar com a história de um grupo de adolescentes de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, que resolvem roubar o sino que marca os horários da escola.
O principal aliciante não poderia deixar de ser muito pessoal: quando fui interna na Fundação Evangélica, na década de 80, uma colega roubou não o sino, mas o badalo da barulhenta coisa de bronze e ficamos um final de semana inteiro sem ouvir aquele eco melodioso e gelado ao mesmo tempo.
De outro lado está a minha predileção por narrativas que enfocam esse período nebuloso que é a adolescência, onde a gente ainda não é adulto, mas já não é mais criança, onde nos vigiam como se fossemos moleques e nos exigem atitudes maduras. Tudo é muito dramático quando se é adolescente, tudo é muito verdadeiro e muito intenso. Não é à toa que Romeu e Julieta são adolescentes. Se fossem cinco anos mais velhos, seriam personagens de alguma novela irônica de Machado de Assis. De modos que o livro me cativou já de saída.
"Tudo o que fizemos" enfoca a difícil e tortuosa trilha do amadurecimento, que começa com as perdas, os encontros, os enfrentamentos com o outro e consigo mesmo através do outro. Afinal, todos nós temos contas para acertar com nossas memórias, com o nosso cotidiano. Carlos André consegue fazer isso com um texto honesto, às vezes duro e sempre surpreendente. Em mais de um capítulo tive a saborosa vontade de "ler de novo" o último trecho, o último parágrafo. Fazia tempo que um autor não me entusiasmava desse jeito e me arremessasse diretamente à leitura de outro trabalho seu, neste caso o conto "Um dos nossos" no volume "Ficção de Polpa: Crime!", editado pela Não Editora (veja resenha completa aqui). Conto, aliás, onde ele se sai ainda melhor!
Uma das boas características de ambos textos é o sabor dos diálogos. Por exemplo, em "Tudo o que fizemos" o autor não se detém no preconceito básico de que a Literatura, tendo a capacidade de formar seres humanos, vá se embarafustar em lições de moral e em vocabulários rebuscados. Longe disso! Sem se render à gíria fácil, Carlos, em "Tudo o que fizemos", consegue aproximar-se e mergulhar na sonoridade da adolescência, sem temer os palavrões, por exemplo, mas valendo-se da presença deles, ou de sua ausência, como uma forma de identificar a personalidade de cada um, e criando um termômetro para a tensão que se acumula até a última página. Porque, sim, a história trata do roubo do sino da escola, mas um roubo que não deu certo de todo. É essa tensão e essa situação que parece tão assustadora para quem está metido na pele dos quinze, dezesseis anos, que gera os impasses e faz emergir a verdade de cada um, com toda a força e todas as consequências que isso significa.
(04.09.2011)
Jogo de ideias
Já fazia algum tempo que eu tinha vontade de ler "O Videogame do Rei", do gaúcho e atual presidente do Instituto Estadual do Livro, Ricardo Silvestrin. O que deu um espaço definitivo ao livro na minha pilha, foi o fato dele ser um dos participantes do Gauchão de Literatura 2011 - razão pela qual a presente crônica só está sendo veiculada hoje, apesar de ter sido escrita a mais tempo.
O livro, editado peça Record, contudo, não me passa a ideia de ser um romance - critério de escolha dos livros do Gauchão desta ano. Ele é mais uma alegoria, aproximando-se dos trabalhos dos grandes filósofos. Escrito quase todo em diálogos, "O Videogame do Rei" não se detem nos detalhes. Está mais preocupado no fazer-se e desfazer-se das ideias, dos ideais, do que nos personagens em si mesmos. Mas isso nem de longe impede o autor de fazer importantes reflexões sobre o poder, sobre os sonhos e os ideais - construidos, abandonados, e retomados - e o verdadeiro papel de cada um no jogo da vida.
Os capítulos curtos narram a história de um rei e seu reino, sua guerra e sua rainha. De como ele criou uma espécie de jogo na ânsia de fazer o povo evoluir, e do que resultou disso, de como ele ficou "pendurado", certo dia, e de como se solucionou esse impasse.
Equilibrando o texto entre a linguagem alegórica e o vocabulário cotidiano, Silvestrin escreveu algo para nos fazer pensar - um artigo sempre bem-vindo e nem sempre fácil de encontrar, até por ser difícil de ser concebido. Para ler numa tarde e ficar lembrando por dias depois, dando algo de útil a fazer com pensamento que hoje em dia anda tão embotado de romantismo barato e denúncias variadas.
(09.08.2011)
Amor
O livro tem duas edições no Brasil e a minha é a excelente coleção de bolso "Ponte de Leitura" da Editora Objetiva, com uma desafiante e excelente tradução de Fabiano Morais (que também traduziu "Duma Key". Veja uma entrevista com o tradudor, clicando aqui). Porque não, a tradução deste livro não deve ter sido nada fácil. Quando a gente acha que já pilhou o estilo de King, que o autor estabilizou-se numa rota e velocidade de viagem, ele vem e oferece algo diferente, um texto de formato desafiante, um desvanecimento contínuo das linhas narrativas, entremeando memória e presente. No texto de King, tudo é agora e para sempre, as boas lembranças e as más lembranças, tudo ainda acontece, sobretudo quando se está preso ao passado, quando é tão difícil aceitar o presente e seguir adiante nesta ou em qualquer realidade possível - porque todas as realidades são possíveis, se forem possíveis de serem imaginadas.
Sobretudo desde esse ponto de vista, apesar dos deslizes que o livro que alguém possa vir a encontrar no livro, "Love" é uma autêntica obra de arte.
"Love", conta a história de Lisey, após a morte de seu marido, o escritor Scott Landon. Assediada pelos estudiosos da obra de Scott, Lisey se depara, dois anos após o falecimento dele, com um desequilibrado que, inicialmente, parece desejar apenas a obra inédita do falecido autor. Mas essa impressão dura pouco. Em seguida a gente percebe que não é nada disso, que o maluco é maluco mesmo e tudo o que deseja é provocar dor em alguém e Lisey apareceu na linha de tiro. Só isso. Na superfície, como a grande maioria dos escritos de King, é um livro de suspense. Mas como a grande maioria dos escritos de King, "Love" tem vários níveis de leitura. Ele é, sobretudo, um reflexão sobre o luto, sobre a perda, e, sim, sobre o amor. Porque não é à toa que "amor" seja o título escolhido pela Editora Objetiva para a tradução do livro, que no original chama-se "Lisey's story". Cada linha, cada entrelinha, fala disso: amor. Amores simples, amores complicados, amores de perdição e de salvação, mas todos eles, profundos e verdadeiros. Amor é o que se lê em cada palavra que descreve a vida de Lisey e Scott. Amor é o que se lê na terrível infância do escritor. Amor é o que norteia Sott, e a relação igualmente complicada das irmãs de Lisey, sobretudo a relação de Lisey e Amanda, a irmã mais velha, com tendência à esquizofrenia e ao catatonismo. Amor é o que se vê nas breves linhas que falam sobre a relação de Amanda e a filha, da filha e suas tias.
Porque no fundo, amor é o que somos e é o que fica depois de tudo. Os que não o são, os que fazem da existência um inferno, são os prediletos do garoto espichado, umas das mais tenebrosas e estapafúrdias assombrações do escritor (com um destaque especial para os risonhos da Floresta Encantada: horripilantes!).
Aliás, este é um dos níveis de leitura do livro, aquele que fala do ofício de escritor. Em "Love", Stephen King também aproveita para falar sobre o trabalho de escrever de uma maneira apaixonada, honesta e humilde. Para quem está começando a escrever, para quem já é escritor, cada passagem da vida profissional de Scott é uma lição para se ater. Até mesmo para o leitor que não é e não tem a pretensão de ser escritor, as passagens do "Scott escritor" são extremamente elucidativas. E muito curiosas, na verdade, porque não são poucos os momentos em que King critica os estudiosos da Literatura, os que se debruçam sobre seus livros (e qualquer livro) para dissecá-los como espécimes estranhos. Ele não poupa na ironia e faz o leitor compreender para que e para quem ele escreve: para o leitor comum, que quer do livro um refúgio, uma distração, uma diversão, um outro mundo, maravilhoso, no sentido de inimaginado. Sem nenhum receio ou pudor, em "Love", King revela o truque do mágico escritor, ao referir-se à passagem do mundo real para Boo'ya Moon, o universo surrealista de Scott Landon (e de todos nós), como boom: "Ou igual a book", diz Scott a certa altura. Book, livro: uma viagem, um prêmio, uma passagem fantástica para o sonho e a saniedade. Puro sonho. Amor puro.
(20.07.2011)
Faz diferença, sim!
Não vou comentar, hoje, um livro (estou lendo "Love" de Stephen King, mas devagar, porque tive de estudar para uma prova), mas gostaria de trocar uma ídeia com vocês sobre um conto. Na verdade acabei de ler, assim que as impressões estão frescas e talvez até cometa alguma heresia, mas vamos lá.
O texto em questão é "O conto da Rainha de Inverno", de Elsen Pontual e publicado no site "Contos Fantásticos" (clique aqui para ler o texto), de Afonso Luiz Pereira (clique aqui para ver o site).
O conto é muito bem escrito, mas muito bem escrito mesmo. E é curto, o que torna a leitura ainda mais saborosa, porque ao terminar nos deixa querendo ler mais, tanto da história em si mesma, quanto da prosa. Dividido em dois narradores, cada um com voz própria, o conto fala sobre a terrível Rainha de Inverno e seu poder e fascínio, talvez o mesmo poder e fascínio que a estação do Inverno, com suas geadas e nevadas, proporciona. Afinal, eis aí uma estação dotada de profundo mistério e impressionante simbolismo para todos os povos, que põe à prova sua resistência e capacidade de sobrevivência - mais que o Verão. O Verão pode ser desconfortável, mas o Inverno, sempre, é mortal. Uma vez por ano, somos defrontados com essa beleza que mata. O conto evoca exatamente esta impressão, amparado por um texto praticamente irretocável, que utiliza referenciais próprios, sem escorregar.
Agora, vamos ao título deste post: "Faz diferença, sim!"
Toda vez que eu abro a boca para comentar que muitos escritores brasileiros de Fantasia não escrevem Fantasia brasileira, tem gente que torce o nariz, leitores e escritores que argumentam que se um texto é escrito por um brasileiro em português, o resultado é Fantasia brasileira, e pouco importa o restante.
Mas, desde a maior onda de frio em 11 anos no sul do país, e à espera da seguinte, que deverá chegar às terras tupiniquins dentro de aproximadamente uma semana, digo, categoricamente: muitos trabalhos que são entregues aos leitores brasileiros como Fantasia brasileira (porque escrita por brasileiros) não é brasileira. O autor pode ser brasileiro, mas o material que o originou, a "inspiração", não é, e as ideias que o texto me passará, portanto, dificilmente o serão. "O conto da Rainha de Inverno" é um exemplo claro disso.
O relato se passa em um mundo imaginário, Árhia. Até aí, tudo bem, é literatura brasileira. A personagem chave é uma rainha, uma mulher, do inverno, que traz o frio sob a forma, sobretudo de geada, o que evoca o frio invernal brasileiro, praticamente desprovido de neve e nevascas, salvo excessões, então na entrelinha, é brasileiro.
Onde ele evoca o universo europeu é no próprio título: na Europa existe a ideia de uma rainha invernal, em contraposição ao rei do verão. Ao ler o título lembrei de início de um conto clássico infantil: a Rainha da Neve, que por sua vez nos leva à Rainha Branca das "Crônicas de Narnia" e daí por diante. Mas onde a gente vê que o conto evoca o universo europeu sem sombra de dúvida, é a noção de que o frio, de que a Rainha do Inverno, vem do Norte.
Essa é uma noção européia: ao Norte, o frio, ao Sul o calor. Ao Norte, o Inverno, ao sul o Verão.
No Brasil, não. Não, na América do Sul.
Na América do Sul, o frio vem do Sul. O Inverno vem do Sul. Ao Sul ficam as terras frias dos Campos de Cima da Serra gaúcha, o Pampa da Argentina, os ventos gelados da Patagônia. Ao Sul fica o continente mais frio do planeta, o mar de maiores ondas.
No Norte, no nosso Norte, ficam as praias, o Verão e a seca. Nossos "desertos" são ao Norte, não ao Sul. Os campos lânguidos de calor e suor são ao Norte.
Nós o chamamos "Nordeste".
Esse pequeno detalhe aparentemente sem importância alguma, que não altera em nada a excelência do texto de Elsen, revela, contudo, o quanto as noções que o autor recebeu em forma de literatura calaram fundo. É tão automático que o Norte seja frio e ao Sul seja quente (mesmo que para um brasileiro isso não seja verdade), que o autor não cogita que ao escrever um conto sobre um mundo alternativo, isso seja possivel de ser alterado.
De modo geral, acredito que ainda estamos muito longe de poder simplesmente escrever Fantasia brasileira, sem ter um lastro visível, como por exemplo os personagens de nosso folclore: é preciso que nosso imaginário primeiro estabeleça uma série de baluartes, poderosos o bastante para que os reconheçamos apenas por vê-los. Não é apenas uma questão de escrever sobre Sacis ou Caaporas, é uma questão de que nossa visão do mundo não é a mesma que a de um europeu. E no entanto absorvemos completamente as visões de mundo vindas de fora, fascinados com sua beleza e poesia, sem nos dar conta de que há beleza e poesia em nosso ponto de vista, também. Assim sendo, continuarei a dizer que não basta o texto ser escrito em português por um brasileiro, para ser Fantasia brasileira. É preciso mais. É preciso estar embuído de símbolos que evoquem o Hemisfério Sul. E são esses símbolos que precisamos descobrir, é deles que precisamos nos apropriar para que nossa literatura fantástica seja reconhecida como algo novo, diferente e que venha, portanto, a chamar a atenção dos leitores e dialogar com as outras Fantasias.
Além do mais, é preciso ter em mente: vivemos em um mundo cujas fronteiras culturais são cada vez mais difusas. Isso não significa não ter identidade, significa trocar informação. O enriquecimento das histórias de fantasia não vai acontecer se continuarmos a contar relatos dos mesmos lugares, das mesmas criaturas. Contudo, se nossa identidade for formada a partir de referenciais que não os do lugar onde vivemos, corremos o risco de ser estrangeiros em nossa própria pátria, sem ser, contudo, cidadãos de alguma outra.
Seremos párias culturais, sem identidade com nada, e sem compromisso com a sociedade que nos rodeia e, portanto, sem intresse real de transformá-la. E sem compromisso não se realiza nada.
Obs. Em tempo, não quero dizer que não possamos ou devamos escrever Fantasias de caráter europeu. Longe de mim, isso! Também já escrevi Fantasia com uma identidade mais européia, e provavelmente voltarei a escrever. Não existe nenhuma regra sobre isso. Nós podemos escrever sobre o que nos der na telha - desde que saibamos o que estamos fazendo.
(09.07.2011)
Definitivo
A febre do momento, para os leitores amantes de Fantasia, é o romance de George R.R. Martin “A Guerra dos Tronos”, editado no Brasil pela Leya, com tradução para o português lusitano de Jorge Candeias. “A Guerra dos Tronos” é, na verdade, a ponta do novelo de uma obra prevista para sete grandes volumes, além de já estar transposta para o seriado homônimo, exibido no Brasil pela HBO. Um autêntico furor que se agrupa sob o título geral de “As Crônicas do Gelo e do Fogo”.
E não é para menos: a obra é definitiva. Visita os grandes temas da Fantasia: o épico, com suas batalhas e suas tramas políticas e familiares, a fantasia dark, com suas assombrações, neste volume ocultas por trás da Muralha que defende o sul do gelado Norte, mas prometendo atravessá-la na primeira oportunidade, e os mundos exóticos que tangenciam o onírico no que ele tem de mais maravilhoso, sedutor e terrível. Qualquer coisa que for escrita – ou publicada – como Fantasia de capa e espada, depois de “As Crônicas do Gelo e do Fogo” será comparada a ela. Não tem escapatória – a única saída agora é descobrir outras Fantasias para explorar. E veja lá...
A narrativa é levada com muita competência. Uma de suas principais qualidades de Martin é descrever o mundo fantástico dos Sete Reinos desde uma ótica adulta, sem subterfúgios, desprovida de romantismo e repleta de realismo. Se poderia dizer que as cenas de batalha chegam a ser cruas, mas essa característica não é privilégio das inúmeras refregas que pontuam a narrativa, e sim uma tônica do texto. A isto se alia a imaginação poderosa do autor, capaz de criar cenários maravilhosos – O Ninho da Águia e suas celas abertas é apenas um deles – e detalhes realmente impressionantes, como o Trono de Ferro ou os sinos nas tranças de Drogo, o selvagem marido de Daenarys, uma das principais personagens da história, e senhor de uma tribo de guerreiros-cavaleiros com costumes muito próprios. Também chama a atenção a descrição dos figurinos e indumentárias dos personagens, que em muitos momentos me remeteu diretamente a “Excalibur” e até a “O Gladiador”, o que nem sempre foi interessante para esta leitora. Mas é preciso reconhecer que isso empresta um colorido esfuziante ao texto e faz do leitor um cúmplice na construção do todo.
Contudo, este primeiro livro é, na verdade, uma grande introdução. Nele, Martin centra sua atenção no desenho do cenário político da história, com suas complicadas alianças de amizades/inimizades e parentesco, e menos na história de Fantasia propriamente dita. O que é uma pena, porque quando ele se dedica ao Fantástico, seu texto toma um peso realmente extraordinário! Por outro lado, me incomodou profundamente a confecção de alguns nomes. Parece incrível que um sujeito tão capaz de criar personagens e lugares quanto ele, chame um lobo branco gigante pelo óbvio nome de de “Fantasma”, por exemplo.
O tom exagerado de alguns capítulos tampouco me animou, mas o que me aborreceu profundamente foi que as crianças da história (e são muitas, de diferentes faixas etárias) parecem todas ter a mesma idade e nenhuma delas parece ser tão criança quanto o texto diz que são. Para quem está acostumada as crianças sob diferentes tensões de um autor como Stephen King, por exemplo, as soluções encontradas por Martin não são nada convincentes.
Agora, o que definitivamente me afasta do restante da série, é a estrutura do romance. Cada capítulo é dedicado a um personagem, o que seria ótimo, se isso significasse uma troca de voz narrativa, o que em um livro tão longo, seria muito bem vindo. Assim, mesmo mudando a ótica através da qual a história é contada, seguimos ouvindo/lendo a voz do mesmo narrador dos capítulos anteriores. A verdadeira quebra que a estrutura do texto representou para mim foi a de expectativa. Saber que o capítulo seguinte àquele que estava lendo não seguiria a ação que prendia minha atenção no momento, mas saltaria no tempo e no espaço como se abrisse um novo livro, sem, contudo, me deparar com situações inusitadas, como acontece em livros de contos, simplesmente impediu que eu me engajasse seriamente na leitura. Isto, aliada a grande quantidade de personagens (são oito os que centram os capítulos, e cada um deles é cercado por uma verdadeira corte de nomes secundários, muitos deles apenas isso: nomes), terminou por me desencorajar, já que não consegui criar um elo de interesse com nenhum deles. Por outro lado, todos os personagens são protagonistas da história – nenhum capítulo é dedicado a transcrever os acontecimentos desde o ponto de vista de alguém que fosse apenas espectador dos acontecimentos, ou, melhor ainda, a um dos vilões, o que em um livro que prima pelo realismo, é algo que causa estranhamento. Além disso, todos os protagonistas são nobres – talvez se pudesse citar a exceção de Jon Snow, bastardo, filho de Eddard Stark, o principal personagem desta parte da história, mas se ele é bastardo, é tratado quase como um dos filhos legítimos do senhor de Winterfell. Parece que ao autor interessa apenas os grandes senhores. O representante das camadas mais baixas da sociedade apresentada no livro, aquele que sofre com as decisões dos grandes, com as reviravoltas dos poderosos, sem ter direito a, sequer, expressar sua opinião, tampouco encontra voz em seu criador.
Alguns leitores têm visto elos entre “A Guerra dos Tronos” e “O Senhor dos Anéis”, então talvez valesse lembrar que os heróis de “O Senhor dos Anéis” são um burguês abastado e seu criado pouco letrado e que os representantes das classes mais altas pelo menos dão um lugar a um deles no conselho de guerra. Romântico e ingênuo, sem dúvida, mas é interessante observar que um texto inglês, cujas raízes mergulham profundamente nos mitos e no folclore de um reino, se apresenta muito mais democrático do que o texto escrito pelo norte-americano Martin. O que não deixa de ser, como mínimo, curioso.
Em todo o caso, fica ainda o link http://blog.meiapalavra.com.br/2010/08/27/a-polemica-sobre-a-guerra-dos-tronos-no-brasil/, para quem quiser acompanhar uma discussão que se levantou com a adaptação da tradução de Jorge Candeias para o "português do Brasil", como se não falássemos o mesmo idioma. Uma daquelas coisas que as editoras fazem em terras tupiniquins e que só complicam a vida de quem não lê em inglês...
(12.06.2011)
Pura poesia
Na minha mais recente Feira de Livros, em Itaí, distrito de Ijuí, encontrei Maria Helena Zancan Frantz. Eu já a conhecia de outra feira de livros, desta vez em Augusto Pestana, no ano passado, porém desta vez deu para conversar um pouco mais.
Maria Helena é a autora de duas pérolas de poesia - dita "poesia infantil" - que eu recebi há algumas semanas mas que só agora poderei repassar ao meu público. São "Declaração Universal dos Direitos da Criança" e "Palavra Faceira", ambos da WS Editor.
"Declaração Universal dos Direitos da Criança" é uma carta de intenções infantis, dentro da coleção Criança Feliz. Neste pequeno e delicioso livro, o leitor pode esquecer um pouco as agruras da infância desvalida e em perigo, de certos países e grupos sociais, já que a Declaração da UNESCO visa defender a infância frente aos abusos, para entregar-se a alegria de ser, simplesmente, criança. Para os adultos, uma grande proposta de recordação das coisas que dão à infância a liberdade que depois a sociedade e as convenções sociais nos obrigam a deixar de lado: brincar no barro, trazer bichos para casa, enforcar o banho. Para as crianças um espelho das muitas coisas que fazemos, ou tentamos fazer (se nos deixarem...). O último verso, contudo, é uma reflexão sobre o protagonismo que a infância obtém hoje em dia. Para ler para si, em voz alta, com os outros, para os outros, dar de presente ou ter na sua estante. As ilustrações, delicadas, engraçadas e deliciosas são da sempre excelente Ana Terra, ilustradora gaúcha cuja principal marca é a poesia pessoal no traço sempre criativo.
Mas dos dois o meu predileto é "Palavra Faceira", que figura na Série Infanto-Juvenil. São 14 poemas nos quais Maria Helana esbanja criatividade e atrevimento do bom em torno deste ato mágico que é a própria palavra. Brincando com os sons e significados, a autora oferece poesia de qualidade, que faz rir e emociona, jogando, vez por outra, com o non sense poético. Dá vontade de memorizar todos eles para declamar em algum lugar especial como a hora de ir dormir, ou de comer o bolo de aniversário. Os desenhos, tão divertidos e poéticos quanto as poesias que ilustram, são de Nicole Dieter, e por si só, já levam o leitor por uma viagem cheia de diversão e magia.Assim, com esses livros tão saborosos, Maria Helena vem de encontrou a um grupo de leitores que andava meio desprovidos de novidades, os leitores de poesia infantil. Uma poesia que, quando feita com qualidade, encontra leitores entre grandes e pequenos. Porque, afinal de contas, todo mundo foi criança um dia. E porque, afinal de contas, todo mundo gosta de brincar com as palavras, esse jogo de armar ideias que nos deu a Literatura.
(29.05.2011)
Nobel
Resolvi me dar um presente: La tia Júlia y el escribidor, do Mário Vargas Llosa, no original, já que leio relativamente bem em espanhol. A Letras&Cia. do Novo Shopping, aqui de Novo Hamburgo me ofereceu uma edição da Punto de Lectura. Que presente! Meu ex-marido já tinha me indicado o autor - e posteriormente o título. De Llosa li Pantaleón y las visitadoras, que é simplesmente hilário, e La guerra del fin del mundo, que é soberbo. Me deu uma certa vergonha que tivesse que ser um estrangeiro a escrever algo sobre Canudos, e não um brasileiro que tivesse a coragem (?) ou a audácia (?) de escrever um romance sobre o assunto depois de Euclides da Cunha, e lá se vão mais de cem anos. Não entendo essas coisas, é como se os autores brasileiros temessem a própria História, aqueles assuntos que rendem romances, contos, de tudo, enfim. Como se ao não escrever sobre nossos momentos históricos, pudéssemos esquecer a vergonha que nos aflige certos episódios ou isentar-nos da culpa que por ventura tiveram nossos bisavós.
Então, como a prosa de Vargas Llosa não me era estranha, comprei o romance. Certo é que me afigurava uma história um tantinho diferente. Mas só um tantinho. Um tantinho que talvez um dia, sem medo do mestre, me atreva a escrever. Mas a diferença do que eu imaginava do romance, a partir dos comentários que meu ex-companheiro havia me comentado, nem de longe me decepcionou. La tía Júlia... com seu quinhão de autobiografia, é absolutamente divertido e irônico, cheio de tiradas excepcionais e um romantismo moderno e sem tolices. Basicamente conta a história de Mário, de dezenove anos, que se apaixona pela tia Júlia, uma boliviana divorciada, e tudo isso em plena Lima dos anos 70. Pelo meio do romance, está o trabalho incansável e inenarrável do escritor de novelas radiofônicas, Pedro Camacho. A delícia maior é quando Camacho começa a misturar os personagens de suas inúmeras histórias, confundido pelo excesso de trabalho. O que causa estranheza em um primeiro momento revela-se proposital e leva o leitor da maravilha ao caos e questão de poucas linhas.
Embora não seja comemorada como a obra maior do atual prêmio Nobel, La tía Júlia é um dos romances mais divertidos e bonitos que já li e recomendo com fervor. Até porque em muitos momentos a gente percebe o quão parecidos somos os sul-americanos, como em várias coisas e ditos nos parecemos, bebendo como bebemos, dos mesmos ventos e das mesmas águas deste vasto continente, tão desconhecido quanto belo.
Trágico, divertido, deliciosamente bem escrito. Vale a pena lê-lo no original para não perder a cadência e a força da verve de Vargas Llosa, aliás "Marito", como prefere a protagonista feminina deste romance moderno com sabor de clássico.
(23/04/2011)
A noite na pele
Lançado na semana passada, o novo livro de Caio Ritter reuniu amigos e fãs na Letras&Cia. no último sábado. Trata-se de Pedro Noite, editado pela Editora Biruta, de São Paulo, como belíssimas ilustrações de Mateus Rios.
O livro conta, através da prosa poetizada de Caio, a história de Pedro, um menino negro que sofre por causa da cor de sua pele. Além de não ter muito clara a história de suas próprias origens, o pequeno ainda tem de aturar o preconceito de uns e o deboche dos colegas - o bulliyng, tão em voga hoje em dia nas tristes notícias dos jornais. Tudo isso termina fazendo nascer em Pedro um sentimento de repulsa pela própria cor, uma das coisas mais trágicas, talvez, que o preconceito gera: a negação de si mesmo. Contudo, existe um personagem que tem o poder de mudar isso: Juvenal. Apesar de sua condição ser ainda mais frágil que a do menino, porque além de exibir a mesma cor escura, Juvenal é velho e pobre, será justamente ele quem dará a Pedro as respostas que precisa e lhe mostrará que grandeza não é uma questão de cor ou condição social.
Caio comenta na orelha do livro que a história nasceu de ouvir a história de vida de um amigo, relato que o comoveu e o levou a criar a narrativa em forma de poesia. É a vida real gerando a arte que consolará e redimirá a vida real de muitas crianças que poderão se identificar com Pedro e aprender com ele a importância de saber quem são.
Merecem um comentário à parte as ilustrações do livro. O trabalho de Mateus Rio se rivaliza à poesia do texto, complementando os versos e em alguns casos, inclusive, roubando a cena para si, o que dá ao livro uma segunda leitura própria: a leitura das ilustrações como um texto à parte que, sem ser dependente, completa e valoriza o texto escrito. Assim, "Pedro Noite" também se oferece aos leitores que ainda não tem intimidade que a palavra escrita, podendo ser curtido em diferentes momentos da vida do leitor. E para quem já for um pouco maior e se espantar com as palavras diferentes que vai encontrar no texto, o livro ainda oferece um Vocabulário Yorubá, que esclarece as dúvidas que não serão resolvidas no dicionário, além de uma pequena explicação sobre o idioma Yorubá e como ele veio parar no Brasil.
Para ler, ver e descobrir.
(14/04/2011)
Maluquice animada
Estava eu passando por uma banquinha da Feira do Livro de Porto Alegre há uns dois ou três anos, quando o título me acenou entre os demais: "O Castelo Animado", de Diana Wynne-Jones, editado no Brasil pela Record, com tradução de Raquel Zampil.
Imediatamente o agarrei, antes que, de acordo com o título, o castelo de Howl inventasse de desaparecer entre os demais volumes da deliciosa muvuca literária, caminhando e enfumaçando o ar como de hábito. Queria entender mais a história de Sophie e Howl, já que o maravilhoso desenho animado de Hayao Miyazaki- que já vi umas duas vezes - sempre me deixa mais confusa do que esclarecida. Afinal, que é Howl de fato? Descobriria nas páginas da criadora de "Os mundos de Crestomanci" a resposta?
Sim e muito mais!
Começa que o melhor do texto de Diana - falecida na última semana, infelizmente - é o bom humor. E segue que ele irá romper com todos os paradigmas costumeiros das histórias de fadas e fantasia. Sophie não é a mais jovem de três irmãs, é a mais velha. Sua madrasta não é ruim nem feia, é bonita e trata a ela e suas irmãs com o mesmo carinho. Elas não são pobres, mas de classe média. E quando tudo parece encaminhado, Diana dá o toque de mestre: tranforma a jovem bonita, com a vida inteira pela frente, numa velha de 90 anos.
Adeus às alegrias, às aventuras e ao amor?
Não mesmo! Aí é que a vida de Sophie realmente começa. O que começa com uma fuga - uma vez transformada em velha, Sophie foge para que suas irmãs não a vejam naquele estado - termina no castelo do Mago Howl, um castelo que caminha, literalmente. Mas não apenas isso: desde dentro do castelo é possível chegar à outras cidades, através de uma porta mágica. Todas as aventuras, toda a vida só acontece a partir deste lugar mágico e especial.
O "terrível" mago Howl se revela um dos personagens mais deliciosos da literatura infanto-juvenil e de fantasia. Irresistívelmente charmoso e namorador ao extremo, Howl é também vaidoso e mimado, o que dá ao estranho casal uma química iniguilável. De fato, sabe-se que desde o início que Howl é o único capaz de perceber que Sophie não é a anciã que parece ser, e com o desenrolar da história, compreende-se que entre ambos existe um sentimento muito mais profundo do que as paixões que andam vicejando por aí.
Ao longo da deliciosa narrativa, Howl e Sophie constroem uma parceria que se tranforma em amizade e em amor, sem que nenhuma única vez o substantivo seja usado. Sem duvidar da capacidade do leitor, a autora o transforma em seu cúmplice.
A história é meio amalucada, entretanto. Há montanhas de personagens, dezenas de regras mágicas e muitos momentos espetaculares. Howl usa a mágica como quem respira e Sophie descobre mais adiante que a mágica também pertence a ela. "O Castelo Animado" é uma narrativa de como como uma garota transformada em velha por uma bruxa redescobre a juventude. Talvez nos devessemos perguntar se essa bruxa não se chamará "vida", a magnífica e terrível feiticeira.
E com um otimismo capaz de reduzir a pó todas as tragédias, a autora nos conta que apenas o amor é capaz de redimir o passar do tempo e nos devolver a juventude. Se Sophie tivesse prestado atenção no que Howl lhe dizia já na metade do livro, teria descoberto isso antes.
Mas então nós não teríamos a maravilhosa metáfora do final. Tão linda e divertida que a gente ainda está rindo quando compreende: a verdadeira tarefa de Sophie é devolver a Howl seu coração e não transformá-lo. Apenas o coração é capaz de transformar a si mesmo.
(17/03/2011)
Fica para outra vez
Eu tenho desses mistérios.
Levo anos procurando um livro. Às vezes nem sei se é livro mesmo, fico na dúvida. Daí, um dia, encontro. E melhor ainda, em uma promoção!
É claro que comprei!
E aí o livro se revela: ótimo texto; narrativa sonora e poética; muitas aventuras; uma personagem feminino que não é frágil nem tolo; e tudo isso em um livro de literatura brasileira, assinada por ninguém menos do que Rachel de Queiroz.
Tudo de bom!
E eu fico naquela lenga-lenga. Incapaz de me envolver na história. Incapaz de sentir um mínimo de empatia pela personagem. In-ca-paz. E fico me sentindo na dívida com amigos que amam a literatura brasileira de alto calibre. Que me estimulam a ler nossos grandes autores. Parece que eu tenho de gostar, obrigatoriamente, e na mesma medida que gostaria de outros títulos de qualidade literária muito menor, que eu comento aqui frequentemente e com muito mais paixão. Livros que eu sei que estão a um passo do “ruim”. Que no máximo são medíocres, mas com os quais crio uma afinidade, um laço que me faz discutir os capítulos com emoção.
Eu não sei explicar isso, mas gostaria de compartilhar esse sentimento com os leitores contumazes dos meus comentários literários, que não são críticas, no sentido profissional ou acadêmico da palavra, porque eu não tenho formação acadêmica para isso.
Vamos falar, então de “Memorial de Maria Moura”, editado pela Edições BestBolso, e que há alguns anos foi tema de uma minissérie da Globo. Eu não assisti porque não tenho paciência para ver novela de nenhum calibre, salvo o último capítulo onde havia uma explosão fenomenal e onde a Maria Moura da Globo saia do seu reduto para matar uns quantos cabras inimigos. O final era espetacular, aquela mulher que preferia morrer a se entregar. Também pesquei algumas cenas no Youtube, para me ambientar, tentar entender quem fazia que papel, essas coisas.
Nada a ver.
Desistamos, portanto, da versão televisiva.
Comprei o livro e me atirei nele com entusiasmo. O texto é gostoso de ler. Se constrói na tradição de Ariano Suassuna e Guimarães Rosa, com aquela oralidade que dá tanto ritmo à narrativa. Conta a história de Maria Moura, de como decidiu sobreviver por si mesma em uma sociedade fundamentalmente machista e firmou seu nome entre os “cabra macho” do sertão. Também conta a história de Marialva e Valentim, mais suave e romântica que a da própria Moura e a o Beato Romano, um padre perseguido por seus próprios demônios interiores, em forma de lembranças. Cada capítulo é contado desde o ponto de vista de um personagem diferente, o que confere diferentes vozes ao texto, o que não cansa ou aborrece o leitor. A edição da BestBolso conta ainda com prefácio de Tércia Montenegro.
Contudo, há algo no texto com o qual não consegui me identificar. Talvez tivesse ficado, na verdade, um travo, um gosto estranho, como se faltasse algo. Fiquei sentindo falta de atar certas pontas. Cadê o conflito final entre Moura e os primos? Cadê o encontro furibundo entre Firma e Marialva? E as terras que ela ocupa são mesmo suas, afinal? Não a vão encarcerar nenhuma vez? Não haverá nenhuma fuga espetacular, logo dela, que promoveu a fuga do amante traidor, só para poder fazer a própria justiça? E que grande Maria Moura é esta que, afinal, ao invés de realizar a sua justiça, ou pelo menos vê-la se cumprindo, ordena a outro que o faça em seu lugar? Me incomodou tudo isso, essas perguntas sem resposta. Eu sei que a Maria Moura de Rachel, que a vida da Maria Moura de Rachel, estão muito mais próximas à vida real do que muita outra coisa que leio, mas Literatura, para mim, não é a vida real. É uma chance de ver a vida real ter sentido. Ver as suas pontas serem atadas, já que na realidade nunca se sabe se teremos essa oportunidade.
Creio que foi isso, essa ausência de resoluções, de respostas, essas pontas todas em aberto, que me incomodaram, que me impediram de, realmente, sentir uma ligação profunda com os personagens ao ler esse texto. Até a última página fique esperando a volta dos primos, a fúria de Firma. Afinal de contas, a peste não parece tão ruim agora, parece, apenas, estridente.
Mas, enfim, não me levem tão a serio. Sou apenas uma leitora capaz de dizer “o texto é ótimo e o livro é muito bom. Haverá quem o adore. Foi o último romance de Rachel de Queiroz, primeira mulher na Academia Brasileira de Letras, um fecho de ouro, nas palavras de Tércia Montenegro. Infelizmente, a mim não cativou. Fica para outra vez.”
(28.02.2011)
Esconde-esconde
Não, não me apaixonei. Sim, eu sei que Adam Ardrey não é historiador, é advogado. Mas Robert Graves também não era e "A Deusa Branca" foi e ainda é muitas vezes usado como referência para pesquisas. Sim, eu sei que comparações são nojentas, então vou parar por aqui. Mas que fique bem claro: não me apaixonei.
Que fique bem claro também: não sou historiadora nem crítica literária. Apenas uma leitora curiosa e interessada no personagem principal da pesquisa de Ardrey. Por isso mesmo me pergunto porque ele não escreveu um romance em vez de um livro de pesquisa. Afinal, seu texto é bem melhor do que muita coisa que anda se vendo por aí, então creio que um romance teria sido a melhor saída para ele. Mas, enfim, ele optou por um livro de pesquisa.
Não que eu não tenha aprendido algo. Aprendi e muito. O que para os que curtem Merlim, mas não tem por hábito mergulhar de cabeça na literatura medieval ou mesmo em livros especializados sobre o assunto, o livro vem em bom momento. E o livro é "Em busca de Merlim", de Adam Ardrey, editado pela Record e traduzido por Rafael Aragon Guerra.
A obra procura desmistificar Merlim enquanto personagem histórico, desenhando um panorama bem diferente daquele que se está acostumado a vislumbrar nos romances em torno destes personagens e da gesta de Arthur - e esta é uma contribuição que não se deve desprezar. Ele esclarece muitos pontos, apresenta novas alternativas e inclusive tenta identificar onde ficaria a tumba original do druida que lutou bravamente para manter a forma de vida dos antigos celtas diante da novidade cultural e social que representava o advento do cristianismo na Europa pós Roma. Com um olhar arguto de quem está habituado a compreender as entrelinhas das leis e dos processos, Ardrey nos mostra um cenário político muito interessante e muito diverso, baseando-se em livros e manuscritos que foram produzidos em épocas muito mais próximas a da vida de Merlim, do que os romances de cavalaria que terminaram por imortalizar homens e mulheres que atuaram neste enigmático universo cheio de símbolos pagãos e cristãos. Ele comenta, por exemplo, que provavelmente o nome verdadeiro do personagem jamais seja conhecido, pese a que o de sua irmã gêmea sim (e aí está um dado inédito para mim - mas, de novo, não sou expert no assunto), já que ela foi rainha, enquanto que Merlim foi sempre a eminência parda, cujo nome passou por adaptações e apelidos variados.
Contudo, é justamente na leitura das passagens referentes à Langoureth, esposa de Rhydderch, rei de Strathclyde, região que teria sido habitada por esses personagens, que a mirada arguta de Ardrey parece falhar. Em várias passagens me pareceu que ele poderia ter ousado muito mais, mergulhando no universo mítico celta, mas que parou à margem dele sem atraver-se a ir adiante. Para um autor que afirma em certo trecho, que uma das histórias referente à mulher de Merlim (sim, o druida era casado e mulherengo!) é uma metáfora para a comunidade ainda voltada para os velhos ritos pagãos, a gente fica com a desconfortável sensação de que toda a pesquisa teria dado para muito mais.
Digamos que o livro é uma boa introdução, dando ao leitor comum vários fios para seguir procurando por trás da lenda o homem que atuou ao lado de Arthur, mas que, como toda a Europa, terminou engolfado pelas trevas da Idade Medieval. Anos de sabedoria perdidos em mil anos de sombras supersticiosas, ignorância e lendas.
(14.02.2011)
Duas vezes Brasil
A ideia é interessante: o livro tem tamanho de bolso, a capa é bonita e resistente e o preço uma gracinha. Para completar, os volumes da coleção "Duplo Fantasia Heroica", do selo Asas do Vento, da Devir, trazem não uma única história, mas duas, de dois autores diferentes (afinal o título da coleção é bastante revelador neste sentido), o que oferece ao leitor costumeiro do gênero, a possibilidade de conhecer dois autores (se já não os conhecerem) e curtir duas histórias, com estilos de escrita bem diversos, com espaço diponível para agradecimentos, esclarecimentos e apresentações.O volume que abre a coleção traz as narrativas "O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara", de Christopher Kastensmidt, e "A Travessia" de Roberto de Sousa Causo. Ambos exploram o Novo Mundo a partir da ótica da fantasia e vários blogues já falaram sobre eles, então acho meio difícil dizer algo novo. De certo, vou é chover no molhado. Mas, de guarda-chuva em punho e galochas postas, vamos lá.
Bairrista que sou - ninguém ignora a meu discurso de "nossa Fantasia tem elementos tão maravilhosos quanto a Fantasia européia" - fiquei toda feliz em ler "O encontro fortuito de Gerard von Oost e Oludara". Primeiro porque Chirstopher Kastensmidt é norte-americano. É verdade que ele está há dez anos radicado no Brasil, vivendo e trabalhando em Porto Alegre, mas ainda assim Kastensmidt poderia muito bem se ater às influências culturais de suas origens e se esbaldar na Fantasia Heroica mais tradicional. Contudo, Christopher demonstra paixão e interesse pelo fantástico brasileiro. Seu conto não apenas fala sobre bandeirantes, mas também lança uma ótica sobre o mundo afro-brasileiro. Talvez ele esteja vendo o que muitos autores nacionais, que preferem mergulhar no imaginário de origem europeia, muito mais fácil e resolvido, preferem não ver: que a matéria prima para o Fantástico nacional é um continente a ser desbravado. Assim ele nos oferece a possibilidade de pensar em herois à brasileira, sem ter de passar, necessariamente por Macunaíma e seus decendentes culturais, amorais e debochados. Tudo depende, sempre, do que o autor quer dizer nas entrelinas. Se Mário de Andrade e seus colegas de '22, ou os que vieram depois deles, estavam preocupados em provar que o Brasil é um país com um caráter, no mínimo, duvidoso (afinal Macunaíma é o "heroi sem nenhum caráter", o que nos leva a pensar que tipo de país pode ser representado por um personagem desses), alguns escritores que pipocam por nosso cotidiano estão interessados em demonstrar que com caráter ou sem ele, o Brasil é uma fonte deliciosa de criaturas mágicas.
Chistopher fica no básico: boitatá e o saci, bandeirantes e escravos (e um dragão em terras africanas para temperar). São escolhas óbvias mas sábias: são de fácil acesso à qualquer leitor brasileiro (você não precisa ficar explicando muito quem eles são) e facilmente "pesquisáveis" (se autor ou leitores precisar de um suporte teórico mais amplo). O caso é que "O encontro fortuito..." é a primeira de muitas aventuras possíveis de Gerard e Oludara e é exatamente isso: uma apresentação. O assunto parece que renderá, pois Kastensmidt já editou esse mesmo texto no número de abril de 2010 da revista america "Realms of Fantasy" e está trabalhando em outros da mesma dupla de personagem. O simples fato disso ter acontecido, demonstra que o mercado internacional tem interesse em uma Fantasia diferenciada - desde que apresentada em um idioma que os leitores estrangeiros conheçam.
Já "A Travessia", de Roberto Causo, mergulha ainda mais profundamente no mundo encantado da Amazônia, continuando a saga de Tajarê e Sjala, iniciada em "A Sombra dos Homens". Desta vez, o casal de protagonistas tenta voltar para a taba de Tajarê, atravessando uma floresta cheia de criaturas tão monstruosas quanto fantásticas, fruto da inventividade selvícola e do talento do escritor. Aliás, o que mais me chamou a atenção em ambos trabalhos de Causo foi justamente a capacidade de criação textual que ele oferece, incluindo uma prosa cheia de inventividade estética, poética e sensual, em um gênero que se distingue, muitas vezes, em premiar a ideia do enredo em detrimento da qualidade do texto. Se em "A Sombra dos Homens" Causo criou dois textos, um para contar a história da sacerdotiza viking perdida em terras brasileiras, e outro para o guerreiro tupi que a acolhe em sua taba e seu coração, em "A Travessia", o texto inerente ao guerreiro ganha mais espaço e força - e bem que o merece! Talvez um pouco mais desafiante para o leitor, é nesse quesito que "A Travessia" se sobressai à maioria. Poesia em forma de prosa, buscando os limites do idioma escrito para oferecer uma Fantasia brasileira com um texto em si mesmo fantástico, experimentando com a ideia, com o gênero e com o suporte idiomático.
Afinal, não é só por se tratar de um mundo fantástico que o texto tenha que ser sem desafios - mas sim, ser um texto desafiante justamente por criar um mundo fantástico. O texto de Causo tem exatamente esse sabor.
(06.01.2011)
Literatura: Canção de Tinta
Aqui estou diante de uma imensa dificuldade. E a dificuldade vem de um sentimento poderoso, que eu não tinha desde uns vinte e poucos anos.
Desde que terminei "O Senhor dos Anéis" pela primeira vez, em uma madrugada, chorando feito uma madalena arrependida, não porque o final fosse triste - embora tampouco fosse o que eu chamo de um "final feliz" - mas porque o livro ia acabar.
Não ia mais haver aventuras de Sam e Frodo. Não poderíamos mais percorrer caminhos juntos, porque um dia as histórias, assim como a própria vida, tem um fim.
Me senti desamparada.
Mas depois, fiquei dias impactada pela força daquela narrativa, embalada pelo texto que havia terminado de ler. Ele passara a fazer parte de minha vida. Sam e Frodo tinham deixado de ser personagens puramente fictícios. Tinham me dito coisas e vivido outras e tinham me provado que o que eles tinham para me contar possuia um valor inefável.
Senti-me exatamente assim quando terminei "Morte de Tinta", a conclusão da trilogia iniciada em "Coração de Tinta", de autoria de Cornélia Funke, editado no Brasil pela Cia das Letras, com tradução de Carola Saavedra e ilustrações da autora.
Ainda não abri nenhum outro livro depois de terminar a leitura de suas 565 páginas. Não tenho coragem. Tenho medo de calar a canção do Gaio que ainda ressoa dentro de mim. Tenho receio de destruir sua melodia. Felizmente, soube dosar a leitura - consegui dosar a leitura - de modo a que durasse o máximo possível, porque mesmo com esse tamanho, eu poderia tê-lo devorado em menos de uma semana.
E contudo, não é um livro perfeito. Suponho que de uma certa maneira, Cornélia tenha lembrado no último instante de que a trilogia, apesar de tudo, tem um apelo irresistível para crianças, o que nos dá alguns deslizes quanto ao destino dos personagens, o que, por sua vez, talvez justifique a crítica negativa que o livro recebeu na Europa.
Mas, pensando bem, "O Senhor dos Anéis" também os tem.
A história de "Morte de Tinta" segue a partir do ponto em que o volume anterior, "Sangue de Tinta", nos deixou. As coisas não vão nada bem na narrativa de Fenoglio, e tudo tende a piorar. Mesmo quando o reforço chega, fica difícil crer que Mo, Meggie e Resa vão conseguir dar a volta na situação. Tudo está contra eles, tudo, menos o texto absolutamente impecável da autora, um texto maravilhosamente bem escrito, poético, terrível e vibrante. Se no primeiro livro Funke ressaltava a arte da leitura em voz alta, e se no segundo celebrava a comunhão entre o escritor e o leitor, neste, agora, ela joga diretamente com a imaginação. É Fenoglio quem escreve a história? É Orfeu? É a própria história quem escreve a si mesma? Seus personagens, que ao realizar o que está escrito, mudam o próprio texto, reescrevendo o destino? Será alguém de fora do livro? Quem escreve os livros que são todos o mesmo livro? Os leitores? O escritor? Nós escrevemos os livros, ou apenas vislumbramos janelas de um mundo à parte, sobre o qual não temos controle algum? E não fazemos nós parte de uma história também? Afinal, os personagens de "Coração de Tinta" não sabem que são personagens...
Estas indagações filosóficas sobre o próprio ato de contar histórias e criar o destino a partir do próprio Destino, nos são entregues através de uma narrativa empolgante, cheia de mistérios, dramas, com personagens apaixonantes e fortes. É difícil comentar qualquer coisa, porque seria entregar o conteúdo de uma história rica, e eu jamais faria isso com os leitores que ainda não tiveram a oportunidade de curtir o livro.
O que se pode dizer, é que "Morte de Tinta" fala do que somos e do que podemos ser (para o bem ou para o mal). E também fala sobre o que somos na verdade, e na importância de preservar isso diante do mundo que nos cerca com suas ameaças e exigências. No personagem de Mo, Cornélia coloca todo o peso dessas reflexões e para quem acompanhou a narrativa desde o início, é maravilhoso ver as transformações pelas que passa o Encadernador. Eu gostaria de acreditar que todos nós somos capazes de ser o Encadernador e o Gaio ao mesmo tempo, sempre.
O livro também é a história de um primeiro amor, e neste ponto ele é muito mais realista do que se poderia esperar em um livro cheio de fadas e unicórnios. Devo dizer que eu não gostei do final de Farid e Meggie, mas reconheço que não poderia ser diferente. Se fosse, talvez toda a narrativa de "Morte de Tinta" se transformasse em papel molhado. Quase morri de ciúmes! Quase chorei de ódio. Mas a vida é assim mesmo.
Alguns capítulos merecem destaque especial. "O livro", por exemplo. Fazia muito tempo que eu não sentia o coração bater tão acelerado em um texto. As partes dedicadas ao íncubo são aterrorizantes. E o último capítulo é pura poesia. Fiquei com a impressão de que toda a trilogia foi escrita para aquele menininho! - a parte de que é antologico em sua qualidade, jogando com os tempos verbais e levando o leitor de uma promessa a uma certeza. Difícil, muito difícil. Haverá quem prefira a parte em que o Gaio vai até as ameias do castelo. Ou aquela em que Mo retorna ao mundo das Damas Brancas. Ou a história do Gigante. Ou a da andorinha. Ou...
Enfim, todas as outras.
Ainda reluto em abrir o próximo livro. Não quero que essa canção se cale tão cedo.
Como disse Alcione Araújo, "a Literatura não acontece nos livros, acontece no coração".
Então, silêncio. Deixe-me ouvir mais um pouco esse Gaio cantar.
21.01.2011
Um conto de sombras e prata
Quando eu era criança, costumava contar uma historinha cruel para mim mesma, antes de dormir: era a história de uma menina que sofria um assalto terrível e terminava refugiando-se em um cemitério. Dada como morta, a criança era resgatada pelos fantasmas que habitavam o lugar e finalmente sobrevivia para voltar ao mundo - coisa na qual, na verdade, ela não estava muito interessada naquele momento. O mundo dos mortos era muito mais acolhedor e interessante. Os mortos não estavam interessados em fazer mal a ninguém.
Já os vivos...
Por isso, ninguém pode imaginar a surpresa que tive quando li a sinopse de O Livro do Cemitério de Neil Gaiman, editado pela Rocco, com tradução de Ryta Vinagre (com um destaque especial para para as ilustrações de Dave McKean, que, como sabem os leitores do Sandman, assinou várias capas do lendário gibi). Era como se a minha história estivesse ali, plasmada nas páginas do livro, com duas grandes vantagens: a primeira é que agora eu poderia saber o final da história, já que de pequena eu dormia, invariavelmente, antes mesmo de chegar à metade do meu próprio relato.
E a segunda era contar com um texto escrito por um dos melhores escritores de Fantasia. Tudo o que eu tinha de fazer era comprar o livro e ler.
Delícia!
Foi o que eu fiz. Mas no começo, confesso, tive de abandonar a leitura. Problema de horários e de disposição anímica. Tive o receio de ter nas mãos outro Coraline, livro de Gaiman pelo qual não nutro a menor simpatia.
Ledo engano.
O Livro do Cemitério é a melhor coisa que já li de Gaiman (mas também é verdade que não li tudo). De vez em quando lembra Alice no País das Maravilhas, de vez em quanto lembra Peter Pan, mas não é nenhum deles, é simplesmente ele mesmo, o livro que conta a infância de Ninguém Owens. Sombrio, enevoado, prata e luar, o livro é para ser lido, relido e curtido muitas vezes. Um texto impecável que flerta com os limites do literário e do poético. Só a sua qualidade já justifica sua leitura. A qualidade da história narrada é o prêmio extra.
Nin Owens sobrevive ao assassinato de sua família refugiando-se em um velho cemitério no alto da colina do bairro onde mora. Ali recebe o carinho e a acolhida dos habitantes do lugar, velhos fantasmas de diferentes épocas, que se esmeram em lhe dar educação. A infância de Nin, então, será marcada pelo estranho, mas não pelo mórbido, nem pela estagnação: se há uma coisa que o cemitério onde vive Nin não é, é um lugar calmo e sem agito. Há de tudo, bruxas, poetas, professores, guardiães, monstrinhos divertidíssimos e mistérios para se resolver com coragem e inteligência. Maravilhoso o tratamento dado pelo autor aos guardiães de Nin, aliás, que a gente adivinha o que são o tempo todo, mas cuja natureza não é citada nenhuma vez, salvo a da Srta. Lupesco.
O livro tem uma leitura psicológica impecável, e mesmo o único senão que me ficou - o fato de Nin ser um "predestinado", tema que não me apaixona nem um pouco - se encaixa nisso. E ainda por cima, o autor faz uma reflexão sobre a predestinação como destino, ou como uma situação à qual o protagonista é levado por ação dos vilões que tem medo do cumprimento de uma profecia. Ou seja, as profecias se cumprem porque devem se cumprir, ou somos nós que, arrastados pelo medo, lutamos contra elas, criando situações que fazem com que elas se cumpram, finalmente?
Reflexões à parte, O Livro do Cemitério é uma história de prata e sombras para falar da infância e do crescimento. De ser inocente, de ser forte, de ter coragem, de ser sozinho em si mesmo, de assumir sua identidade tal como ela é. Pode ser lido como um conto infantil, adolescente ou adulto, como você quiser: como todo bom livro, a história de Nin dirá uma coisa diferente a cada leitor, a cada faixa etária. Um autêntico conto de fadas sob o luar, entremeado de sombras e magia.
Aliás, como todos os contos de fada deveriam ser.
Dezembro 17, 2010
Para quem coleciona dragões
Entre tantos dragões que têm surgido no cenário literário infantil e infanto juvenil, fica difícil conseguir inovar. Desde que Draco, de "Coração de Dragão", apareceu com seu humor irônico e um coração capaz de ser compartilhado, surgiram lagartixas crescidas de todos os tamanhos, variedades, cores e humores.
Contudo, Naomi Novik consegue oferecer uma aventura diferente aos seus leitores, completamente focada na figura de Temeraire e seu companheiro humano Laurence, principalmente porque ela imprime ao seu dragão uma personalidade. Parece tolice dizer isso, mas realmente, Temeraire se distingue porque tem mida própria e uma forma própria de pensar, à qual a escritora anexa um cenário espetacular, com detalhes que poderiam figurar em qualquer clássico da época pré-vitoriana. O cuidado com o vocabulário de seus personagens, o tratamento dado aos relacionamentos sociais, tão complicados na Inglaterra em guerra com a França napoleônica fazem de "O dragão de sua Majestade" (Galera Record, tradução de Edmo Suassuna Filho) um livro especial. Não é apenas aventura e lutas espetaculares - elas existem em uma medida muito menor do que eu esperava à princípio - mas um retrospecto das geladas e delicadas formas de relacionamento da época, onde muito pouco se dizia e muito se tinha de deduzir. Interessantíssima é a trajetória do capitão Laurence, que de capitão da Marinha britânica se vê "transferido" para o corpo aéreo do contingente bélico inglês, por conta da conquista de um ovo de dragão. Pois no mundo de Novik - claramente uma narrativa ao estilo "o que aconteceria se existissem dragões" - dragões existem e compõem a força aérea de seus países, mesmo que não tenham tão clara a noção de "país" ou "nação". A única fidelidade dos enormes e maravilhosos animais é para com seus cavaleiros, nem que isso os leve à morte.
De início, Laurence encara a tarefa de servir no corpo de aviação como um guinada negativa do destino. Contudo, Temeraire conquista rapidamente o coração do ex-marinheiro - e dos leitores. A cena de nascimento do animal é simplesmente maravilhosa e se alguém não gostava ou não ligava para dragões até aqui, com certeza vai pedir um de Natal!
Empenhados em fazer parte do contingente que irá enfrentar as tropas napoleônicas durante o bloqueio europeu contra as forças napoleônicas, mas também interessados em conhecer a origem do animal, o dragão e seu cavaleiro são transferidos à um enclave de treinamento, onde tomam contato com outras raças de dragões e outros personagens. E se Temeraire descobre o mundo à sua volta, Laurence vai descobrindo aos poucos outras formas de se relacionar com seus iguais, de modos muito menos formais do que os que ele está acostumado a ter. O livro, afinal, tem um fundo histórico, citando personagens como o almirante Nélson, ou batalhas, como o cerco à Trafalgar. É uma narrativa de história alternativa muito bem elaborada, rica em detalhes da época.
Eu disse que as cenas de ação são relativamente poucas, ou, no mínimo, menos que eu esperava para um livro que fale sobre um dragão engajado no Serviço Real. Mas isso não quer dizer absolutamente nada. A força da narrativa de Novik é tamanha, que cada cena de batalha tira o fôlego e faz com que a gente queira devorar as próximas páginas o mais brevemente possível, embora ao mesmo tempo dê vontade de se deter nas descrições primorosas, nos parágrafos elegantes ou imaginando as cenas que ela pinta com tanta maestria.
Mais uma vez, contudo, estamos tratando com uma série - o primeiro volume dela. Que bom, se os próximos livros forem tão bons quanto o primeiro. Que desastre, se a Galera Record resolver ficar só neste título, uma vez que o mercado brasileiro se rege por números impossíveis de comparar com os resultados de venda do lado de lá do Atlântico. Esperemos pelo melhor e pelos próximos volumes: a deduzir pelos títulos, Temeraire ainda tem muitas maravilhosas batalhas para lutar e nós muitas páginas emociontes para ler. Ainda bem!
Dezembro 10, 2010
Solo para trio e corpo de baile
Sim, o mercado está cheio de livros de bailarinas: princesas bailarinas, ratinhas bailarinas, meninas bailarinas, gatinhas bailarinas. Mas estes são livros de belas ilustrações cor de rosa que falam à crianças perfeitas sobre mundo perfeitos.
Caior Riter em seu "O outro passo da dança", da Artes e Ofícios Editora, oferece uma outra história de dança da vida real: a história da perda, do preconceito, dos sentimentos. Longe das páginas cor de rosa, de arabesques perfeitos e pirouettes triplas, o autor constroi com inteligência e sentimento a história de Ana, Bernardo e Celina, o trio "ABC" de protagonistas de um romance jovem e ágil.
O livro conta a trajetória de Ana, aluna de balé, que cruza o seu caminho com o de uma bala perdida - e por conta disso fica paraplégica. Uma proposição chocante para uma pessoa, como eu, que vive da dança, e que incomodou profundamente, atemorizando por demais esta leitora. Mas o livro não é só isso. Também é a história de Bernardo, também bailarino, que enfrenta o preconceito familiar e dos amigos da escola, as provocações constantes e a solidão que o proconceito impõe em qualquer situação. E também é a história de Celina, em constante rivalidade com a mãe. E as história da vó Luzia. E o Filósofo, a Eliza, o Danilo, o Moicano, o Careca...
Bom, mas tudo isso, o leitor pode saber passando os olhos sobre a orelha do livro ou lendo o que os fãs do livro e do Caio vão escrever internet a fora.
Falemos então sobre a forte impressão que este texto me deixou, sobretudo no princípio. Construído com frases curtas que flertam continuamente com o texto poético, e dividido em pequenos capítulos, o livro se destaca por uma história corajosa e uma diagramação diferenciada que alterna as cores das páginas e das letras, e a forma do texto, com excelentes lustrações de Jocaré. Tudo no livro é de muita qualidade, e tudo no livro tem a ver com tudo. Ou seja, ilustrações, diagramação, texto e história, tudo se une para construír a unidade de objeto-história que não se corta ao falar do imenso pavor que a vida moderna pode oferecer ao jovem. Não precisa ser bailarino para entender a tristeza de Ana, ou a solidão de Bernardo, ou ser ativista político para compreender a frustração de Celina. Basta ser humano.
Por outro lado, também chama atenção a coragem do autor em explorar um mundo do qual ele realmente não faz parte, ou seja, o mundo da dança. E no entanto, ele se sai muito bem, oferecendo ao leitor um texto que parece ter saído da pena de um bailarino. As sensações de liberdade, revolta e alegria, a força, o prazer dos movimentos ao som da música, as inspirações súbitas que nos acometem nos momentos mais simples, Caio conseguiu captar tudo com extrema sensibilidade. Para que me venham dizer outra vez que um escritor só deve escrever sobre o que conhece pessoalmente!
A grande verdade, é que "O outro passo da dança" explora não um universo à parte, mas os sentimentos humanos, sem barreiras ou preconceitos. O que me deixa ainda mais feliz: apesar de o mundo da dança parecer um mundo fechado aos demais mortais, ele é, na verdade, apenas mais uma faceta deste mistério surpreendente que é o ser humano. E, assim, é um espelho maravilhoso para que possamos entrever todas as belezas e mazelas que nos fazem iguais e únicos ao mesmo tempo, nós, os componentes deste imenso corpo de baile sob o céu.
Novembro 14, 2010
140 caracteres
O desafio é claro: escrever uma história utilizando 140 caracteres de cada vez. Parece fácil, mas não é: a Literatura não se faz apenas com o relato de uma ação, mas com estilo e tensão. Mas em seu novo livro, "Do coração de Telmah", editado pela Artes e Ofícios, Dill não apenas conta a história de sua protagonista, como ainda o faz com requintes de narrativa, utilizando vários recursos estilísticos e contando com versos de Álvares de Azevedo.
E não por acaso, "Telmah" é a colocação inversa das letras de "Hamlet", a peça imortal de Shakespeare. De fato, o livro é um diálogo claro e desabrido com a história do príncípe dinamarquês, seguindo-lhe os passos trágicos através dos passos da filha do traficante-chefe do fictício Morro de El Señor. Ferida, em fuga, Telmah relata através de 500 tweets a história de sua vingança e de sua morte.
Isto é a superfície. Nas entranhas do texto sempre moderno e ágil de Dill, sempre sintonizado com o universo da juventude desgarrada, o autor fala de solidão, medo e ausência de futuro. Ou, talvez, de como Telmah abre mão de sua futuro em nome do passado, em nome do resgate de seu passado, que se realiza com a vingança. Porém, como na história do príncipe shakespeareano, a vingança foge ao controle e se transforma num banho de sangue de onde não emergem vitoriosos nem sobreviventes possíveis, apenas as vítimas da tragédia.
E em ambos casos a verdadeira tragédia é a incapacidade dos protagonistas de seguirem adiante com a vida, travados pela sombria desconfiança dos crimes alheios, mas próximos, que clamam por vingança. No caso de Telmah, à essa tragédia soma-se ainda, como pano de fundo, o mundo violento e duro de uma comunidade sustentada pelo comércio das drogas o que dá ao texto uma tridimensionalidade ainda maior. Telmah não poderá escapar ao seu destino, não apenas porque não conseguiu adequar-se à nova ordem, estabelecida pela morte de seu pai, mas porque a própria sociedade em que está inserida determina o destino de seus componentes. O que faz com que o livro levante mais questionamentos do que sonha uma leitura superficial.
Trágico e duro, porém jovem e atual, "Do coração de Telmah" é uma das boas razões para aventurar-se pela prosa de Dill - mas o leitor não deve esquecer que o texto do escritor sabe doer fundo. Não é um mundo cor-de-rosa, mas vermelho e preto como a capa, trágico porque extremamente real.
Ah, por certo.... eu comentei que o título é um dos finalistas do Prêmio Jabuti desta ano, na categoria "Infanto-juvenil"? Não? Pois é. Fique de olho no resultado porque o texto tem tudo para estar lá!
Setembro 29, 2010
A saga continua
Tomando um alento nos livros de teoria que vou lendo, mergulhei de cabeça em "Perjuro" de Michelle Paver, editado pela Rocco, com tradução de Domingos Demasi. Foi um alívio delicioso, porque as aventuras de Torak reúnem tudo o que eu gosto, com um destaque especial para a forma como a autora trabalha o personagem que, sem ser o principal, é o mais carismático: Lobo. Desta vez, Torak, teimoso, esquentado, ciumento e angustiado, vai ter de se enfrentar primeiramente com um inimigo interno, a culpa. Mas tudo bem, porque mesmo tele vivendo no fim da Era Galcial, ele continua sendo um adolescente de quatorze anos, então eu diria que tudo isso é muito normal. O que já não é nada normal, são as encrencas nas quais o menino se mete!
Torak é um personagem maravilhoso que evolui ao longo das narrativas, sem estar realmente "composto" desde o primiro livro. A cada nova aventura - e a cada novo ano - ele se torna mais forte, mais seguro de si, mais maduro e mais carregado de responsabilidades. Lá longe ficou o menino deprimido de "Irmão Lobo" e o obstinado rastreador de "Devorador de Almas" - que, aliás, continua sendo o meu predileto. Mesmo o angustiado personagem de "Desterrado", ficou no volume anterior, mas todos eles aportaram um pouco de si ao Torak de "Perjuro", assim como os animais e as árvores por onde o Espírito Errante do menino passeia.
De um modo geral "Perjuro" é melhor do que "Desterrado". A narrativa é mais emocionante e o suspense do final muito bem solucionado. E se no volume anterior da saga, Torak enfrentava, ao final, o rompimento de uma barreira de gelo que continha o caudal de um rio, em "Perjuro" ele enfrenta uma floresta em chamas. Mas isso é apenas uma das aventuras desta história.
"Perjuro" é o quinto volume da saga Crônicas das Trevas Antigas, que acompanha as aventuras e o amadurecimento do personagem dos seus onze verões em diante. O menino, órfão, vive na Floresta junto ao clã dos Corvos, cujo chefe o adotou, e onde ele contra a companheira de aventuras e, espera-se, de vida, Renn. O acompanham dois irritantes e espertos corvos, Rip e Rek. Já Lobo, o personagem mais carismático da série, vive na Floresta, às vezes acompanhando os deslocamento do clã, às vezes com sua alcatéia. A ação se passa numa época situada há 6.000 anos, no final da Era Glacial, um mundo duro e exigente, mas belo e amplo, cheio de poesia e força. A magia está presente, muito mais entranhada nas raízes da floresta e soprada pelo vento, do que sonha a nossa vã filosofia urbana: uma magia que não morreu, apesar do nosso esforço enlouquecido por consumir os recursos do planeta. Em uma certa medida, "As Crônicas das Trevas Antigas" é uma grande ode às velhas florestas do Hemisfério Norte, à toda a beleza e força da Natureza que exige ser respeitada. Uma saga que, apesar das semelhanças que o descuidado leitor deste blogue possa achar que encontrou com uma outra série de adolescente-órfão-aprendendo-sobre-seu-lugar-no-mundo, é muito superior, mais madura, honesta e sedutora. Sua força convence.
Setembro 22, 2010
Dica gaúcha
Ele tem dois títulos na lista de concorrentes ao Jabuti deste ano - um deles é o "Do coração de Telmah", que está na minha estante esperando a vez - e é, com certeza um dos grandes nomes da Literatura brasileira do momento, sobretudo para quem gosta de um texto ágil e forte. Luís Dill é o autor de vários livros imperdíveis, como o "Letras Finais" da Artes e Ofícios Editora e o excelente "Todos contra Dante", Companhia das Letras, 2008.
"Todos contra Dante" fala sobre bullying em suas formas mais modernas: o cyberbullying e a violência desenfreada. O texto forte e direto é intercalado com passagens poéticas que ajudam a tornar ainda mais patética a situação em que Dante se vê envolvido sem nem mesmo saber porque. E nem a gente. O problema é que ele é negro? Que vem da periferia? Que tem menos possibilidades financeiras do que seus colegas? Ou simplesmente por que ele é o Outro, o Novo, e por consequência o Diferente? Não se sabe. Quem passou por um episódio de bullying na vida (e acredito que todos nós em maior ou menor grau passamos por isso em algum momento) sabe que não existe uma única resposta a não ser a incapacidade que as pessoas tem de aceitar o Forasteiro. E, contudo, esse forasteiro não é uma pessoa tão diferentes das que o oprimem.
Dante, como o seu homônimo Alighieri, faz uma viagem pessoal e terrível aos meandros infernais em que se pode transformar a vida em uma escola, levado, não como viajante, mas como vítima, por algozes que, por definição, deveriam ser seus iguais. Mas não são. Falta-lhes mora e, valores. Falta aos algozes de Dante o mesmo que falta para muita gente no nosso cotidiano: limites. E por isso as coisas chegam as suas últimas consequências.
O livro tem uma diagramação diferenciada e o texto em si mesmo utiliza formas modernas que vêm de encontro ao leitor. Usando o formato do Orkut, textos curtos e instigantes, e diálogos consistentes na diagramação jornalistica dos mesmos, sem os costumeiros assessórios de "ela falou, desesperada" ou "ele afirmou com um grito", Dill prova que o conteúdo é fundalmental para que um texto funcione bem. E por conteúdo não se entende apenas uma boa história para contar, mas ter algo para dizer. Todos os personagens de "Todos contra Dante" tem algo a dizer e seu autor através delas. Mesmo que ao final de contas reste apenas um "sinto muito", sem remissão e sem promessa de perdão.
Moderno, ágil, inteligente, o texto fala, discute, coloca a realidade diante do nariz do leitor e exige uma tomada de posição. Mesmo que não seja o livro da lista da CBL, "Todos contra Dante" merece ser lido, e mais de uma vez, em casa, em família - e depois na escola. Nesta ordem. Porque mesmo que o colégio seja o teatro em que se desenrola a terrível comédia do cotidiano de alguns alunos, quem precisa mesmo tomar as cartas no assunto são as famílias - porque no final das contas são elas quem responderão pelos atos de seus filhos.
Setembro 04, 2010
A nova viagem ao sertão do Brasil
Insdiscutivelmente, o livro mais importante de 2009. Não porque tenha recebido o prêmio Leya 2008, mas pelo conteúdo e pelos caminhos vislumbrados pelo autor. Com o perdão da CBL, que faz a entrega do Prêmio Jabuti (o considerado mais importante prêmio literário do país), mas o livro mais importante de 2009 não foi "Manual da Paixão Solitária" de Moacyr Scliar, mas "O rastro do Jaguar", de Murilo Carvalho (Ed. Leya). (Veja depoimento do autor sobre o livro clicando aqui).
O livro conta a trajetória de Pierre de Saint'Hilaire, um tupi-guarani que teria sido levado pelo grande viajante e cronista francês para viver na França com apenas dois anos de idade. Já adulto, Pierre se depara com o fato de que ele não é europeu, mesmo que tenha sido criado como um, que suas raízes se encontram em outra parte do mundo, mas pontualmente na América do Sul, num recanto do Brasil onde vivem os tupi-guarani. Decidido a encontrar sua origem, o personagem parte para o grande império da América Latina, levando como companheiro de viagem um jornalista, o narrador da história, que parte com o intuito de acompanhar in loco a Guerra do Paraguai, por aquilo então, se desenhando no horizonte histórico.
Na verdade, um dos grandes momentos do livro é o retrato deste que foi o maior e mais sangrento conflito do continente, e no qual o Brasil teve um papel de destaque, liderando a Tríplice Aliança, que incluiu a Argentina e o Uruguai. O Paraguai, ao longo do conflito, teve baixas gigantescas: mais de 600 mil homens mortos e a aniliquilação de sua Marinha, além da destruíção de suas indústrias e fazendas. Os resultados foram tão terríveis que mesmo passados quase 150 anos do final da guerra, o país ainda não se recuperou de todo.
Contudo, isso são números. Através do olhar do narrador, Murilo conta a nós brasileiros, aquilo que os livros de História geralmente passam por alto: ele busca o povo, o indivíduo. Os capítulos finais são duros e o décimo sétimo capítulo, "Pequenas tochas em Ñhu Guaçu", faz com que repensemos aquele velho dito de que o brasileiro é bonzinho, de que o brasileiro não participa de guerras, ou que, quando finalmente entra em uma delas, é para buscar a paz. Ignorando o discurso da atual diplomacia brasileira, que em tudo se mete prometendo panos quentes, o autor nos faz encarar um momento histórico que gostaríamos de não ter de ver - mas que precisamos reconhecer como parte de nossa história e de nossa identidade no teatro político da América Latina. Cruel é a palavra. Crueis são os homens que fazem as guerras, que nelas combatem, e cujo escrupúlos são tão pequenos quanto maior for a sua teimosia...
O outro grande momento do livro é quando Murilo parte para o embate intelectual em torno da questão indígena, tema ainda (e cada vez mais) pungente nos dias de hoje. Bem documentado, bom conhecedor no universo tupi-guarani, ele nos apresenta uma parte da cultura tupiniquim que também costuma ser ignorada pelos livros de História: a mística e a filosofia guarani.
O bom do romance é que apesar de denso, duro em algumas partes, cruel mesmo em outras, também é poético e belo, traçando em palavra as magníficas paisagens do interior brasileiro, do sertão mineiro ao sul do Brasil, passando pelo rio São Francisco e as paisagens majestosas das serras de Congonhas do Campo e a presença constante da obra de Aleijadinho, que costura a narrativa que se faz das reminicências do narrador. Na busca desenfreada por suas próprias raízes, Pierre leva-nos consigo através de uma realidade colonial que os nossos romancistas parecem ter esquecido de explorar. Se me ficou uma ressalva do excelente romance, foi apenas esta: de vez em quando o discurso das entrelinhas ainda parece embuído do mito do "bom selvagem". Independente da raça, cor de pele ou nacionalidade "O rastro do Jaguar" demonstra como outros tantos livros, que somos todos humanos, dados aos arroubos da espécie: da crueldade absoluta à generosidade absoluta. E no final de tudo, o autor nos faz pensar que as memórias de um homem só o constróem enquanto ser humano, quando ele está disposto a aprender com elas e não a torná-las um peso em sua jornada pessoal em busca da sua Terra Sem Males. Imperdível!
Agosto 29, 2010
Beleza sem igual!

Quem conhece o Rio dos Sinos no minúsculo trecho que se vê da ponte da BR 116, ou que aprendeu a respeitá-lo e temê-lo nas enchentes que promove anualmente, dificilmente o reconhecerá nas maravilhosas fotos que compõem o livro "Rio dos Sinos - O Sinuoso do Sul do Brasil", de Guto Maahs e Martin Behrend, editado através da Lei de Incentivo à Cultura, com vários apoiadores. O resultado é tão bonito e poético, que vale a pena citar as empresas que tornaram possível a concretização do livro, através da coordenação da Um Cultural: são eles o Consórcio Nova Via, a Odebrecht Infraestrutura, Andrade Gutierrez - Construtora, Toniolo, Busnello - Túneis, terraplenagens e pavimentações e a T'Trans. Parabéns à essas empresas que souberam apoiar essa brilhante e belíssima iniciativa de retratar o rio que dá nome à nossa região.
Guto Maahs deu preferência às imagens poéticas e os lugares ainda intocados do rio para exprimir toda a sua beleza, importância e a razão pela qual nós precisamos preservá-lo da maneira mais contundente que pudermos. As fotografias aéreas da nascente, as imagens da própria cachoeira onde o rio toma forma e volume para ser a nossa principal fonte fluvial, tudo nos leva a ter, ainda, um laivo de esperança e uma razão poderosa pela qual levantar a bandeira da preservação natural e voltar a dar apoio aos grupos de movimentos ecológicos. Diante desse quadro triste e enfumaçado que tem pintado de gris e laranja sujo as nossas tardes, mais vale tomar uma atitude para proteger o coração da mata e do rio.
Saindo da nascente e "descendo" em direção às cidades do vale, é quase inacreditável perceber que ainda há muitos pontos onde é possível tomar banho no Sinos, exatamente como contavam os nossos avós e bisavós, lugares onde a água ainda é um cristal dentro do qual vicejam peixes e lendas, como as dos sinos submersos que, de vez em quando, ainda se deixam escutar. Talvez por corações dispostos a ouvir, e mentes dispostas a crer que um rio é algo vivo e a Natureza um sistema interligado do qual nós também fazemos parte. Se soubermos preservar tanta beleza e sabedoria, sobreviveremos usurfruindo de suas bençãos. Se não o fizermos, padeceremos a nossa própria burrice sonhando com tempos em que a água corria pura sobre as pedras e as crianças riam e brincavam em margens limpas.
Imperdível como obra de arte e documento!
Agosto 24, 2010
Dois em um
Faço um esforço de vontade, me envergonho diante da minha consciência, um mea culpa e tudo o mais, e abandono B9 na sua labiríntica nave por algumas horas para colocar em dia o blog, a vida e a correspondência.
E por o blog em dia é colocar na vitrine uma dica literária digna de matiné: "Nick of Time", de Ted Bell com tradução de Paula B.P. Mendes. O livro é uma aventura infanto-juvenil, mas como todo livro bem escrito, vai entreter grandes, médios e pequenos. Editado pela Novo Século, o livro é homônimo ao filme estrelado por Jonny Deep, em 1995, mas não tem nada a ver. O novo "em cima da hora", um trocadilho entre a expressão em inglês e o nome do personagem principal do livro, é o entrelaçamento de tuas narrativas: a aventura de Nick MacIver e a de sua irmã Kate, duas crianças que vivem no farol de uma das ilhas situada entre a Bretanha e a Inglaterra. Nick é o mais velho, dado à navegação sobretudo a navegação pelas águas perigosas em torno do território que habita. Kate é pequena, mas igualmente corajosa, inteligente e determinada. As aventuras dos dois iniciam em um momento em que a Alemanha está prestes a dar início à 2ª Guerra Mundial, quando as águas do Canal da Mancha andam sendo "visitados" por protótipos sub-náuticos capazes de assustar o próprio Kraken. Enquanto Nick e sua irmã vigiam os arredores de Greybeard, descobrem um misterioso baú, que dá início a uma série de acontecimentos que culminará na descoberta da Máquina do Tempo de Leonardo da Vinci, encerrada no baú. Aí a narrativa se divide e enquanto a pequena Kate vai com seu novo amigo Hobbes, um espião e inventor inglês de primeira, encarar os nazistas, Nick fica com a responsabilidade de ajudar um antepassado seu a travar uma batalha com o terrível William Blood, um pirata inescrupuloso que detém uma segunda Máquina do Tempo. Blood deseja o artefato que Nick possuiu e por isso lança mão de sua costumeira estratégia de rapto e resgate: com a ajuda da máquina que possui, Blood rapta pessoas e animais de estimação de personagens ao longo da História, engordando assim os seus cofres para financiar sua busca pela segunda Máquina do Tempo, justo aquela que veio parar nas mãos de Nick. Há um bom suspense à bordo do submarino onde Kate e Hobbes vão parar, e muita ação no H.M.S. Merlin, em pleno 1805. Há muita emoção, uma narrativa ágil e bem colocada, com muitas referências nas entrelinhas e "A Ilha do Tesouro" de Louis Stevenson é apenas uma delas. O texto é muito bem escrito e as cenas de batalha entre os dois veleiros, o navio onde está Nick contra o galeão de Blood, são impressionantes, com muita troca de tiros de canhões, perseguição nos velames e uma atmosfera perfeita. É muito raro que a voz do narrador tropece no maior dos desafios: afastar o século XXI da narrativa e deixá-lo atuar apenas nos cortes cinematográficos. Acontece, mas pouco.
Olhado assim, talvez o leitor desta resenha se pergunte se o argumento não é muito difícil para os jovens leitores. Afinal são duas narrativas em uma, e cada uma delas tem suficiente interesse para gerar um livro solo. Mas a verdade é que andamos subestimando nossos leitores, oferecendo-lhes coisas cada vez mais "fáceis" para ler. Nesta medida, Harry Potter é fácil porque é uma narrativa linear, com uns poucos flaskbacks que não chegam a oferecer uma segunda narrativa. "Nick of Time" (com o título em inglês mantido na edição brasileira) é entretenido: oferece um universo rico, diferente, acrescenta em vocabulário, e passa emoção e adrenalina nas duas aventuras em uma, sem constrangimento algum para o leitor.
Claro que no rico filão da literatura infanto-juvenil, Nick MacIver já uma série - o novo volume das aventuras do menino já saiu em inglês. Mas, enfim, se o texto apresentar a mesma qualidade narrativa e intimidade com a época história retratada que o primeiro, me calo. Ou melhor, não me calo: que bom seria se as editoras brasileiras apostassem nisso: boa literatura de aventura, bem embasada num tema sem ser chata, sem estar engessada à padrões industriais antiquados, como tamanho de texto e dificuldade de volcabulário, capaz de interessar a professores desta ou aquela matéria E aos leitores adolescentes, E aos leitores que, como eu procuram apenas diversão.
Julho 04, 2010
Não se admite devoluções
Até agora, não consegui decidir se gosto ou não da história. A parte de que a escrita do original "B9" vai me tomando muito tempo, tanto de leitura quanto de atualiação do blog, a grande verdade é que até agora não consegui decidir se gostei ou não de "A Loja dos Suicidas", de Jean Teulé e editado pela Ediouro com tradução de Cordelia Magalhães e Graziella Marraccini. O argumento é interessante e o texto muito bom, com pinceladas poéticas: em uma cidade de estranha geografia, os Tuvache mantém uma loja especializada em artigos para suicidas: cordas para enforcamento, punhais, revólveres, venenos, essa espécie de "delicatessen". Todos os memb ros da família trabalham para o crescimento do negócio e a satisfação dos clientes em sua triste aquisição, menos o caçula, Alan, que é o oposto de tudo o que os Tuvache significam: em meio a depressão, à tristeza, Alan é o sorriso, o sol, a esperança. E como se pode imaginar, a esperança é sempre revolucionária. A partir de então, não é preciso contar o resto: é preciso ler o livro.
O texto me fez pensar em um cenário em preto e branco, com paisagens surrealistas e algo parecido a histórias em quadrinhos como "Perséfone". Lembra muito a Família Adams ou a Estranha Família de Ray Bradbury, adentrando no difícil terreno do humor negro, sem, contudo, a graça da primeira ou o charme da segunda. Tem pretensões positivas, mesmo em seu surpreendente final.
Contudo, não chegou a me convencer de todo. Talvez seja que um livro com este título, afinal de contas, não vai se entregar assim, de bandeja, para o primeiro leitor que aparecer. Não é uma literatura difícil, contudo, é apenas estranha. Reflexo de nosso cotidiano estranho e depressivo? Talvez. A primeira notícia que ouvi hoje pela manhã, quando o rádio-despertador acendeu-se às sete horas, foi sobre um acidente que vitimou quatro pessoas. Ou terá sido uma chacina? Um atentado? Um terremoto? Quem sabe? A questão é que nossos dias começam desse jeito, com a contagem de mortos, com a notícia de uma desgraça, de uma tragédia. É raro o dia em que nosso cotidiano começa oferecendo uma conquista, um evento positivo. Talvez seja isso o que Alan queira nos dizer com seu sorriso teimoso em meio ao sombrio da loja de seus pais e a esterilidade da vida de seus clientes: o bom é tão raro, que frequentemente nos deixamos levar pela enxurrada de infelicidade que nos cerca.
Mas é tão rico que um simples vislumbre dele é o bastante para mudar o rumo de nossas vidas.
Junho 15, 2010
Porta aberta para a Fantasia urbana
Se você for um leitor assíduo de Fantasia, com certeza já se deparou inúmeras vezes com críticas sobre diferentes títulos que começam ou citam, lá pelas tantas, “um conto de fadas moderno” ou “um conto de fadas para adultos”. Pois bem, esqueça tudo o que você achava que era um conto de fadas moderno para adultos, até mesmo o ótimo “Stardust” da dupla Neil Gaiman e Charles Vess (Editora Conrad, 2001) e vá ler “Lugar Nenhum” (Ed. Conrad, 2007) do mesmo Neil Gaiman. Prepare-se para muitas emoções. Prepare-se, sobretudo, para rir, ficar enjoado, sentir pena, uma pontinha de medo, indignar-se com os vilões e amá-los completamente, e, no final de tudo, prepare-se para odiar a sua tranqüila vida normal, por mais problemas que você tenha. Porque, acredite, perto das aventuras de Richard na Londres de Baixo, a sua vida é absolutamente normal.
O livro conta a história do tranqüilo Richard, emerso em seu trabalho no escritório, em um noivado sem grandes promessas a não ser a de um possível casamento, tudo administrado por Jéssica, sua noiva, com a eficiência dos grandes centros urbanos. Richard vive em um apartamento alugado, toma o táxi pelas manhãs para ir ao trabalho, tem uma agenda mal organizada que lhe resulta em problemas rotineiros. Nada que ele não possa superar com aquela dose de estresse que costuma fazer parte do cotidiano de tantos homens e mulheres da classe média. A gente até acha ruim ficar pendendo com um relatório ou esquecer de reservar uma mesa em um restaurante mais requintado, mas aí somos apresentados pelo autor para a dupla de assassinos e torturadores mais profissionais da Londres de Baixo e então começamos a pensar que ruim mesmo é tê-los nos nossos calcanhares. O senhor Croup e o senhor Vandemar são dois achados de Gaiman, saídos diretamente de algum pesadelo de humor negro para azucrinar a vida de Door, a menina que vai, simplesmente, mudar a vida de Richard.
E sem querer: a partir do seu encontro com Door, a rotina de Richard se dilui a tal ponto que ele termina da Londres de Baixo, um mundo subterrâneo que viceja nos esgotos e nos canais subterrâneos da capital inglesa, habitado por personagens incríveis e por pessoas que passam pela invisibilidade gerada pela miopia social que nos acomete – a nós, os habitantes do “mundo de cima”, o que lembra, em muitos pontos, a argumentação de Bráulio Tavares no excelente conto “A propósito da Difração Quântica nas Regiões Periféricas da Consciência” (Ficções 15, Editora 7 Letras, 2006).
Como em “Alice no País das Maravilhas”, como em “O Mágico de Oz”, e como em tantos outros contos de fadas mais recentes para o público infantil, Richard só quer voltar para casa. Tudo o que ele deseja é ter de volta o seu cotidiano e a realidade que conhece. Diferente do Tristran de “Stardust”, que, buscando um presente para a sua amada, descobre o que é o amor verdadeiro, o Richard de “Lugar Nenhum” não está em busca de algo concreto. Não está, necessariamente, em busca alguma. Mas, como todos os heróis dos contos de fadas, está percorrendo um caminho, e neste caso, o caminho da própria maturidade.
E Gaiman acerta na mosca. Com tradução para o Português de Juliana Lemos (que dispôs notas no rodapé para não perder a sonoridade e os trocadilhos de alguns nomes de lugares e personagens, Deus a abençoe) o texto é enxuto, divertido e carismático. Nos leva com eficiência e emoção a lugares e situações maravilhosos – maravilhosos, não por serem necessariamente belos, mas por estarem cheios da boa e velha magia que compõe os textos das melhores histórias de Fantasia, cheio daquela generosidade e ingenuidade que faz do personagem principal um herói. Não, apesar de tudo, Richard não é um grande guerreiro, com habilidades especiais e super força. Ele é, afinal de contas, apenas um de nós, cheio de medos e angústias, mas com a capacidade de questionar, até o fim, a realidade que o cerca, com palavras e ações. Não é a toa que ele faz perguntas tolas o tempo todo: talvez elas não sejam tão tolas assim, afinal de contas.
O final do livro é o resultado da própria maturidade do personagem – dizer qualquer outra palavra seria revelá-lo. E se não somos capazes de abrir uma porta para outra realidade, como Door e sua família, e se, sobretudo, não temos coragem de bater nela se a encontrarmos, pelo menos temos a literatura de Fantasia. Não uma fuga, como bem dizia Tolkien, mas um consolo que nos dá alento para seguir adiante neste conturbado tédio do cotidiano urbano e, quem sabe, aprender a trilhar um caminho diferente, um pouco mais generoso com os demais.
Um pouco mais humano.
Maio 29, 2010
De meter medo...
A sugestão veio da Fernanda, uma aluna de ballet, o que prova que nem de sapatilhas rosa e tutus brancos vive a imaginação das bailarinas: "Sinistro!", coletânea de contos editada pela Editora Multifoco em 2009 e organizada por Frodo Oliveira, um dos promissores (e cumpridores) autores do gênero fantástico no Brasil. A coletânea conta com 22 textos escritos por 19 autores brasileira e navega pelas espantosas águas do terror, dentro do boom que o gênero do Fantástico vêm tendo no país.
De uma maneira geral e a grosso modo - e sempre lembrando ao leitor deste texto que a autora do mesmo nada mais é do que uma leitora - a coletânea tem vários contos que merecem estar publicados. Outros nem tanto. Alguns textos, se percebe, vêm de mãos ainda incipientes, que já sabem o que querem, mas que nem sempre logram o objetivo - mas resolver isso, só o muito escrever ensina.
Destaco, então, os contos que gostei. "Do pó aos seres do pó", de Frank Bacurau, mistura Ficção Científica e terror num futuro sombrio, onde a engenharia genética presenteia a civilização com uma solução que logo se tranforma em desastre. "O Horror Mecânico", de Cássio Michelon Bento mergulha de cheio no universo steampunk, sub-gênero bem de moda no momento, e muito atrativo desde o ponto de vista da imagem. "O Preço da Passagem", de José Geraldo Gouvêa, insere o horror da luta contra a ditadura dos anos 60-70 no universo do terror pós-morten. E "Trilha", de André Garzia, é um bom e irônico mergulho no surreal. "PQP" de Luiz de Souza me divertiu pela utilização do cotidiano e pela da construção dos personagens, sobretudo a mãe do protagonista. Ah, sim, e o interessante "O Beija-Flor", de Marcos Antonio Silva, que utiliza bem a crença popular de que estes maravilhosos animais são sempre portadores de más notícias, fazendo com que a delicada ave inspire real inquietação. Os melhores textos ficam por conta do "Vodoo", de Frodo Oliveira, que é um dos autores que vai fazendo seu caminho neste mundo à parte que é a publicação de literatura fantástica neste país, e o melancólico e bem resolvido "O Suícídio", de Guilherme Borges, que talvez não seja o conto mais espetacular da coletânea, mas é de longe o melhor solucionado, tanto no que diz respeito à qualidade do texto, quanto ao próprio drama.
De mais a mais, fica a sugestão de contos fantásticos escritos por brasileiros para leitores de todo o mundo. São tantos os que amam este gênero, que eu sempre me surpreenderei com a falta de visão das editoras nacionais, que não apostam neste nicho do mercado, nem na formação de novos autores. Sempre lembrarei dos comentários de Isaac Asimov e do valor que ele dava ao trabalho incansável de John W. Campbell Jr., editora da Astouding Science Fiction, que não apenas aceitava ou recusava textos, mas se dava ao trabalho de mostrar aos seus autores, como poderiam melhorar. Que falta faz alguém como ele!
Maio 22, 2010
Para educar o seu bichinho de estimação
Problemas com seu bichinho de estimação predileto? Ele anda roendo o pneu do carro e querendo dormir na sua cama, sem deixar um cantinho para você? Não se preocupe, consulte o impagável "Como treinar o seu dragão", de Soluço Spantosicus Strondus III, com tradução do antigo norueguês de Cressida Cowell e traduzido para o português por Heloisa Prieto, com edição da Editora Intrínseca, aqui no Brasil.
Estou falando, é claro, do livro que inspirou o desenho animado homônimo e que eu ainda não vi por conta da ausência total de cinema aqui em Novo Hamburgo (sim, a capital nacional do calçado não tem cinema, por conta da inauguração do Novo Shopping há alguns anos. No Novo Shopping havia cinema, mas agora o local está de reforma há mais de um ano e vamos comemorando a alegria das locadoras de filmes e os cinemas dos arredores: Campo Bom, São Leopoldo, uma "delícia"!).
Não deu para ver do filme mais do que algumas cenas, mas a gente logo se dá conta de que as duas histórias se tocam, o filme bebe da fonte deliciosa do livro, mas não é exatamente a mesma história. Coisas da produção cultural atual.
Voltando ao livro, enquanto humor infantil é uma ótima opção. O texto é ágil, divertido, com entrelinhas muito bem colocadas e de sábia reflexão, mas sem cair na lamúria ou no dramático. Os personagens são divertidos, com nomes esquisitos feito "Perna-de-Peixe" ou o próprio "Soluço", "autor" do texto. São todos candidatos a vikings ferozes, e seu primeiro passo rumo à vida adulta é capturar e treinar um dragão pequeno, que servirá de cão de caça no futuro. Isto é, se eles conseguirem educar os répteis cheios de personalidade que capturaram, dos quais, Banguela, o dragão de Soluço, é o mais independente, malcriado e adorável de todos. E mimado. Porque é claro, tanto a autora, quanto esta leitora, adorariam ter um dragão de estimação, apesar de tudo - porque o "tudo", neste caso é pura diversão. É como ter um labrador com a personalidade de um gato siamês, dotado de asas. O principal conselho é: leia este livro em algum lugar onde você não vá se sentir constrangido por cair na risada diante das páginas. E não seja bobo, assuma que você comprou o livro para você e não para seus filhos/sobrinhos/afilhados/vizinhos. Nada que garanta umas boas risadas merece ser negado!
Maio 15, 2010
As raízes da religião
Primeiro volume de três, "A História das Crenças e das Ideias Religiosas" de Mircea Eliade, vem numa publicação da Zahar, recuperando uma obra editada originalmente em 1976. Nesta primeira parte, Mircea Eliade nos revela os primórdios das intistuições religiosas da Antiguidade, viajando por interessantes páginas na Pré-História, e por mitos e sistemas filosóficos até o culto a Dionísio, na Grécia. É um mergulho que nos leva a compreender de onde vêm alguns dos nossos medos, das nossas crenças, e até mesma alguns dos personagens prediletos dos romances de fantasia da atualidade. Fascinante é dar-nos conta porque nos envolvemos com criaturas aparentemente tão longe de nosso verniz contemporâneo de tecnologias de Ficção-Científica e valores em transformação, e porque esse mundo tão rápido assusta mais do que nos causa admiração. Na verdade, nossas crenças são muito atávicas e sempre que nos deparamos com uma criação da fantasia humana, provavelmente estaremos encarando algo que a espécie reconhece, embora não o indivíduo. Jung explica.
Competente e bem embasado, Eliade, com sua costumeira verve, coloca o leitor frente aos templos megalíticos, às ideias religiosas que cumpunham o universo rico do Antigo Egito, às crenças hebreias, bem como um apanhado mais profundo da religião grega - uma religião que conhecemos mais pelas histórias relacionadas aos seus deuses, do que por si mesma, o que às vezes pode causar uma ideia um pouco jocosa de deidades muito mais poderosas e enigmáticas do que parece. Afinal, só o relacionamento marido/mulher de Zeus e Hera pode dar muito pano para manga, levando alguém que se detenha apenas nas peripécias amorosas do grande deus grego ao dar suas escapadas a cada distração de sua mulher, a achar que tais divindades são excessivamente superficiais. Mas na verdade, a religião antiga dos gregos era muito mais do que mitos que explicam arquétipos psicológicos. São, como todo sistema religioso, uma forma de explicar o mundo e suas mazelas, o que também lança uma luz sobre a forma de pensar deste povo, e de cada civilização estudada na obra, de como essa gente encarava as tragédias, as catástrofes e as grandes alegrias. É interesstíssimo observar a transformação da religião indiana, por exemplo, com base na lógica de seus ascetas. Ou as novidades aportadas por cada sistema de pensamento ao sistema de culto.
Título indispensável para quem deseja saber mais sobre as religiões e compreender de onde surgem as ideias que terminarão por modelar a própria política do Mundo Antigo, a obra se completa nos volumes subsequentes, contemplando o pensamento até o Cristianismo e, no terceiro, de Maomé à Idade das Reformas. Ironicamente, não serão poucas as vezes que veremos nosso próprio tempo refletido ou nossos próprios medos reconstruídos, como num espelho bem próximo de nós mesmos.
Maio 08, 2010
O amor entre a vida e a morte
Falemos de outra coisa que não a Literatura convencional. Nas últimas semanas, o que tem me tomado o tempo livre é acompanhar as peripécias de uma história extremamente complexa, que me deu muito o que pensar a respeito do que as crianças consomem, em termos de enredo, e o que os adultos acham que elas irão gostar, ou, sobretudo, daquilo que serão capazes de compreender. E elas são capazes de compreender muito, se o muito lhes for apresentado num formato que compreendem.
Me refiro a saga de Inuyasha ou, como prefere sua autora, Rumiko Takahashi, “Sengoku Otogi Zoshi InuYash” (A Fantástica História do Período Feudal de InuYasha).
Em grandes e larguíssimas pinceladas, para quem não conhece, a história é o seguinte: a adolescente Ahome (no original Kagome, traduzido por razões bastante óbvias nos países onde se fala português e espanhol), vive em uma casa que é um antigo templo japonês. Em uma das dependências do templo há um velho poço chamado Poço dos Ossos. Certo dia, Ahome é arrastada para dentro do poço e de lá chega a um outro tempo, 500 anos atrás. Com isso, o lugar onde hoje se vê um bairro da cidade em que mora, transformou-se em uma vasta campina e um bosque denso. É nesse bosque que Ahome encontra Inuyasha, um meio-yokai, preso à uma árvore por uma flecha. Ele é um híbrido, meio humano e meio demônio e está “lacrado” pela flecha atirada por uma sacedotisa, Kikyou, 50 anos antes. Perseguida por um demônio, Ahome se vê obrigada à libertar Inuyasha, que após dar cabo da criatura maléfica – surpresa! – resolve acabar com ela também. É preciso muita aventura e magia para que a adolescente consiga domar o gênio impulsivo e obsessivo do seu novo e violento amigo.
O caso é que Ahome leva incrustada em si a Jóia das Quatro Almas, uma poderosa pérola mística capaz de dar ao seu portador, enormes poderes mágicos que tanto Inuyasha, quanto todos as demais criaturas mágicas da época, desejam. A história é complexo e não vou entrar em detalhes, mas basta dizer que 50 antes da época em que se passam as aventuras dos protagonistas, a jóia tinha sido guardada por Kikyou, que a “levou” consigo, ao ser cremada depois de sua morte. Assim, é justamente esta pérola que está na raiz de todas as aventuras que os protagonistas viverão a partir de então.
Achou denso e complicado? “Hê! Isso não é nada”, diria o simpático cão-demônio do título. Porque é isso mesmo o que Inuyasha é: metade humano (herança de sua mãe humana) e metade demônio, ou yokai (herança de seu pai). Na verdade um demônio que também é um cão. E por isso, há várias características de cão que se manifestam no personagem, que o tornam mais do que simpático: o tornam adorável. Inuasha senta com um cachorro, fareja como um e tem simpáticas orelhas pontudas. Frequentemente rosna e tem uma pulga, o velho Myouga, que aparece de vez em quanto para atazanar-lhe a vida, numa mescla de Dr. Smith e Grilo Falante. Na complicada relação que ele tem com sua herança, aparece como protagonista seu irmão mais velho Sesshoumaru, um yokay puro, sem a mescla do sangue humano. Do outro lado, está Kikyou, a sacerdotisa que o lacrou na árvore. Inuyasha aproximou-se de Kikyou para roubar-lhe a pérola mística com o intuito de se transformar em um yokai completo, mas terminou se apaixonando por ela. E ela por ele. Mas é um amor profundamente egoísta, que para realizar-se precisa da transformação de ambos em algo que não são: ele em humano, e ela em uma pessoa normal. Mesmo que ele estivesse disposto a usar a pérola para transformar-se num ser humano e terminar seus dias como um homem, ao contrário de seu desejo inicial, este é um sentimento que mina as forças de ambos. De fato a única coisa simples na existência dele é Ahome que o aceita exatamente como é: um mestiço irritadiço, violento, bobo, forte, corajoso e teimoso. Ela nem sequer pede que ele varra de seu coração seu sentimento por Kikyou. Pede apenas que possa continuar ao seu lado.
A história é muito mais do que isso. Inicialmente surgido como mangá, depois ganhando o mundo através dos anime, Inuyasha é uma rica coletânea de narrativas que bebem diretamente do folclore japonês, usando e abusando dos mais variados bichos encantados que a imaginação oriental nos deu. É verdade que segue uma espécie de roteiro que se repete em muita ocasiões, mas o que interessa mesmo são as entrelinhas, se é que se pode falar de entrelinhas no universo da imagem. A história fala sobre um personagem que pode reunir todos os defeitos do mundo, mas que sempre é honesto. Jamais se mete em uma briga em que não esteja seu coração. E embora vá no contrasenso de uma época que afirma abominar a violência, adora guerrear e não esconde ou nega isso.
Como o tema é bastante vasto – se poderia discutir a própria violência do personagem, a questão do preconceito, ou o erotismo latente – vou me deter apenas em um ponto que me chamou a atenção imediatamente. O triângulo Inuyasha-Ahome-Kikyou. Originalmente apaixonado por Kikyou, a sacerdotisa que guardava a Jóia das Quatro Almas, Inuyasha sofre ao saber que ela está morta. Tudo parece se encaminhar bem, contudo, até que uma bruxa revive Kikyou dando à ela um corpo feito de ossos velhos e barro – tornando a lembrança dela uma mentira terrivelmente desagradável. De fato, Kikyou está mais para “encosto” da guarda do meio-yokai do que qualquer outra coisa. Vagando por um mundo a que já não pertence, a morta-viva alimenta-se de almas dos mortos e segue de longe as aventuras do amado, interferindo sempre que a vida dele está a perigo. Mas não porque o deseja vivo e saudável. Do mundo, Kikyou quer apenas uma coisa: levar Inuyasha consigo para o inferno. Pouco lhe importa o que aconteça a ele em vida: sua morte lhe pertence. Assim, o amor de Kikyou e Inuyasha é um amor de perdição, um sentimento que só encontrará seu apogeu na destruição do ser amado.
Ahome, no entanto, está viva. E deseja Inuyasha vivo, bem e, sobretudo, feliz. Ela não se importa que ele não seja de todo humano. Ela o ama exatamente como é, mesmo quando discutem pelas mesmas razões que todos os namorados discutem. O seu amor encontra seu apogeu em cada sorriso que trocam, em cada batalha que vencem, em cada momento que compartilham, mesmo quando estão zangados um com o outro. Ela não quer ser igual a ele, e não quer que ele seja igual a ela. Criança ou não, Ahome parece ser sábia quanto a isso. Assim, o amor de Ahome e Inuyasha é um amor de salvação. E por isso mesmo é um amor que fortalece. Logo nos primeiros capítulos da saga, descobre-se junto com todos os personagens (o que insere o espectador na narrativa) que a presença de Ahome no mundo de Inuyasha, mesmo que mais frágil e, como humana, dada à doença, ao tempo e à velhice, fortalece o braço armado dele. É quando ela está junto que ele é mais forte, mais rápido e mais esperto. E tudo isso também se aplica à Ahome, que mesmo apontada como a reencarnação de Kikyou, jamais perde sua verdadeira personalidade. Ahome, de fato, sempre sabe muito bem quem é, e talvez esse seja a sua maior força.
Esses dois amores, buscando um espaço em um coração, encontram no mundo atual um eco que nem é preciso ir muito longe para se ver. Uma pessoa, afinal de contas, não é feita de capítulos estanques, é feita de sua própria história de vida. Se Inuyasha será vitorioso ou se renderá ao passado, ou se esse passado será capaz de salvá-lo no momento mais difícil, absorvido pela alma do personagem como uma experiência vivida, é o que rege a narrativa desta saga adorável. Ao contrário de outros romances que andamos vendo por aí, nos quais os personagens escolhem a imobilidade do morto-vivo, espera-se até o último quadrinho que Inuyasha escolha aquilo que todos nós queremos: que ele viva. Porque se a grande tarefa do amor é fazer as coisas acontecerem, então é preciso ir em frente – sem esquecer os grandes amores passado, mas sempre pronto para continuar amando no futuro.
Seguido por uma legião de fãs, odiado por uma legião de detratores, Inuyasha em forma de mangá teve sua edição no Brasil pela JBC, com a edição completa de suas aventuras em 112 volumes, cujo último número foi editado em 2008.
Maio 02, 2010
Conto de estrelas cadentes
Ainda envolvida na leitura de "História das Crenças e Ideias Religiosas" de Mircea Elíade, editado pela Zahar, e que eu esperava terminar esta semana para comentar, me vejo obrigada a trazer outra leitura antiga, mas de excepcional qualidade e beleza. Desta vez, vamos conversar um pouco sobre "Stardust", de Neil Gaiman, com ilustrações de Charles Vess e a bela edição da Vertigo.
A história, que também deu lugar ao belo filme, homônimo, gira em torno do jovem Tristran, rapaz de origem aparentemente humilde, mas por cujas veias corre o sangue de uma antiga linhagem de soberanos feéricos. Tritran não sabe disso, e se soubesse, à princípio, talvez bem pouco lhe importasse. Porque no início de sua trajetória, Tristran acha que está apaixonado pela bela Victoria e sua cabeça e seu coração estão cheios apenas dela. E para conquistá-la, ele promete trazer a ela a estrela cadente que acaba de cair do céu. Tristran, cheio de energia e determinação, parte imediatemente em busca de sua estrela, a que despencou em meio à floresta.
Mas é claro que, passado o muro que delimita a aldeia, tudo muda. Porque do outro lado do "muro", fica o mundo das fadas. E é, óbviamente, neste mundo fantástico, que ele vai encontrar sua estrela e descobrir que o amor é muito mais do que um desejo. É confiança, camaradagem, amizade e, também, sedução. Mas este é, realmente o último item da lista. Todo o demais tem de vir antes.
No caminho entre o desejo e o amor, ou vice-versa, Tristan e a estrela, Igraine, terão de passar muitas provas e aventuras. Não é nada fácil ao rapaz chegar até a teimosa e mau-humorada criatura celeste, e torna-se muito mais perigoso para ambos escapar das garras da rainha-feiticeira que está na cola de Igraine para devorá-la e conseguir, assim, algumas centenas de anos extra de vida e juventude. A rainha-feiticeira que faz parte de um trio, de rainhas-feiticeiras, vivendo no mais apartado de floresta, sozinhas, reinando sobre nada...
Sim, "Stardust" é um conto de fadas. Um excelente conto de fadas com diferentes níveis de leitura, com tudo o que a literatura moderna consegue imprimir aos velhos temas: personagens sólidos, com uma história pulsante e almejos humanos. Os arquétipos são utilizados com sabedoria, as metáforas delicadamente delineadas, as verdades do autor claramente expressas nas entrelinhas. Igraine nada tem de delicada - afinal de contas ela é uma estrela, vibrante, forte e cheia de personalidade. Seria um interessante tema de discussão, a transformação pela que andam passando as personagens das histórias de fantasia, tanto as femininas (que já não são suaves donzelas em apuros), quanto os masculinos (que deixaram de ser impressionantes sabichões). Voltaremos ao tema. Já Tristran precisa aprender a ser um sujeito excepcional, ou se resignar à mediucridade humana que reina sobre o vilarejo de Wall - e o mais bonito e verdadeiro da hístória é o final, forte e belo, que ata a narrativa com sólidas alternativas, indo um pouco mais além do "e viveram felizes para sempre".
E se tudo isso não bastasse - ou não agradasse - "Stardust" merece uma olhada mais atenta por sua belíssima edição. A minha é brochura, e data de 2001. A diagramação do texto e a qualidade das imagens é um atrativo extra, remetendo aos velhos e bons livros infantis, quando as ilustações eram grandes e cheias de detalhes. Todo um clássico, editado há menos de dez anos.
Abril 25, 2010
Conferência feérica
Em 2006, a editora Conrad do Brasil fez chegar às livrarias um importante título da produção de J.R.R. Tolkien: “Sobre histórias de Fadas”, um ensaio, elaborado inicialmente como uma palestra do autor sobre Andrew Lang, e que foi apresentada na Universidade de St. Andrews, em 1939. Andrew Lang (nascido em 31 de março de 1844 e falecido em 20 de julho de 1912) foi um escritor escocês, o autor de vários livros infantis, inclusive uma recopilação de histórias de fadas. A conferência vem acompanhada de “Folha por Niggle”, excelente novela curta, que foge, até certo ponto, do costumeiro universo ficcional construído pelo famoso autor de “O Senhor dos Anéis”.
O livro, portanto, não é uma das instigantes construções fantásticas de Tolkien. Em “Sobre histórias de fadas”, no lugar do escritor emerge o intelectual e seu ponto de vista, antes apenas entrevisto em sua obra publicada no Brasil. De um estilo um tanto rebuscado, bem ao seu modo, o professor Tolkien expõe várias idéias, alfinetando seus leitores e convidando-nos a pensar a Fantasia e o Fantástico ao invés de simplesmente se deliciar com eles.
O interessante da famosa conferência, são os pontos de vista radicalmente opostos aos de muitos teóricos e críticos que acusam a Fantasia e o Fantástico de ser literatura “escapista”, gêneros menores destinados a leitores que, em vez de modificarem o mundo com o qual não concordam, utilizando a discussão intelectual ou a ação, preferem fugir para lugares inexistentes onde tais discussões simplesmente não existem e o mundo é quase perfeito. Para Tolkien, nada mais longe da realidade do que este argumento. O professor inclusive comenta que não há nada de mais em recuperar as forças em um lugar agradável, nem que esse lugar seja um texto literário de gênero. Para suportar um mundo tecnológico que abriu mão de muitos valores, entre eles a beleza, seja no entorno real, seja nas atitudes do cotidiano, só buscando forças em outro mundo, onde estes conceitos ainda são válidos e, sobretudo, imutáveis.
Mas as discussões levantadas na conferência não ficam só nisso. Através de “Sobre Histórias de Fadas”, o autor indaga sobre a qualidade da Literatura Infantil, não só desde o ponto de vista da Literatura em si mesmo, como o tipo de texto que os adultos acreditam serem os ideais para os leitores iniciantes. Para ele, uma história de fadas, apenas por esse único fator, não pode ser classificada como literatura infantil. Igualmente, o escritor prega a qualidade do texto como principal característica dos relatos de fadas – ou qualquer outro tema que os torne “fantásticos” – a fim de que seja considerado “Literatura”, sem acréscimo de gênero ou rótulo.
De igual maneira, Tolkien discute veementemente cânones considerados básicos para os gêneros literários do extraoridnário, sobretudo o da “suspensão voluntária da credulidade”. Para o autor, o fato de um texto exigir um ato voluntário da parte do leitor para ser crível, já delata falta de qualidade do mesmo. “(...)essa suspensão da incredulidade é um substituto da coisa genuína”, afirma ele na página 44, esgrimindo argumentos bastante interessantes em relação ao tema e abrindo um campo bem interessante para discussões que pareciam encerradas.
O livro é uma excelente dica, tanto para leitores que querem se aprofundar nos gêneros extraordinários, quanto para escritores que escolheram esta área como porta-voz de suas idéias e criações. Para estes últimos, há tanto sobre o que pensar e sobre o que discutir nesta única conferência, que o melhor mesmo é dar uma lida no texto antes de pôr mãos à qualquer obra. É mais ou menos como afinar um instrumento delicado e poderoso, capaz de criar e destruir um Universo inteiro: a Imaginação.
Abril 17, 2010
Vampiro? Onde?
Se existe uma coisa que chama a atenção na leva de livros sobre os “Novos Vampiros”, é a quantidade de autoras em detrimento dos autores homens. Se até a poucos anos atrás os homens respondiam pela grande maioria das histórias sobre seres fantásticos, agora parece que a tendência se inverteu. Sem querer parecer sexista – mas sendo-o, inevitavelmente – é preciso reconhecer que as mulheres não escrevem sobre as mesmas coisas que os homens, nem desde o mesmo ponto de vista. E quando elas o fazem tendo em vista um público leitor feminino, então, o texto realmente tem uma identidade diferente. Não apenas o ponto de vista muda, senão que os próprios personagens sofrem uma transformação em suas finalidades e papéis. Isso não é nenhuma novidade, mas chama a atenção, quando essas modificações aparecem em um livro que tem o rótulo de “Literatura sobrenatural”.
É o caso de “Morto até o anoitecer”, escrito por Charlaine Harrys, editado no Brasil pela Ediouro, com tradução de Chico Lopes. Na tevê por assinatura já rendeu o seriado “True Blood”.
Para quem não leu, a história conta as aventuras de Sookie, garçonete do Bar do Merlotte, na pequena Bon Temps, próxima à New Orlean’s. Sookie tem uma habilidade especial: ela é telepata, dom que não aprecia e que a mantém afastada das pessoas por uma questão de sanidade mental. A narrativa inicia quando Bill, um vampiro, vem ao bar e o envolvimento entre os dois é praticamente imediato. No tempo do romance, a ciência desenvolveu sangue sintético, o que permite aos vampiros sair do seu período de ostracismo histórico e passar da obscuridade das lendas para a luz da realidade. Uma realidade que nem sempre os coloca como os monstros vilões, interessados em sugar o sangue alheio. Às vezes eles se tornam vítimas dos monstros humanos, interessados em ganhar dinheiro à qualquer preço.
É o que acontece logo nas primeiras páginas oferecendo ao leitor uma interessante inversão de papéis. Enquanto a doce e loura Sookie revela-se quase de imediato o “herói” do livro, refugando o papel de mocinha em apuros, Bill, como par natural de Sookie, assume o papel de “heroína” em perigo – entretanto, não vai aqui nenhuma conotação quanto ao interesse sexual dos personagens. Quando a isso, ambos mantém a conduta esperada pela maioria dos leitores. Depois que os dois se envolvem, Bill introduz Sookie e seus leitores no mundo exótico, selvagem e perigoso da sociedade dos vampiros.
Evidentemente, Bill é o que diz ser, e é muito mais vampiro do que os Cullen de “Crepúsculo”, e cuja semelhança é inegável. Aliás, a semelhança é tamanha, que um leitor que não conheça a ordem das publicações ficará em dúvida sobre quem “chupou” quem, no território das escritoras. Não é difícil distinguir nos vampiros de New York e no de Bon Temps as mesmas ambições – viver em paz com a comunidade humana, – nem os mesmos problemas – a dificuldade de conseguir alimento e as visitas ocasionais de “outros” vampiros, menos interessados na integração. De fato, o inferno sempre são os outros. E isso para não nos determos sobre o Grande Amigo de ambas protagonistas, sempre um lobisomem.
Como se dizia, Bill é um vampiro bastante clássico. Diferentemente das novidades introduzidas ultimamente, ele não tem outros poderes além do de encantar os seres humanos com sua voz e força de vontade, é rápido, forte e tem um pavio pra lá de curto. Ele dorme durante o dia em um sinistro espaço costumeiro à histórias deste tipo, é rico ¬– afinal, um vampiro pobre é um vampiro burro, convenhamos – e se bem tem sua imagem refletida em espelhos – que é um rico assunto para outra discussão – não suporta alho. É a tradicional figura, em fim, e seus melhores momentos são, sem dúvida, aqueles em que sua máscara cai e ele demonstra tudo o que o verniz de civilidade esconde.
Apesar disso tudo, “Morto até o anoitecer” não é uma história sobre vampiros. É uma história com vampiros, o que não é nem de longe a mesma coisa. “Morto até o anoitecer” é um thriller sobre um assassino em série que anda dando cabo de mulheres que tem ou tiveram relacionamentos íntimos com vampiros. Poderia ser um thriller sobre um assassino em série que matasse mulheres que tiveram relacionamentos íntimos com arquitetos ou que pintassem o cabelo de abóbora berrante. Teríamos a mesma história. Sabe-se que é um thriller logo de saída, sabe-se logo de saída que o assassino não é um vampiro e ao final de tudo, de fato, o assassino humano parece ainda mais assustador e realmente perigoso do que qualquer vampiro apresentado na narrativa, apesar de suas naturezas sombrias e selvagens. Poderia se argumentar que pelo menos com um vampiro você sabe com quem está lidando. Mas com o seu vizinho, você sabe?
Junto com o suspense, está o erotismo. Para quem, como eu, teve como referência o que é uma pin-up composta pelas maravilhosas capas da extinta revista “Grande Hotel” editada no Brasil entre as décadas de 40 e 60, já nas primeiras linhas Sookie se delineia com grande clareza. Sookie é uma pin-up clássica, com toda a sua ingenuidade, formas e sexualidade à flor da pele. Ela está à procura de amor e quando Bill entra na sua vida, percebe-se que Sookie encontrou um companheiro para todas as horas. Pelo menos àquelas em que ele estiver acordado.
Na verdade, um leitor mais crítico perceberá que a única justificativa para a existência de Bill em todo o romance é justamente romance – no sentido físico da palavra e não Literário. Sua função na história é única e exclusivamente, esta. De fato, o que interessa à escritora é a independência da personagem feminina, a independência total da interferência masculina tradicional. A inversão de papéis que ela oferece no início da história é levada às últimas conseqüências no final, correndo o risco de desequilibrar a narrativa e fazer o leitor pensar em qual é a função do protagonista masculino, afinal de contas. Bill parece não servir para muito mais do que sexo e um pouco de ruído. Em um de seus melhores momentos, ao ficar sabendo do assassinato de quatro vampiros de sua “comunidade”, a reação dele parece ser a de qualquer vampiro – pessoa – normal: ele fica furioso. Mas o desfecho da cena é uma transa selvagem com a protagonista. Talvez aí o leitor devesse ficar atento quanto ao fato de que “Morto ao anoitecer” parece ser apenas uma colagem de diferentes fantasias da autora e não uma discussão sobre suas reais inquietações humanas e femininas. O papel de “heroína desamparada” de Bill, assumido no início, some de cena no final, revelando que, de fato, o romance de sobrenatural não tem nada mais do que alguns personagens extravagantes que, no final das contas são tão extravagantes quanto qualquer ser humano da atualidade. O protagonista masculino some inteiramente de cena, para só reaparecer na última página com uma desculpa que deveria ficar entalada na garganta da protagonista. Na minha, ficaria. Aliás, como leitora, o romance todo, ficou.
Abril 10, 2010
A trilha ou a vida
Mais uma trilogia do gênero fantástico, voltado para o público infanto-juvenil ganhou espaço nas estantes das livrarias através da Cia. das Letras. Desta vez trata-se de "Fora da Trilha" o primeiro volume das “Crônicas de Fímbria” (Paul Stewart, tradução de Ricardo Gouveia, edição de 2005).
O texto é harmonioso e bem escrito e o quesito “fantasia” leva nota dez. A história conta as aventuras de Twig, um adolescente humano criado por arbitrolls, uma espécie de trolls que vivem em, para e das árvores de uma floresta alucinante, a Matafunda. E é aí que o livro se reveste de um mundo fantástico, não encantado como as histórias de fadas, mas palpável e crível, onde as árvores são criaturas um tanto mais ativas do que as que conhecemos, e os habitantes do lugar, impressionantes metáforas da vida real.
É justamente nas metáforas que “Fora da Trilha” se destaca. Fugindo do estereótipo paternalista de outros contos de fantasia onde “sair da trilha” pode significar a perdição – como em Chapéuzinho Vermelho, por exemplo –, a história de Paul Stewart propõe justamente que para viver e se encontrar o personagem – e o leitor por conseqüência – precisa ousar, arriscar e fugir dos padrões estabelecidos pela sociedade: sair da “trilha” imposta. Cada encontro de Twig com os habitantes da Matafunda, em sua busca pela própria origem e seu papel na ordem das coisas, pode ser lido nas linhas e nas entrelinhas, compreendido em dois níveis diferentes, até o sufocante final, que deixa o leitor, literalmente, por um fio.
O desvio da trilha conhecida, proposto pelo autor, leva Twig a uma experiência dura, cruel e perigosa, realmente mortal – e também moral. Mas é também através desta nova experiência que o personagem conhece a verdadeira amizade e o verdadeiro caminho, o único possível: o seu próprio. Twig vai fazendo sua trajetória através da Matafunda com um mínimo de conhecimento, exatamente como o adolescente que começa a dar seus primeiros passos pela vida adulta, também com um mínimo de informação. Coragem, determinação e capacidade de confiar – e de amar, por extensão –, mesmo se isso significar um erro, diz-nos o texto, são as principais armas de quem quer ou, como Twig, precisa enfrentar a vida. Vida essa que sempre e sempre, é pessoal e intransferível.
As ilustrações de Chirs Rideell, por sua vez, são um espetáculo à parte. Além de captar de maneira magistral as sutilezas do texto, ajudando na visualização do mundo da Fímbria e seus habitantes, os desenhos estão repletos de identidade própria: neles, o belo pode ser o mal, o bem pode ser feio, ou tudo ao revés, como os olhos do leitor preferirem. A força e a emoção do texto foram perfeitamente contidos pelo trabalho do ilustrador, sendo uma sedução extra, sobretudo para quem gosta de histórias de fantasia e está habituado à estética um tanto dúbia de tais narrativas.
“Fora da trilha” oferece tudo o que se espera de uma aventura infanto-juvenil: emoção, aventura, diversão e ainda por cima é Literatura. É uma ótima opção para quem gosta de fantasia e para quem aprecia uma boa história, seja o gênero que for.
Abril 03, 2010
Trilogia antiga
Os amantes da Fantasia com certeza ganhariam com uma produção caprichada para o sombrio “Stormbringer”, de Michael Moorcock. Obra de primeira grandeza, o livro merece, sem dúvida alguma, um espaço nas livrarias atuais.
Outra obra, sem tanta qualidade, mas que também merece sua versão cinematográfica e uma nova edição, é a trilogia “Drangonlance”. Editada no Brasil pela Devir e dividida em três volumes principais – “Dragões do anoitecer de outono”, “Dragões da noite de inverno” e “Dragões da alvorada da primavera” – a obra assinada por Margaret Weis e Tracy Hickman tem tudo para agradar as novas gerações de leitores de Fantasia. Drama, humor, romance e personagens fascinantes somam-se à possibilidades de cenários fantásticos e situações que balançam qualquer amante de criaturas mágicas.
A história é bem simples em seu fio condutor: um poder inesperado levanta-se sobre a terra de Krynh, carregado nas asas dos dragões, que num primeiro momento representam o mal. Um grupo de amigos vê-se inesperadamente envolvido com os vilões, ao dar proteção a um casal de viajantes que porta um medalhão com poderes místicos. A partir daí a história vai de peripécia em peripécia, na luta entre o bem e o mal.
É verdade que nem tudo são flores nesta extensa trilogia da qual derivaram outra trilogia – “O tempo dos gêmeos” – e mais um grande volume intitulado “Dragões da labareda de verão”. Tendo sua origem profundamente arraigada em partidas de RPG, o texto às vezes revela demasiado o recorte dos jogos, mantendo a dinâmica dos mesmos e as opções que movimentam o clássicos “D&D”. Não faltam situações em que um personagem tem de escolher entre duas portas, duas ou três direções ou mesmo, tomar a decisão de falar com outro personagem ou atravessá-lo com uma espada, e às vezes sobram labirintos subterrâneos povoados de medonhas criaturas. De vez em quando, um personagem toma uma atitude ingênua demais, simplesmente para provocar a crise que dará o ensejo dramático àquela parte da narrativa, forçando o texto a se dobrar à vontade de seus criadores e não sendo devidamente conduzido por eles. Isso irrita o leitor mais exigente e aborrece um tanto. Contudo, nada é perfeito.
Para esta leitora, porém, a soma das qualidades da trilogia é maior do que seus defeitos e a maior qualidade de “Dragonlance” são os seus personagens e a coragem com que os autores abordam a história dos mesmos. O grupo central é formado por nove personagens, inicialmente estereótipos que lembram formalmente a Confraria do Anel, de Tolkien – outra coisa que aborrece, pelo menos no começo. Com certeza não é uma coincidência: a presença de Tolkien é forte em quase toda obra. Há vários personagens “agregados” que aparecem e desaparecem com o andamento da narrativa que, inicialmente, tem o mesmo moto de ação de centenas de obras de Fantasia anteriores: a luta do bem contra o mal invasor, que procura dominar o mundo através da força, representado por tudo de ruim que há: ambição desmedida, mediocridade política, incapacidade de compreender as diferenças como um multiplicador, corrupção, crueldade, e outros muitos mais “etc”.
Este desafio de deparar-se com um grupo tão grande de personagens fixos e inúmeros outros, flutuantes, sacode quem andava lendo diálogos enxutos entre apenas dois protagonistas ou conversas entre grupos pouco variáveis. O prisma caleidoscópico não nos deixa enraizar em apenas um personagem, mas nos leva a viajar pela história diferentes vidas. Talvez por ter tido em sua origem seres humanos reais – os jogadores do RPG que deu origem aos livros – é que os personagens de “Dragonlance” revelam-se tão complexos. Com esta quantidade de personalidades, várias linhas narrativas são traçadas, levando o leitor por diferentes paragens e dramas, sem manter o foco inalterado em um único personagem, como os atuais bestsellers do gênero, “Harry Potter” e “Twilight”. Indo mais além da trama narrativa de Tolkien, que divide-a em duas e posteriormente em três partes, “Dragonlance” entremeia-se a vontade, chegando ao cúmulo de flertar com a metalinguagem à certa altura do texto.
Três personagens dominam a narrativa: Tanis Meio-Elfo, Lauralanthalasa, e Raistlin. Mas isso não significa que os demais não sejam costumeiramente protagonistas – Tasslehoff Burfoot, o kender, por exemplo, é um autêntico ladrão de cenas. Contudo o mais fascinante para esta leitora, foi a capacidade dos autores e levarem até as últimas consequências seus personagens, sobretudo Sturm, Flint e Raistlin, o mago. Este último, tem papel preponderante na narrativa, manipulando seus amigos como um autêntico mestre-do-jogo, sem, no entanto, sê-lo de verdade, ou, talvez, roubando das mãos do narrador original, essa função.
Uma boa versão cinematográfica de “Dragonlance”, seria, com certeza, sucesso de bilheteria. Eu disse “boa versão”. Versões regulares não servem, porque cairão fatalmente na mediocridade e no ruim. O Youtube está repleto de vídeos sobre o assunto, desde o teaser do desenho animado de longa metragem já produzido (e cuja qualidade fica bastante abaixo do que a série merece, diga-se de passagem) até “castings” alternativos e vídeos caseiros, a maioria deles amparado por composições de hard-rock orquestral, estilo que, aliás, parece ter sido feito sob medida para a trilogia. De passo isso seria uma boa desculpa para novas edições – com tradução e diagramação melhoradas, espera-se – e inclusive para uma tradução do terceiro volume de “O tempo dos gêmeos”, ainda inédito em português. Até lá, sem compreender o mais mínimo os caminhos das produções cinematográficas, teremos de nos contentar em imaginar as aventuras de personagens tão interessantes – coisa, aliás, que sempre foi a base do bom RPG e que deu a estas criaturas de papel, a profundidade que elas têm.
Março 28, 2010
Do crepúsculo ao amanhecer
Antes de continuar, caro leitor, uma ressalva: isto não é uma crítica; é um apanhado de idéias a respeito de um grande autor gaúcho pelo qual não tenho jeito de me apaixonar. Como é um apanhado de idéias, o texto é absolutamente pessoal. E sendo absolutamente pessoal, não está embasado em teoria literária alguma: esta leitora não é professora do assunto. É, apenas e somente, uma pessoa que gosta de ler e contar histórias.
Então, vamos ver:
Eu fiz de propósito, para ver se (me) compreendia melhor: por que uma escritora que valoriza tanto o folclore e o imaginário de sua terra, é leitora contumaz de autores de norteamericanos e não consumidora voraz de um dos maiores mestres da literatura brasileira que é gaúcho (e portanto manipula uma matéria prima muito próxima desta autora/leitora)? Aí li "Duma Key" de Stephen King, e a seguir "Noite" de Érico Veríssimo.
Nada a ver!, gritarão os leitores que conhecem ambos leitores e ambas obras. E provavelmente torcerão o nariz, uns e outros, porque é raro encontrar leitores que apreciem de fato ambos escritores. Tudo a ver!, retruco eu, seres humanos são feitos de labirintos assim mesmo.
Deixando-me a buscar o caminho no difuso divertissement de Dédalo da minha alma, atrevo-me a comentar aqui, então "Noite", de Érico Veríssimo, que é ofertado ao público em uma nova e bonita edição da Companhia das Letras. Trata-se de uma novela curta e angustiante que de alguma forma me lembrou "After Hours" de Martin Scorsese, aquele filme que dizem ser uma comédia, mas que sempre me deixou muito nervosa. A história se passa no período de uma noite, como diz o título. Um sujeito "desperta" em meio a rua, sem memória alguma, confuso e perdido. Vítima de amnésia, o Desconhecido vaga por uma cidade também sem nome, que poderia ser Porto Alegre, ou qualquer cidade beirando a um cais. A certa altura, seu vagar topa com os dois personagens que darão direção à trama: Nanico, um corcunda sádico e irônico, e o Mestre. Perceba-se, contudo, que a utilização da letra maiúscula é uma questão em aberto: nenhum personagem de "Noite" tem nome próprio, o que acentua a confusão e a impressão de sonho e pesadelo da narrativa. De qualquer maneira, Nanico e o Mestre convencem seu confuso acompanhante de que cometeu um crime. Feito o laço, o Desconhecido não consegue mais se livrar de ambos, e com eles sai numa peregrinação pelas mazelas de noite de uma cidade grande da década de 50. A única esperança surge de vez em quando, como um lampejo: um sujeito todo de branco, que segue o trio, noite à fora, na companhia de sua gaita de boca.
E por que eu não tenho reparos para criticar Stephen King e peço licença para dizer algumas palavras sobre Érico Veríssimo? Pois mais do que nada, basta ler um parágrafo do gaúcho para reconhecer a elegância de sua prosa, o absoluto domínimo do léxico, a qualidade de sua Literatura - o que, no entanto, não me torna fã de Érico como sou de Stephen King. De Érico Veríssimo li obras pontuais ("Um incidente em Antares" e, agora, "Noite"). Sua prosa me incomoda até o mais profundo do meu ser. Existe nela um realismo enauseante, que ele usa para compor o quadro geral da obra - enquanto Stephen King usa a náusea com objetivos que não é preciso comentar aqui. O mundo que Érico me apresenta é próximo demais ao real, a noite que ele retrata é justamente aquela que eu faço questão de ignorar, porque me parece mil vezes mais cruel, sádica e imoral do que uma noite assombrada por um zumbi ou um vampiro. E existe um traço que realmente distingue um autor do outro de maneira contundente: os romances que li de Stephen King, por mais assustadores ou tristes, que possam ser, geralmente teminam com esperança em dias melhores. Seus personagens, mesmo as crianças ou os que parecem frágeis, por sua capacidade de sobreviver às atrocidades que ele propõe, se revelam fortes e honestos em sua força. São, em certa medida, puros, purificados, talvez pelos sofrimentos atravessados. Você chega a conclusão de que se eles conseguem sobreviver aqueles pesadelos, você também conseguirá vencer os desafios que a vida nos impõe.
Em Érico, pelo menos nos livros lidos, isso não é assim. Os personagens de Érico são humanos demais, frágeis demais. A esperança que ele propõe é ambígua, cheia de incertezas, minada pela desesperança da dúvida e da condição humana. E isso me incomoda profundamente, me afasta deste grande escritor. Eu não leio para ver a vida real, eu leio para crer que é possível sobreviver a ela.
E finalmente, a dúvida: por que, afinal de contas e depois de tanto palavrório, comparar dois autores que pertencem a gêneros tão diferentes? Stephen King escreve histórias fantásticas e Érico se dedicava a olhar a realidade e dela extrair histórias ditas realistas. Pois porque Carlos André Moreira, editor do Caderno de Cultura da Zero Hora e do blog "Mundo Livro" fez uma crítica de "Noite" que me convenceu a ler a novela: ele coloca que a narrativa pode ser vista com traços fantásticos. E de fato, pode! Aliás, desde a minha ótica, ler "Noite" desde um ponto de vista fantástico apenas acrescenta à história e - aí, então - nos permite aquela esperança de que eu falava mais acima.
E aí, então, eu consigo resgatar Érico para mim.
Março 20, 2010
Assombração na ilha do horizonte
É Stephen King. O que significa que bem, ou mal, quem gosta da literatura de King vai poder se debater, chutar e reclamar, e tentar em vão lutar contra a falta de uma linha condutora para os pavores da história (e toda a história de terror tem uma linha condutora firme e luminosa que vai alinhavando os pavores. Com excessão, talvez, de "A Casa da Colina"), mas ao final, se deixará levar. E isso é bom, mesmo quando é ruim.
Vamos por partes, ou corro o risco de ser tão dispersa quanto o mestre em sua obra mais recente. O livro é "Duma Key", editado no Brasil pela Objetiva, com tradução de Fabiano Morais. Mário Carneiro Jr., da Biblioteca Mal-Assombrada, afirma que o livro "é inclassificável", no que fecho com ele. Alguns sites da internet exibem o condinome de "A Maldição". Não se deixe engambelar: maldições são coisas absolutamente simples e claras. Cristalinas. "Duma Key" é tudo, menos cristalino. A impressão que dá a certa altura, é que o autor simplesmente se perdeu.
Aliás, quanto a isso, várias resenhas comentam que dois terços do livro são uma preparação para o final. Alguns até arriscam: "não que sobre texto, mas...". A verdade é que esta não é uma das histórias sarapintadas de mortos que se levantam do túmulo, vampiros classicões ou coisas do gênero. Durante três quartos do livro, Stepehen King faz autêntica literatura fantástica: aquela em que você fica em dúvida se é fantasia ou realidade o que acontece. Somente no último quarto do livro é que o leitor se encontra com o palpável de sempre. Mas é, também, onde o texto, talvez por entrar nos trilhos de sempre, perde ímpeto. E, todo o caso, é Stephen King e por mais que possamos criticar uma obra sua, ele é um autor de primeiro linha.
Uma coisa que se deve destacar como altamente positiva, é a tradução. Entre tantos enxertos e presunções reais que assombram a tradução no mercado brasileiro, o trabalho de Fabiano Morais em "Duma Key" é de tirar o chapéu (veja uma entrevista com o tradutor no blog "Projeto 19", clicando aqui). É uma tradução meticulosa, trabalhada, esmerilhada, realmente um primor. Algumas frases em espanhol deixam a desejar, mas aí não se sabe se não é o texto em inglês que falha (e eu creio que sim). O texto original, sobretudo nos desvarios disléxicos de Edgar Freemantle e (sobretudo) Elisabeth Eastlake devem ter sido um desafio verdadeiro. E é graças à boa tradução de Morais que "Duma Key" chega com sua beleza e força às nossas mãos.
A sinopse é simples: Edgar Freemantle sofre um terrível acidente no qual perde o braço direito. No processo de recuperação ele vai morar sozinho em Duma Key, na costa oeste da Flórida. Lá ele desenvolve seu talento artístico (Edgar é canhoto), e lá King explora de maneira bastante pessoal o tema dos membros fantasma, longamente documentado na crônica médica. O autor retrata com sua habitual performance a recuperação do personagem, seus traumas e seu sofrimento.
Contudo, a idéia do membro fantasma não vai longe na trama. Ou talvez se pudesse dizer que ele perde força mesmo que permaneça até o epílogo da narrativa. É como se a linha de raciocínio se perdesse ou fosse abandonada em benefício de outra. Uma ilha assombrada, talvez? Sim, boa ideia! Mas assombrada pelo quê?
Um navio fantasma parece ser o ideal. Aliás, em Duma Key, Jack Sparrow, o capitão do Pérola Negra, ia se sentir em casa. Um navio, então, mas não qualquer navio, um com um nome grego. Você acha que encontrou na esposa de Hades uma luz na tempestade, mas raciocína que ela não era muito ligada ao mar. Então o leitor irriquieto vai ao Dicionário de Mitologia e se encontra com a mãe de Circe, uma oceânida de respeito, e grita "bingo! Mãe de peixe, peixão, é!". Bruxa, quero dizer. E por um instante o jogo do "quem sou eu" que Duma Key joga com o leitor parece algo que a gente já leu, talvez em "O Ladrão de Raios".
De qualquer maneira é isso, mas não exatamente. Eu passei o livro inteiro procurando uma linha que me levasse, enfim, à assombração real (disparate dizer isso, mas não quando há um livro de King pelo meio), exatamente como quando li "A Casa da Colina" e passei o tempo todo intimidada por uma assombração que se negava a dizer porque assombrava, e que se negou até o amargo fim de Elinor, apavorando ainda mais porque não se tinha certeza se que de fato era uma assombração.
"Duma Key", enfim, se revela. É como se a ilha inteira fosse a Casa da Colina, mas no fim não fosse. E quando a assombração finalmente se aclara, você pensa muitas coisas. Você pensa "certo, então era só isso" (e lembremos que com King "só isso" é, muitas vezes, bem mais do que o suficiente). Você pensa - e isso é culpa do próprio King, que nos ensinou a pensar transversalmente, lançando mão de referências culturais contemporâneas o tempo todo - você pensa "hum, a "Bússola Dourada, Philip Pullman, 1995". Você pensa "ah, sim, Calipso, Piratas do Caribe no Fim do Mundo, 2007". Você pensa "mas se a coisa é a referência, porque diabos não citar todas as referências, mesmo, assumidamente?"
Talvez porque a memória é uma traidora mentirosa, ou, como diria Edgar num dos seus rompantes de fúria, uma trairosa mentidora?
"Duma Key" é um daqueles livros ricos em referências culturais norte-americanas com que King tanto gosta de nos brindar. Mas de vez em quando a pena desliza e diferentes personagens oferecem diferentes referências com a mesma estrutura textual (a utilizada aí acima), o que incomoda um leitor mais atento. O deslizar da estrutura - ou o fato de a linha narrativa não estar muito clara, no que diz respeito ao fantástico da história (sabe-se que algo atua em Duma Key, mas não se sabe o que é) - também incomoda, mas pelo menos não trai a inteligência do leitor.
O livro apresenta muitas passagens realmente maravilhosas: a descrição do local, sobretudo do Casarão Rosa, é uma das melhores coisas que já li de King. Literalmente é possível ouvir o som das ondas sob a casa, revolvendo as conchas. A aparição final também é bela, poética e muito sensível, apesar de terrível. E é uma novidade para mim ler um texto de King onde não haja víceras e sangue escorrendo das páginas - mas também, fazia algum tempo que não lia nada dele - nem as cenas de sexo que costumam estar presentes em seus romances. A narrativa que antecede a exposição de arte de Edgar é simplesmente perfeita nos medos e titubeios do personagem e, como sempre, porque este é o verdadeiro tema do autor e não o sangue e pavor que consegue fazer crescer nos corações dos leitores, esta é mais uma vez uma história sobre amor, amizade e superação. Todo o resto é pura literatura factível. Ou viagens no Google Earth. É que com a ferramenta na mão é impossível não "visitar" o litoral da Flórida e ver algumas das paisagens citadas no livro, como a cidade de Tampa ou os maravilhosos pores de sol do Golfo, que pontuam a narrativa. Você também pode "ir" até Egmont Key, no meio do delta da Baía de Tampa e "visitar" a praia de palmeiras mortas, mais ao sul da ilha... Ao sul, brrr. Se algum lugar no mundo é Duma Key, esse lugar é Egmont Key, pode estar certo disso.
Agora, no meu entender, o grande momento do livro são os capítulos "Como Fazer um Desenho". Na verdade, King entrega aos seus leitores e aos escritores que virão, uma verdadeira aula sobre o que realmente interessa na Arte. Qualquer Arte. Ele usa o tema da imagem, do desenho, como metáfora, mas o processo criativo, na verdade é o mesmo para todas as formas. Um escritor, afinal de contas, "desenha" com as palavras, cria frases que evocam imagens e sensações na mente de quem lê. Nas lições de "Como Fazer um Desenho" (de I à XII) o autor é realmente honesto. Além de raiar a poesia, nos mostra a importância do processo criativo para qualquer pessoa em qualquer idade e nos faz pensar no que a Arte realmente significa. No que ela realmente deveria de significar: redenção.
Todo o resto, como ele diz ao final, é apenas vida.
Março 13, 2010
De gelo e amizade
Fazia muito tempo, muito tempo mesmo, que um livro não me tratava assim: pegou a minha veia leitora na primeira página e puxou-a com ferocidade e beleza até a última, sem dar um instante de trégua. A sensação foi de uma sacudida brutal. Como uma janela que andava meio emperrada e subitamente se abrisse para uma paisagem sem igual onde soprasse uma brisa fria e boa.
Esta é a primeira impressão que dá a leitura de “Irmão Lobo”, o primeiro livro da série “Crônicas das Trevas Antigas”, de autoria da inglesa Michelle Paver, editado no Brasil pela Rocco com tradução de Domingos Demasi. E a primeira impressão, é a que fica, felizmente.
A noção de que uma janela foi aberta em algum lugar, começa já nas primeiras linhas da obra, e não só por causa do ritmo que a autora imprime ao texto, mas sobretudo porque a gente se dá conta da complexidade da pesquisa em que ela se baseou para dar ao mundo retratado uma riqueza de detalhes repleta de intimidade. O mundo de Torak, o personagem principal da obra, emerge das páginas em preto e branco, cheio de colorido, sombras, luzes, cheiros e sons há muito perdidos. De fato, perdidos há 6.000 anos.
As histórias das “Crônicas das Trevas Antigas” se passam no final da última Idade Glacial e retratam um mundo que, normalmente, fica restrito aos livros de antropologia. Rico em detalhes que retratam o mundo dos seres humanos que já eram o homem moderno sem, contudo, o verniz das grandes civilizações, os textos são ricos em ação e emoção em doses iguais. Competente ao extremo, dominando a sábia arte de Sherazade – a de saber onde por o ponto final de cada capítulo para que o leitor simplesmente não agüente esperar até o dia seguinte para sabe o que aconteceu, – a autora vai fiando a história de Torak, um menino que no primeiro volume da série tem 11 anos de idade, sem pressa e com muita capacidade. Sozinho em um mundo que para qualquer homem urbano da atualidade seria absolutamente mortal, Torak encontra consolo para sua solidão, e coragem para enfrentar a morte do pai, na companhia de Lobo, um filhote de lobo órfão que cruza em seu caminho. A adoção é relutante, mas bi-lateral. No mundo de Torak filhotes de diferentes espécies são perfeitamente capazes de se reconhecer como irmãos, rompendo qualquer barreira de comunicação que possa haver. Na verdade, o menino encontra bem maiores dificuldades em se fazer aceitar por humanos como ele, ao ser capturado pelo Clã do Corvo. Vivendo em uma Floresta que no momento é assombrada por um urso-demônio enlouquecido de ódio, Torak precisa provar sua coragem e testar sua força e inteligência. E nesse teste de coragem ele se depara com Renn, a caçadora dos Corvos que, finalmente, constitui a terceira aresta deste triângulo de aventureiros dispostos a salvar a realidade que conhecem.
Como já foi comentado, o texto é rico em informações que vão desde a alimentação até o vestuário utilizado pelos homens do passado gelado que antecedeu às grandes civilizações que desenharam o mundo humano da atualidade, passando por armas, barcos e medicina apontados pelas pesquisas dos antropólogos. O que é interessante mas que, em vários momentos, causa um choque, porque há atitudes e situações que normalmente não se encontram em um livro infanto-juvenil. Contudo, Paver não deixa a peteca cair: trata com naturalidade ações que deixariam outro autor mordendo a unha do polegar com a preocupação de como o leitor moderno vai aceitar aquilo. E com isso constrói uma narrativa forte, séria e digna de ser lida com atenção. O mundo de Torak é um mundo selvagem, onde não há lugar para a fragilidade de seus habitantes – e tampouco de seus leitores.
Contudo, existe um desagradável deslize das “Crônicas”. Esta é, sim, mais uma serie de livros infanto-juvenis, nos mesmos moldes de Harry Potter: cada livro narra as aventuras e um menino, enfocando um ano de sua vida, ou um período correspondente a isso. E, sim, o menino no início tem 11 anos, de modo que poderemos acompanhar o seu amadurecimento até os 17 (são seis livros). É óbvio que a história é complexa demais para ser encaixada em um livro de tamanho padrão (até os estrangeiros parecem ter esse esqueleto literário guardado no armário editorial. O que seria da atual literatura de fantasia – “As Crônicas das Trevas Antigas” incluídas – se o editor de Tolkien acreditasse nisso e no que vem a seguir?). Ou se de fato a máxima de que se você quer capturar o interesse de leitores pré-adolescentes e adolescentes, precisa obrigatoriamente escrever sobre personagens nesta faixa de idade. Aparentemente, as teorias literárias fizeram escola entre os escritores e editores. Mas por quanto tempo isso irá durar? Acostumamos os adolescentes a olharem para si mesmos, para seus próprios umbigos. Quando os ensinaremos a olhar para frente, a criarem expectativas quanto ao futuro ser humano que serão?
Tirando esse percalço, pelo menos este primeiro volume só merece elogios. Os personagens humanos da narrativa são bem construídos, sobretudo os secundários, como Fin-Kedinn, o líder o Clã do Corvo. Mas, sem dúvida alguma, quem rouba a cena desde o primeiro momento é Lobo. Nenhum personagem, nem mesmo Torak, é tão tri-dimensional quanto ele. Na verdade, há momentos em que o leitor fica em dúvida quanto a quem é o protagonista da história. Talvez dependa do ponto de vista. Do ponto de vista humano, a narrativa tem um sentido. Do ponto de vista lupino, outro. Mas ambos convergem para o mesmo ponto: não importa o quanto você estiver sozinho e perdido. Se tiver o coração bondoso e puro, incorruptível porque fiel, o irmão de sua alma virá para você.
E o caminho até o seu destino poderá ser estranho, perigoso e desagradável, mas jamais será solitário.
Só por isso, já terá valido a pena.
Março 07, 2010
Deste lado para baixo

Se a gente entrar no Google e procurar por "Londres Subterrânea", vai logo descobrir que este é o nome que se dá ao sistema de metrôs da cidade, o mais antigo do mundo. Mas o que Roderick Gordon e Brian Williams propõem em "Túneis" é muito mais do que isso. Editado no Brasil pela Rocco, com tradução de Rita Vinagre, "Tunéis" sugere um mundo subterrâneo ao melhor estilo de Júlio Verne.
No livro, Will, um garoto meio albino de 14 anos, apaixonado por escavações e por arqueologia, se mete em apuros quando resolve procurar pelo pai, depois que este desaparece. Auxiliado por seu amigo Chester, ele mergulha em uma escavação e termina encontrando um novo mundo velho que parece guardar mais sobre o próprio Will do que ele poderia imaginar.
A narrativa tem uma boa dose de aventura e vai num crescendo gostoso de ler. As surpresas se sucedem brutalmente e a gente só fica pensando em como Will vai conseguir dar a volta por cima para solucionar os desafios que lhe são impostos. Há exploração, emoção, suspense, luta e o personagem vai aprendendo a sua parcela de responsabiliade sobre os outros, crescendo enquanto pessoa. Obrigado a afrontar seus limites, Will tem tudo para levar seus leitores até as profundezas da Terra, seja lá onde isso for. E o final nos deixa sobre o fio da navalha, esperando pelo próximo volume.
É que "Túneis" faz parte de uma série chamada "Profundezas". Mais uma série? Pois é. Outro dia ouvi uma pessoa perguntar se não havia um livro infanto-juvenil bom para ler, mas que não fosse parte de uma série. O comentário me chamou atenção. De fato, a grande maioria dos títulos ofertados a este público está organizado em séries, cujos livros nem são pequenos, nem são baratos. Interessante fenômeno que chama a atenção e aborrece um pouco. É simplesmente impossível acompanhar todas elas, por mais que a gente goste dos protagonistas.
Agora o que realmente me incomodou na leitura do texto, foi a confecção do mesmo. Tem nele alguma coisa que não consigo explicar, e que tem emergido na maioria dos textos infanto-juvenis traduzidos que ando lendo - então não é uma característica só de "Túneis", mas de outros livros também. De uma maneira geral são todos muito visuais, escritos, claramente, pensando no cinema - o que, aliás, é a tônica, atualmente. Mas não é isso. Não tenho nada contra o cinema. É, antes, uma falha na sobreposição de tempos verbais, uma falta de soluções elegantes para os desafios oferecidos pelas narrativas, sei lá. A impressão que tenho é que são histórias diferentes, mas todas escritas pelo mesmo autor, como se os autores atuais não tivessem voz própria e nem deixassem as narrativas ter a sua própria voz - quando a gente bem sabe que cada narrativa tem uma "voz" única, feita a partir da escolha de termos e da própria construção da frase. Os textos são ambiciosos no que diz respeito à criatividade das aventuras, mas parecem muito menos preocupados em oferecer de fato Literatura. Enquanto aventuras, são ambiciosos. Mas enquanto Literatura, mornos e sem tempero.
Fevereiro 27, 2010
Vampiro à indiana
Figura carimbada nas viagens de exploração da África e do Oriente, aventureiro dos de verdade e um dos responsáveis pela descoberta européia do Lago Tanganyica, o excelentíssimo cavaleiro da Rainha, Sir Richard Francis Burton (1821-1890) deixou para a posteridade muitas histórias para contar. E contou para a posteridade, também, muitas outras, como em "Vikram e o Vampiro", editado pelo Círculo do Livro com tradução de Sérgio Augusto Teixeira.
O texto reúne onze narrativas das vinte e cinco que compõe o orignal Baital-Pachisi, ou "Vinte e cinco contos de um baital", selecionadas e traduzidas para o idioma de Shakespeare pelo explorador. Como leitura de entretenimento talvez se faça muito pesada: as narrativas, afinal de contas, são parte da bagagem cultural que dá origem aos contos as "Mil e Uma Noites", imortais, sem dúvida, mas às vezes cansativos. No caso presente, os textos às vezes se tornam ainda mais pesados, pela quantidade de filosofia indiana em suas linhas, mas pelo menos o autor/tradutor oferece notas que ajudam à sua compreensão. O que salva a leitura é a força de Burton, que transpassa o tempo e as traduções, e o próprio baital, personagem absolutamente maligno e cínico que é o narrador da maioria dos contos.
O fio condutor do livro é o Rajá Vikram que, para livrar-se de uma maldição, concorda em levar até o mago que deseja matá-lo, um baital, isto é, um vampiro. Ao ser capturado, a entidade maligna propõe a Vikram um autêntico jogo de vaidade: ele contará histórias para seu captor, propondo indagações ao final de cada uma, e se o humano responder a alguma delas, o vampiro voltará imediatamente à árvore onde o rajá o encontrou. O jogo é de vaidades porque Vikram, enquanto rajá, acredita-se sábio e poderoso, e porque uma de suas atribuições, enquanto governante, é julgar as querelas do reino. Vikram não se furta aos desafios contínuos e por isso o baital, ao final de cada narrativa, retorna ao seu poleiro predileto, de onde é derrubado continuamente pelo governante. Somente à última história, que é claramente uma contribuição de Burton, não obtém resposta, levando, assim, ao final do livro.
Como eu dizia, enquanto leitura de entretenimento, "Vikram e o Vampiro" pode se fazer um tanto pesado. Mas deveria de ser uma das leituras moralmente obrigatórias para quem escreve Literatura Fantástica. Primeiro porque várias linhas narrativas oferecidas pelos textos podem resultar em roteiros para a produção de novas histórias, com temáticas dramáticas realmente interessantes. E depois porque há pelo menos duas passagens que impressionam pela tensão e pela riqueza de bichos feios tradicionais da Índia, além da construção literária dos mesmos: são os dois momentos em que o rajá entra no espaço aterrorizante do cemitério para entrevistar-se com o mago que, aliás, deseja nada mais, nada menos, do que sua cabeça como oferenda à Kali. Realmente é de se perguntar porque certos textos, ou pelo menos trechos deles, são tão pouco conhecidos entre nós e quais são suas influências na literatura de sua época. Por exemplo, é interessante observar que "Drácula" de Bram Stoker foi editado sete anos depois da primeira edição de "Vikram e o Vampiro". Terão alguma relação, os dois livros? Stoker terá lido Burton e encontrado no livro a inspiração para seu próprio vampiro, que se rivaliza em cinismo, crítica e orgulho, tanto ao baital quanto ao mago?
Pois o baital, é exatamente isso: inspiração pura. Cínico, irônico, crítico dos costumes, inteligente e culto, o baital é uma entidade, uma espécie de espírito maligno que se apossa dos corpos dos mortos para continuar sua medonha existência. Posicionado em sua "árvore predileta" pendurado de cabeça para baixo pelos pés como um morcego, ele oferece uma visão no mínimo perturbadora que merece ser lida e saboreada. Uma assombração digna das mais arrepiantes histórias de terror.
Fevereiro 20, 2010
Debulhando milho
Da série "a estante do meu vizinho é formidável!" trago este romance escrito pelo ator Thomas Tryon, ator norte-americano que depois de ser indicado para o Globo de Ouro de 1964 por sua atuação em "O Cardeal", e de outros títulos importantes, resolveu se dedicar à Literatura, estreando em 1971 com "O Outro", livro que resultou no arrepiante "A inocente face do terror", de 1971.
O título do livro desta semana, em português,"As Possuídas do Diabo", não tem nada a ver nem com o título original ("Harvest Home"), nem com a história, mas é assim que o leitor curioso irá encontrá-lo (provavelmente em algum sebo). Editado pelo desaparecido Círculo do Livro, com tradução de Luiz Coração, o livro aparece em vários sebos da rede. No entanto, é bom tomar cuidado com as resenhas absolutamente nada a ver, exatamente como a tradução do título, que circulam por aí. Não, não é uma história sobe a caça às supostas bruxas da era vitoriana.
"As Possuídas do Diabo" conta a derrocada de uma família urbana que se muda para uma cidadezinha do interior dos EUA, cuja comunidade local se dedica à monocultura do milho. Plantinha assustadora, aliás, que adora pregar peças nos incautos leitores através dos clássicos do gênero, feito Stephen King, à custa dos seus espantalhos e das antigas tradições indígenas. Afinal, o mito de como surgiu o milho é um daqueles que emociona e arrepia, dentro do universo do imaginário nativo norte-americano. Some-se a isso as maluquices dos adoradores de Deméter, na Grécia e teremos ingredientes mais do que suficientes para montar uma boa história de terror e suspense. O romance também oferece doses de erotismo, bem dentro do tema, aliás, e o estranhamento da situação se dá mais pela ótica do protagonista/narrador um artista plástico, educado, homem de mundo, "civilizado", do que dos atores do drama grego. Uma coisa interessante sobre a narrativa é que apesar do protagonista/narrador ser de origem grega e o profissional que é, ele parece incapaz de reconhecer o complexo de tradições que o rodeiam e as consequências das mesmas. Ainda bem, comentarão alguns leitores, porque se assim não fosse, não teríamos história para ler.
Apesar do texto ser um bocado prosaico, com vários parágrafos mal trabalhados, sobretudo no início, a narrativa cresce com o desenvolvimento do romance e o final é bastante perturbador. Inteligente, o autor não conta tudo, absolutamente tudo: ele dá todas as "tintas" para que o leitor pinte seu próprio quadro sobre o destino dos personagens, o que, aliás, também é uma das características de "A inocente face do terror", cuja história também se passa em uma comunidade do interior norte-americano, praticamente isolada e retrógrada. São estes espaços para a imaginação de quem lê que são o diferencial, já que a história em si mesmo é a crônica de uma tragédia anunciada - e para todos os personagens. Para mim, particularmente, tem uma coisa de que gosto: o mistério vai num crescendo, revelando e propondo novos mistérios, até que a gente começa a se perguntar até onde as personagens estão dispostas a ir - e até dar no final. Nada daquelas narrativas onde o sangue começa a espirrar na primeira página, obrigando o autor a exagerar para poder encontrar o clímax.
Contudo, talvez por já ter visto muito filme com a mesma temática, a narrativa deixa um sabor de déjà vu.
Bom de ler nas férias.
Fevereiro 13, 2010
Quase perfeito
A primera atitude que tive ao chegar às páginas de "Sangue de Tinta", a continuação "Coração de Tinta", foi recuperar vários detalhes que havia esquecido do primeiro volume. A história de Cornélia Funke, editada no Brasil em 2009 pela Cia.das Letras, e também com tradução de Sonali Bertuol, é extremamente complexa, povoada de inúmeros personagens, todos eles irretocáveis.
Se em "Coração de Tinta", Mo e sua filha Meggie usavam sua preciosa voz para tirar os personagens de seus livros prediletos, ao ler os textos em voz alta - veja crônica "No coração das histórias", aqui no blog -, em "Sangue de Tinta" eles fazem o caminho inverso. Desta vez, a pergunta não é "qual personagem da Literatura você gostaria de conhecer pessoalmente", mas "qual livro você gostaria de visitar?" E gostaria mesmo? Cornélia nos faz pensar duas vezes antes de responder, graças à sua prosa ímpecável e sonora. E não é para menos, porque se em "Coração" a leitura em voz alta podia dar vida à personagens, em "Sangue" a leitura dá aos leitores verdadeiros poderes mágicos. Mas, e aí está o truque da escritora, o leitor precisa de um texto previamente escrito por um escritor, uma pessoa de habilidade e talento com as palavras. Ou seja, a mágica da Literatura só acontece quando ambos, escritor e leitor se unem em torno de um texto comum.
A indagação principal é: uma história, uma vez dada por acabada pelo escritor, termina de fato no ponto final? Ou permanece e continua por vontade própria, ou, inclusive, por vontade alheia, a vontade do leitor desconhecido? E se o escritor tem vontade ou necessidade de fazer a história voltar aos seu eixo original, que palavras deverá usar? Porque, de fato, as palavras são mundos aparte, serpentes retorcidas que se entrelaçam para formar frases que nem sempre tem o sentido exato que o escritor quis dar-lhes, abrindo assim um leque inimaginável de possíbilidades.
E mais não digo, porque seria revelar a história toda.
"Sangue de Tinta" é, pela natureza da própria aventura, bem mais sombrio do que "Coração", e isso que o livro era suficientemente sombrio. Tudo parece dar errado na narrativa de Fenoglio, como se o texto, mais do que ter fugido ao seu controle, estivesse sendo dirigido por um poder maior. O poder da escritora de carne e osso? E será que somos mesmo de carne e osso, ou estamos vivendo a história que alguém escreveu? A escrita precisa recorta cenas inesquecíveis e chocantes, resolvendo em uma frase bem localizda situações que outros autores levariam parágrafo e meio para resolver - sem que isso signifique desmerecer a narrativa. Ao contrário, um dos momentos mais marcantes do livro é resolvido em uma frase o que é uma autêntica pincelada de mestre, porque insere o terrível acontecimento exatamente no ritmo da ação. Excelente!
Mas daí em diante a história se perde um bocado. O jogo da autora (de Fenoglio) e seus personagens para driblar a morte torna-se forçado. De fato, que graça tem uma história em que tudo pode ser alterado, inclusive a Ceifadeira? Como se vai temer pelos personagens se tudo é negociável? Que espécie de choque pode haver nesta ou naquela cena, se ela for reversível?
Não sei - não sabemos os leitores. Resta-nos o papel de esperar, agora, pela tradução do terceiro volume da entrega que, se for tudo o que "Sangue de Tinta" é em termos de qualidade, e a metade do que promete seu final em termos de discussão ética, será um grande livro, o arremate com um laço de ouro. Contudo, alguns textos na Internet dão a entender que o terceiro livo, lançado na Europa em 2007 não agradou à crítica.
Será uma tacada no escuro, com um título macabro: "Morte de Tinta". É esperar para ver.
Fevereiro 06, 2010
Suspense psicológico infanto juvenil
Às vezes os leitores "adultos", escritores e editores alimentam preconceitos que aparecem nascidos não-se-sabe-bem-de-onde, aliás, local de nascimento da maioria dos preconceitos. É o caso de alguns gêneros da literatura, como o suspense psicológico, rotulozinho escorregadio que aparentemente não agradaria aos leitores infanto juvenis e adolescentes porque é um tipo de narrativa onde não acontecem grandes coisas, no sentido de grandes romances, grandes cenas dramáticas, grandes cenas de ação. Na verdade, o edifício do suspense psicológico é uma delicada trama feita de pequenas coisas, algumas bastante sutis. Um empreendimento arriscado, mas, no caso de "O livro negro dos segredos", bem sucedido.
A história, escrita por F.E.Higgins, e editada no Brasil pela Record através do selo "Galera", se passa em algum lugar da Inglaterra dickiniana. A narrativa acontece sob três diferentes pontos de vista: o da autora, o do personagem central, Ludlow Fitch, e as histórias do próprio livro de segredos. A ação começa com muita ação: Ludlow Fitch encontra-se na difícil posição de doador involuntário e nada cooperativo de seus próprios dentes. Ato seguido, ele consegue chegar à pequena e aparentemente pacata Pagus Parvus onde conhece Joe Zabbidou, um penhorista também recém-chegado à localidade. O caso é que Zabbidou é um tipo especial de penhorista: ele penhora segredos. Se você tem algo lhe remoendo a consciência e impedindo-o de dormir à noite, vende seu segredo à Zabbidou e livra-se dele, ou aparentemente sim.
A trama é complexa e interessante, plagada de personagens convicentes. Ao comprar os segredos dos habitantes de Pagus Parvus, o penhorista dá início a uma tranformação da comunidade. Realista com o destino de vários de seus personagens Higgins escreveu uma história sobre consciência, confiança e responsabilidade moral que vale a pena ser lida. Divertido às vezes, aventuresco por outras, o texto revela um pouco da faceta humana, nem sempre agradável de ver, e prova que mesmo os personagens principais, dos quais se crê saber tudo pelo olho onipresente e onisciente do autor, também podem esconder segredos de seus leitores e de si mesmos. E mesmo que o final soe um tanto forçado, fantasioso demais, o livro sobrevive a isso.
Por fim, a escritora ameaça com uma possibilidade de série. Nada contra: o assunto rende, a prosa é boa e tudo indica que a idéia não seria ruim. Mas o molde pode se mostrar rígido demais, e apesar de ser uma leitora contumaz de séries - coisa prática, porque você já conhece os personagens - às vezes penso que seria bom dar ao leitor uma chance de fazer ele mesmo sua própria série e chegar às suas própria soluções. Só para variar um pouco: ficar com saudades de um personagens é uma grande forma de despertar a imaginação.
Janeiro 23, 2010
Volume sobre indígenas encerra obra sobre a História gaúcha
Lançado durante a Feira do Livro de Porto Alegre do ano passado, "Povos Indígenas" vem para fechar a coleção "História Geral do Rio Grande do Sul", coordenada por Nelson Boeira, da UERGS, e Tau Golin, da Universidade de Passo Fundo, e editada pela Editora Méritos, com o apoio do PPGH, da UERGS, do Banrisul e do Governo do Estado. O volume reúne alguns dos mais importantes e atuantes estudiosos da questão indígena gaúcha e supreende pela diversidade de assuntos abordados. De mais a mais, é importante ressaltar o valor da coleção não apenas para os acadêmicos e estudiosos do assunto, mas para interessados na história gaúcha de todos os segmentos.
A coleção se divide em cinco volumes (seis, na verdade, já que o volume três "República Velha - 1889 a 1930", foi dividido em dois tomos, dada a quantidade de material reunido), cada um deles abordando um diferente período da nossa história: "Colônia", "Império", "República Velha" e "República", contaram nossos entreveros, através de artigos de renomados estudiosos, esclarecendo e revelando facetas desconhecidas que podem fazer com que vejamos com olhos mais realistas os meandros desta terra que habitamos. A própria concepção da coleção permite que diferentes vertentes se apresentem, já que os autores dos artigos muitas vezes assumem diferentes pontos de vista, o que torna cada volume um complexo farol capaz de nos orientar em busca de nossa própria identidade.
Deixar os "Povos Indígenas" para o final foi uma estratégia, de acordo com os próprios organizadores. Era do interesse de todos que a coleção cativasse o maior número possível de leitores já no início, criando uma expectativa maior quanto ao volume seguinte, e por isso a questão das nações anteriores ao homem europeu ficou para fechar a coleção. Afinal, todo mundo quer saber de sua própria história primeiro...
Pois este volume, que trata inicialmente da pré-história gaúcha, que traz um artigo sobre petroglifos e sobre a estatuária guarani-missioneira, termina se revelando, talvez, o mais atual de todos. O volume aborda a questão indígena com coragem, sem medo de por o dedo na ferida do nosso preconceito, questionando a sociedade gaúcha sobre diversos atritos sócio-culturais para os quais preferimos fechar os olhos (vale lembrar que os quatro primeiros títulos da coleção foram extremamente bem recebidos pela imprensa local, mas o derradeiro parece um autêntico desconhecido, inclusive para alguns livreiros!). "Povos Indígenas" questiona, por exemplo, a situação dos Kaigangue do Morro do Osso em Porto Alegre, a situação das reservas indígenas, as escolas, os registros históricos de alguns dos nossos mais conhecidos e queridos governantes, a questão das hidroelétricas. Coloca a coisa toda de uma tal maneira, que o leitor talvez venha a se perguntar que diabo pensamos que é inclusão social e cultural, afinal de contas. Esta leitora convenceu-se, pelo menos, que trazer grupos indígenas para se apresentar em praça pública, e visitá-los na semana do índio é, como mínimo, uma piada de mau-gosto. A imensa maioria dos descendentes dos europeus, que gostam de pensar que estão no domínio da situação, não sabem quase nada sobre estas culturas, muito mais antigas e, francamente, muito mais sobreviventes do que a nossa própria. Afinal, os guarani e os kaigangues (para citar apenas as duas etnias mais conhecidas do estado) têm conseguido resistir à nossa dominação há mais de 250 anos, mesmo que tenham sido considerados, muitas vezes, primitivos demais para sobreviver sem a nossa "tutela". Que Deus me livre de semelhante tutela em minha vida!
Como leitora costumeira de material sobre as Missões, recomendo os artigos do volume sobre o assunto. É de igual importância a leitura do capítulo VIII, sobre os Charruas e Minuanos, e deveria de ser de leitura obrigatória para todo mundo o capítulo XIV, sobre as redes sociais dos Mbyá-Guarani - nem que seja só para que aprendamos a ter boas maneiras no dia em formos visitar uma aldeia mbyá. E é importante para todos os professores engajados no projeto educacional brasileiro, a leitura e discussão do capítulo VI, sobre a escola indígena.
O livro, é claro, tem alguns percalços. Apesar do esforço considerável para que os artigos não ficassem acadêmicos demais, em função do público heterogêno que é o alvo destes estudiosos, muitas vezes o discurso e a forma acadêmica se impõem. Outro detalhe que poderia ser corrigido em uma próxima edição é que em alguns artigos não consegui localizar as notas assinaladas com números no texto. E penso que palavras do mesmo idioma devem ser grafadas de igual maneira em todo o livro, como por exemplo a palavra teko'a, que se refere ao espaço da taba guarani e que aparece grafado de diferentes manerias em dois artigos diversos. São pequenos detalhes mas que poderiam ser observados para melhorar ainda mais este título tão importante sobre estas pessoas para quem muitas vezes nem sequer olhamos, mas com quem não apenas dividimos o espaço geográfico, como também a nossa História. Eles não são apenas uma parte de nosso Passado, são, principalmente, parte de nosso Presente. Somos todos viajantes do mesmo Tempo. Seria bom, útil e sábio se aprendessemos a compartilhar nossas visões de mundo.
Compartilhar, não impôr.
Janeiro 17, 2010
Cesse tudo o que a musa antiga canta...
Já dizia o bom do Camões, "cesse tudo o que a musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta". E não é que é assim? Depois de sermos invadidos por exércitos de orcos, ondas de migração élfica, anões saídos de tudo quanto é buraco no chão e outros tantos bichos mágicos, todos inspirados e muitos copiados das páginas de Tolkien, eis que aparece essa beleza chamada “O Nome do Vento”, de autoria de Patrick Rothfuss, e editado aqui no Brasil pela Sextante, com tradução de Vera Ribeiro. E não é a toa que o livro vem sendo saudado pela crítica dos países em que o foi editado e em seguida se posiciona nas listas dos mais vendidos. Vale destacar a capa da edição brasileira, que é a mesma da edição francesa da Bragelonne, está assinada pelo francês Marc Simonetti.
O livro conta a história de Kote, o dono da hospedaria Marco do Percurso. Maravilhosa história, diga-se de passagem: filho de uma troupe de teatro ambulante dizimada por um grupo de terríveis demônios chamado “O Chandriano”, o personagem passa de miserável à aluno da Universidade, uma importante escola de magia de seu mundo.
A essa altura da resenha, alguns leitores dirão ironicamente “acho que já li isso em algum lugar: órfão pobrezinho vai parar em uma escola de magia onde se destaca pela sua capacidade”. É, foi exatamente isso o que eu pensei: com tanta gente achando que Harry Potter é um plágio de “O Senhor dos Anéis”, ninguém ainda traçou sequer um paralelo entre “O Nome do Vento” e a série da Rowling.
Pois não traçaram porque apesar das semelhanças que se possa querer encontrar (e não é preciso procurar muito) elas são apenas isso: semelhanças. E se acabou. “O Nome do Vento” tem tantas qualidades que todas as semelhanças se perdem na brisa dos caminhos. Há estradas, como em “O Senhor dos Anéis” e demônios terríveis, ameaças e magia. Mas há muito mais. Há tudo o que não existe em “Harry Potter”: há música e uma história sólida, na qual se acredita, miséria que é miséria mesmo, esperança que é esperança mesmo, viagens que são viagens mesmo e inclusive um demônio maravilhoso, que dá vontade de convidar para tomar um vinho em algum lugar, só para privar de sua companhia. Não houve sequer uma página na qual eu não tenha acreditado ser possível – e esse é o grande lance do romance de Fantasia, a mágica sem a qual a magia não acontece: a crença na possibilidade da realidade daquele mundo, daquele sistema. Há também um personagem carismático e tridimensional que é mais do que um personagem, é mais do que um mágico, é mais do que um músico: é um ser humano. Um sujeito que erra e acerta, que mais erra do que acerta, que precisa de sorte, como todo mundo, que precisa abrir mão do que mais preza, do que mais ama, como muita gente, para chegar onde deseja. E toda essa maravilhosa impressão é porque o livro tem o que toda boa idéia mais necessita como suporte literário: um texto impecável, forte, surpreendente para uma história de fantasia – gênero tão habituado a textos comerciais, ou a épicos rebuscados – um estilo absolutamente intocável. Acima dos pergaminhos, dos incunáveis, dos livros e da virtualidade atual, o texto literário é o que determina a real continuidade de um livro através do tempo. E “O Nome do Vento” tem esse determinante.
Assim que, agora só nos resta esperar a continuação – porque, sim, infelizmente, trata-se de um nova série. Ou, neste caso, felizmente, porque nos proporcionará desfrutar mais tempo do texto de Rothfuss. Mas tudo sem pressa: “O Nome do Vento” levou sete anos para ser escrito. Sua continuação tem todo o direito de se demorar outros sete anos: basta que nos garanta um texto à altura.
Janeiro 09, 2010
Sabe Zeus!
Em sua célebre conferência “Sobre Histórias de Fadas”, em 1938, Tolkien, o conhecido autor de “O Senhor dos Anéis” expôs o que, na verdade, é a idea por trás de sua obra. A certa altura do discurso ele afirma: “A fantasia criativa, por estar principalmente tentando fazer outra coisa (fazer algo novo), pode abrir nosso tesouro e deixar voar como pássaros engaiolados todas as coisas trancadas. Todas as joias se transformam em flores ou chamas, e seremos alertados de que tudo o que tínhamos (ou conhecíamos) era perigoso e poderoso, não realmente acorrentado com eficácia, livre e selvagem, tão pouco nosso quanto éramos nós.” Ele disse “fantasia criativa”, ele disse “fazer algo novo”. Contudo, a imensa maioria dos autores de fantasia pós-tolkienianos que se dispõem a escrever textos originalmente destinados aos leitores pré-adolescentes e adolescentes, parece ter entendido apenas: “agora que eu fiz algo diferente, vocês podem me copiar”.
Tolkien arrancou a Fantasia do Conto de Fadas e dos mitos tradicionais e, como todo mundo que lê fantasia sabe, demonstrou que era não só possível como imensamente desejável escrever novas histórias com personagens tradicionais que andavam morrendo de tédio de tanto matar os mesmos dragões e salvar as mesmas donzelas. Na verdade, Tolkien apenas seguiu uma corrente muito antiga de criadores que transformavam histórias populares em canções de juglares. Ele tomou a tradição e a transformou em algo novo.
O problema é que esse tipo de coisa é trabalhoso. Requer conhecimento, tempo, paciência, estudo e pesquisa. E humildade também, porque o autor terá de se submeter às regras de alguns personagens – tabus que regem sua fábula. É assim que se chega à Fantasia moderna onde se pode ver dois caminhos bem distintos: os que se aproveitam do universo de Capa e Espada, resgatado pelo inglês, e se limitam à imitação, e os que criam mundos completamente distintos, desvinculados da tradição de qualquer espécie, como por exemplo Neil Gaiman em “Lugar Nenhum” ou mesmo “Stardust”. Mesmo o bruxo mais famoso da atual literatura mundial segue uma linha tão próxima à do “Senhor dos Anéis” que muitos fãs desta última obra acusam a autora de “Harry Potter” de plágio. Francamente, pura maldade.
Só que de vez em quando aparece um autor que parece ter ouvido as palavras do professor em 1938 e compreendido o que elas queriam dizer. É o caso de Rick Riordan e seu “O Ladrão de Raios”, editado pela Editora Intrinseca no final de 2008.
“O Ladrão de Raios” aborda o universo mítico grego. Não apenas os deuses, mas os heróis, os monstros, e de vez em quando expressões em latim e grego (ora vejam, não só de quenya são feitos os idiomas da Fantasia!). O livro conta a história de Percy Jackson, um garoto de doze anos dado a meter-se em encrencas muito, mas muito, perigosas. Disléxico, sofrendo de déficit de atenção, Percy vê-se envolto em uma aventura que, mais do que perigosa, lhe revelará a identidade do próprio pai – que ele desconhece – e lhe mostrará a verdadeira natureza de um heroi, mas um heroi moderno, capaz de avaliar psicologicamente o entorno que o cerca, que vive e enfrenta desafios muito cotidianos, além de monstros tão terríveis quanto uma harpia, sem, contudo, ter o mesmo charme assustador das criaturas míticas. Muito mais do que isso não se pode falar, sem correr o risco de levantar o véu da história.
Contudo há muito mais neste livro do que uma simples aventura.
O texto de “O Ladrão de Raios” é um sólido edifício levantado sobre um texto impecável, divertido e moderno. E levantado sobre raízes profundas e antigas, assentadas diretamente no solo dos mitos gregos – a geada não atinge mesmo, raízes profundas. Para quem curte histórias gregas, o texto oferece um jogo permanente, o jogo do “quem sou eu?”. É o que perguntam nas entrelinhas, os personagens e monstros durante o tempo todo e o tempo todo o leitor que com algum conhecimento das histórias tradicionais se divertirá em ver se acertou ou não a “leitura” das pistas oferecidas pelo autor. As referências são contundentes e constantes e tudo o que a gente tem a fazer é por a memória para funcionar. E o resultado é diversão garantida da primeira à última página do livro.
Rick Riordan tomou os mitos da ancestralidade do Ocidente e apropriou-se deles. Contou uma nova história com velhos deuses e criaturas que não estavam devidamente acorrentados ao nosso passado – porque jamais o estarão. Eles estão apenas ali, esperando uma oportunidade para voltarem e mostrar o caminho do heroi como o caminho do crescimento interior. E Riordan o fez tão honestamente que não hesita em apontar os EUA como a nova localização do Olimpo, como o coração da cultura ocidental neste momento. Afinal, divertindo-nos ou não com a sapatada do Bush, é preciso reconhecer que se algum lugar hoje em dia é o coração da cultura ocidental, este lugar é Nova Iorque. Além do mais, muito de acordo com os nossos dias, “O Ladrão de Raios” não deixa de se referir ao estado calamitoso da ecologia do planeta, embora não se perca em discursos didáticos ou coisa que o valha. Simplesmente mostra, diz e comenta o que nos cerca, e volta e meia fez comparações que nós precisamos ver feitas. Quem sabe as próximas gerações não nos salvam de nós mesmos?
Premiado à torto e à direito pela crítica norteamericana, e já pronto para chegar ao cinema, “O Ladrão de Raios” só sofre de um defeito que parece ser uma espécie de maldição sobre a literatura infantojuvenil da atualidade – é o início de um seriado literário onde cada volume corresponde à um ano da vida do personagem, iniciando com a idade de 12 anos e evoluindo daí em diante. Afinal, com 12 anos, tudo ainda é possível, embora tudo já seja questionável. Isso sem contar que um volume tão bom dá um certo medo sobre o que se lerá no segundo (o autor conseguirá apresentar a mesma qualidade e o mesmo nível de divertimento e inteligência?). E, o temor maior, será que a editora brasileira levará a edição da série até o fim? Afinal “As Crônicas das Trevas Antigas”, a excelente série editada pela Rocco, parece ter nos deixado no quarto volume... Por coincidência, outra série, nos mesmos moldes etários, também de ótimo texto, baseada em profundas referências da história da Era Glacial, pesquisadas pela autora. Ou será que coincidências não existem?
Sabe lá Deus... Ou melhor:
Sabe lá Zeus...
Sábado, Janeiro 02, 2010
Audaciosamente indo onde nenhum homem branco jamais esteve
O mito de P.H. Fawcett continua vivo e dando pano para manga. Das expedições para a lenda, da lenda para o cinema, do cinema de volta para a realidade, desde o seu sumiço nas mata embrenhadas do Xingu em 1924, o tenente-coronel inglês Percy Fawcett continua sendo a mesma figura carismática que reviveu o mito do Eldorado e acendeu na alma do milhares de homens contemporâneos do carro à gasolina a paixão pela exploração, pelo limite e pelo desconhecido. E como todo o símbolo, sua figura mostrou-se suficientemente forte para continuar causando o mesmo efeito no homem do início do século XXI, do contemporâneo do computador portátil, do telefone celular e do GPS. Agora chegou a vez de David Grann se render ao fascínio desta figura real que se diluiu em lenda à sombra da floresta mais incrível – e sinistra – do mundo: a Amazônia.
O que mais me chamou a atenção em “Z – a cidade perdida” (Companhia das Letras, 2009, tradução de Cláudio Carina), foi o discurso e a construção do livro que nada mais é do que uma nova biografia do incrível explorador do início do século XX que inspirou o impagável Indiana Jones. Com um texto muito bem humorado e fragmentado, David Grann, jornalista que escreve para periódicos do nível da New Yorker e do Washington Post, recria a trajetória do inglês que foi um dos últimos representantes da exploração romântica, onde homens munidos com pouco mais do que de uma bússola, uma faca e muita coragem, percorriam o interior dos sertões, as vastidões geladas dos pólos ou os picos das montanhas, para mapear, descrever e conhecer o planeta Terra. É claro que a Amazônia não poderia ficar de fora.
De fato, ao ler sobre as missões de Fawcett, fica-se com a impressão de que o Brasil tem lá sua cota de dívida com sujeitos como ele que ajudaram a mapear e demarcar as fronteiras do interior, sobretudo as que dividem a Amazônia. Chama a atenção as atitudes de Fawcett para com os índios, sua capacidade de observação e a opção por aprender com os homens que viviam na floresta, encontrando, assim, soluções para resolver alguns dos problemas terríveis que se abatiam sobre as expedições do início do século XX, levando as equipes à paroxismos de loucura e morte. E, sem dúvida alguma, destaca-se ao longo do texto sua determinação, coragem e fortaleza física, e sua inabalável crença de que a floresta tropical era capaz de abrigar uma civilização avançada – crença que se transformou em obsessão, mas que hoje pode ser entendida de outra forma. Na verdade, muito nos revelaria a Arqueologia, se houvessem mais projetos na área sendo desenvolvidos com o aval de autoridades e universidades brasileiras.
Ao longo da leitura do livro, a própria floresta se ergue como uma personagem viva e única: tão terrível quanto fascinante, capaz de encantar um homem, atraí-lo para o seu seio quase alienígena e devolvê-lo para a civilização infectado com o seu encanto irresistível – só para voltar a chamá-lo vezes sem conta. A Amazônia é uma feiticeira. Em muitos documentos citados no livro, é chamada de “falso Paraíso”, porque as condições de sobrevivência de seu interior são tão duras que o Paraíso visto de fora se transforma em um inferno verde, quando visto desde dentro. Mas está certo: o homem branco, civilizado, cristão, imbuído de certezas e empáfias baseadas em conclusões nem sempre tiradas da realidade, é, de fato, persona non grata naquele que parece ser o Paraíso para quem sabe nele viver: enquanto as expedições sofriam de períodos terríveis de privações e falta de comida, enfrentando doenças e bichos que parecem saídos de um filme de terror classe B, os índios, perfeitamente integrados, sabem conseguir comida, água e medicamentos com, praticamente, estender a mão na direção do arbusto certo. Se no portão do Éden ficou de guarda um anjo com uma espada flamejante, na Amazônia os guardiões são menores: o tormento e a fúria da floresta não se revelam na forma de onças famintas, jacarés imensos ou cobras do tamanho de um bote – embora estas últimas sejam citadas. Na Amazônia, o que primeiro há que se temer são os mosquitos, as moscas e as formigas. Todo bicho que for maior do que isso, nos dizem as entrelinhas, não é apenas mais visível, como bem menos mortal. O livro contribui para focalizar melhor um lugar maravilhoso que, no entanto, precisa bem mais do que preparo para ser explorado: precisa ser compreendido. E preservado, também, porque como bom americano contemporâneo ao efeito estufa, David Grann aproveita para traçar alguns paralelos entre os limites da mata que Fawcett encontrou e os que se desenham hoje. Ponto a menos para nós, tupiniquins.
Contudo, é justamente aí que um brasileiro pode encontrar boas razões para criticar o livro. Os personagens citados como mártires do embate entre os povos da floresta e da própria floresta e os que desejam simplesmente enriquecer à custa de trabalho escravo e da destruição do meio-ambiente, são apenas os americanos que morreram assassinados nos últimos anos. Por exemplo, é uma pena que um livro que parece tão bem documentado, não cite Chico Mendes como uma vítima deste medonho cabo de guerra. E que um americano chame uma sucuri de jibóia, por desconhecer a diferença, é até passável, mas que isso tenha sido mantido na tradução, não dá para engolir – mais uma vez, já que há tantas notas do autor, a Cia. das Letras, que sempre é tão cuidadosa em suas edições, poderia ter se dado ao luxo de incluir notas explicativas quanto ao assunto.
Mas, enfim, é sempre bom saber como um americano vê nossa maior riqueza, e estar de olho no discurso das entrelinhas. Até porque, já se sabe, o futuro do planeta está naquelas copas verdes, naquele chão enlameado, naquela criatura que devora e provê, assustadora, fantástica e inebriante, o maior enigma em terra firme: a Amazônia. A verdadeira obsessão de Fawcett não era a cidade que ele sonhou e que a floresta de fato consumiu, mas a própria floresta que se encarregou de transformá-lo de homem em lenda, dando-lhe, por caminhos tortuosos e terríveis, a fama e a imortalidade com que sempre sonhou. Deuses retorcidos os que escrevem o destino dos homens, retorcidos, sim, mas nunca traiçoeiros.
Dezembro 26, 2009
No coração das histórias
É muito interessante ver como ultimamente a estante de livros infanto-juvenis vem rompendo com os dogmas que até agora geriram a edição para jovens leitores brasileiros, apresentando livros de fantasia para um público que, diziam, não gosta de fantasia, e de bom tamanho para um público que, diziam, não gosta de ler. E mais interessante ainda é observar como na esteira dos livros têm vindo as versões cinematográficas, sem esperar o período de consagração, como foi com “O Senhor dos Anéis”, citação clássica, neste caso. Apesar das dificuldades que a obra de Tolkien oferece aos roteiristas, é inegável que esse marco da fantasia moderna levou meio século para ter uma versão completa à luz dos refletores, enquanto outras obras são quase que imediatamente levadas às telas. Casos à parte, estamos falando de “Coração de Tinta”.
Escrito por Cornélia Funke e editado no Brasil pela Cia. das Letras, com tradução de Sonali Bertuol, “Coração de Tinta” é uma história para amantes de histórias. O livro não é pequeno. Tem 455 páginas de uma leitura densa, de um texto caprichado que não teme nem o parágrafo rebuscado, nem o vocabulário menos facilitado, mas que não é, necessariamente, difícil de ler. As ilustrações são da própria autora, e são mais como uma lembrança de viagem à bico de pena, do que imagens que congelam um momento da narrativa em um trecho mais emocionante. Como curiosidade, ainda se destaca a citação que a autora faz à cada início de capítulo, recordando alguma passagem significativa de algum livro infantil ou infanto-juvenil, que tenha alguma ligação com o momento da aventura narrada. O interessante é que a ligação do trecho citado com o conteúdo do capítulo faz emergir das entrelinhas muitas vezes doces e poéticas, uma outra música, muito mais misteriosa e às vezes tenebrosa. Uma homenagem e tanto aos autores de livros infantis e juvenis, e ao mistério que é o significado do texto para cada leitor. Junto a isso, Cornélia faz uma leitura sobre a infância sem irmãos e sobre pessoas que amam coisas em detrimento de pessoas.
Ignorando o fato de não ser parte de uma série e longe das possíveis leituras psicológicas e psicoanalíticas que o livro propõe – como toda obra de arte – “Coração de Tinta” resgata a arte de ler em voz alta, como uma parte da magia que é a Literatura. Qualquer leitor mais apaixonado, qualquer colecionador, que seja de histórias em quadrinhos, qualquer escritor mesmo que de mesa de bar, sentirá na pele o arrepio de pavor e maravilha diante do mistério que é a leitura e do poder que o texto escrito adquire quando lido para uma platéia, proposto pela autora. Na história, o encadernador Mo e sua filha Meggie se vêem envolvidos com os personagens de um estranho livro chamado “Coração de Tinta” e isso é tudo o que se pode contar, sem romper o acordo tácito entre quem escreve a resenha e o escritor, que é não revelar a chave da narrativa. Mas se pode dizer sem medo de estragar a magia, que o livro é um flerte com a noção de “quais livros você levaria consigo para uma ilha deserta” e “quais personagens você gostaria de conhecer pessoalmente”.
O livro nos faz pensar sobre o quanto a Literatura perdeu ao ser transformada em uma experiência silenciosa e pessoal. Já não temos a figura do leitor que animava as noites familiares, figura obviamente substituída primeiro pelo rádio e depois pela TV e agora até mesmo as noites familiares se transformaram em experiências raras. O que é uma pena, pois é justamente a leitura em voz alta que permite que a Literatura seja uma experiência grupal. Mais do que qualquer coisa, “Coração de Tinta” resgata em suas páginas a arte de ler para os outros e a delícia de ouvir um bom leitor, aninhado em um abraço, ou apertando joelhos sob o queixo “naquela parte” que mete tanto medo, seja ela qual for.
Dezembro 15, 2009










































1 comentários:
Ah, eu ia esquecendo, estou lendo Coração de Tinta. É de apaixonar.
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