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Fugaz 

Delicadamente, o chão se cobre de amarelo. Entre os arbustos baixos, no sopé do tronco escuro, como se o sol viesse pousar ali para sempre, as pequenas pétalas flutuam tangidas pelo vento, até repousar sobre a terra. Ao lado, o asfalto, quente, gris, estrada lisa para carros apressados, motores rugindo, o escapamento mal cheiroso. Quando o sol o ilumina, ilumina manchas mais claras, mas não mais coloridas.

Muita gente que passa, só se dá conta da cor quando se deparam com a fotógrafa amadora, celular em punho. Seus olhos deslizam sobre o recorte do canteiro que se destaca, esse mesmo ao lado do qual passam todos os dias, e talvez elas pensem que não o tinham visto ainda. Porque o fundamental é olhar. Quem não olha, não vê, coisa boba de dizer, de tão óbvia. E de tão óbvia e não dita, passa batida. E não se olha. E não se vê. Passa-se a vista sobre as coisas, como um pano que tira o pó apressado, o passo cadenciado, a mão sobre a bolsa, o sapato aperta, a conta para pagar, o celular toca. A vida, enfim, ardente fogueira que alimentamos com a mão humana do querer.

Quando vejo esses jardins derretidos nas calçadas, penso na fugacidade das coisas belas. As coisas realmente belas são fugazes. Elas nos ensinam a tragédia diária da perda e a promessa eterna do que virá. Porque depois, quando chover, as delicadas petalinhas serão levadas para o asfalto e o bueiro no fim da quadra, e perecerão de uma morte vil, que não merecem. Mas o consolo está no próximo verão, quando os jardins suspensos das árvores voltarem a roubar beijos do sol para se colorir impudicamente contra o céu azul.

E quem não viu, terá a oportunidade de ver – se olhar como se o fugaz fosse simplesmente eterno.
(20/01/2012)


Recorte

Dentro da nave cor de sangue, a sombra é fresca e agradável. Tudo é silêncio. Fora, o sábado é de sol e de um céu tão azul que parece ter sido pintado. A cidade pequena, de interior, é uma linha interrompida aqui e ali por rótulas e trevos. Vida pura.


O corpo da velha igreja, recuada da rua principal, é uma sombra sanguinolenta. Digna, segue com a mesma silhueta de linhas retas, alta torre, esbelta, erguendo-se à frente do salão único. Paredes com escariola pintada e duas colunas que sobreviveram ao incêndio que a acometeu há anos. O mezanino do coro e o telhado não tiveram a mesma sorte. Mas o mesmo fogo que ameaçou a construção, que devorou os caibros também, transformou o interior da torre num funil de cores e uma igreja velha, de janelas à muito comprometidas por arremedos de modernidade, em patrimônio histórico incontestável.

Alheia a tudo isso a tarde se derrama, luz e cor do lado de fora da igreja cor de sangue, as janelas recortando a cidade, os horizontes. Cenário sombrio e galeria viva.

No chão, o sol desenha um recorte de calor dourado. Em uma janela reduzida a um buraco na parede, um resquício de vitral contrasta uma gota de verde e uma gota de vermelho, o céu, e o sábado e o tempo que teima em passar.

No interior da igreja, abrigada à sombra, a Eternidade cochila. Todos os sonhos – as bodas, os batizados – e todas as dores – as missas de corpo presente, de recordação. Os sons ainda reverberam no tempo: suspiros, soluços, sussurros.

Lá fora, nas ameias, a vida sentou raízes, desenhando curvas verde esmeralda nas paredes sanguinolentas. O som reverbera, o calor se anuncia, o tempo flui. E a tarde, azul, ensolarada, desenha os mesmos horizontes de séculos.
(10/08/2011)



Nada mais

Em São Paulo, o sujeito subiu em uma torre de eletricidade e sentou-se lá. Assim de simples. Claro que os vizinhos chamaram os bombeiros. Claro que os bombeiros pediram à Eletropaulo desligar a energia e é claro que há milhares de pessoas sem luz. E, é claro, houve um engarrafamento, porque em São Paulo qualquer coisa é razão para um engarrafamento.


O que não está claro é porque o homem subiu na torre. Não se sabe se ele queria morrer eletrocutado numa espécie de apoteose ou se ele quer se jogar lá de cima. Não se sabe se ele tem uma razão para isso, se é que razão para isso há. Não se sabe nada, a não ser que em um belo dia de julho, o homem resolveu subir em uma torre de alta tensão e sentar-se lá.

Não se sabe por que, mas vou dizer o que parece.

Parece que lá em cima há paz. Não há ninguém atazanando e então é quando a gente pode sentar e pensar. Pensar no que se é e o que não se foi. No que talvez um dia será. Pensar no céu meio azul e meio cinza, no recorte da cidade azulada, um quebra-cabeça de perspectivas retilíneas e denteadas. Ouve-se o trânsito como um rugido distante, uma respiração, a respiração da cidade. Talvez ele apenas esteja contemplando a cidade, só isso, imerso em contemplação.

Porque às vezes é só isso que a gente precisa: parar e contemplar. Sentar sozinho, sentindo o vento nos cabelos, e o sol, e a Terra girar. Às vezes, tudo o que se precisa é respirar um pouco, respirar fundo.

Depois se desce de volta ao caos nosso de cada dia. O caos sem sentido que a gente chama de “vida”, quando se sabe muito bem que “vida” é aquele minuto em que se parou tudo para olhar o mundo sem pensar que ele é nosso, mas que ele é e nada mais.

Nada mais.

(29/07/2011)


Branca de Neve no shopping

Sento para tomar um café no shopping e quase ao mesmo tempo vejo passar uma menina vestida de Branca de Neve. É pequenina, redonducha e vai de mãos dadas com o pai e com a mãe. Sapatinho preto, meias brancas, saia amarela, blusa de corpo azul, tiara preta no cabelo, que não é tão negro quanto o desenho animado, mas quem liga para isso? Tampouco ela é tão branca quanto a neve e seu sorriso me diz que ela nada sabe sobre a tragédia da herdeira órfã, ameaçada de morte pela madrasta. A Madrasta sempre me pareceu fútil, embora poderosa. Vê lá se ser menos bonita – ainda mais alguém com as sobrancelhas daquela mulher – seria motivo para matar alguém? A Madrasta sempre me pareceu muito mais bonita do que a Branca de Neve. O espelho mágico era mesmo um traidor. Ou, talvez, fosse apenas míope.  


A pequena Branca de Neve do shopping nada sabe sobre isso. Para alguém do seu tamanho, todo espelho é mágico e o mundo um lugar fascinante onde algumas escadas andam por si mesmas e as pessoas falam umas com as outras em pedaços de plástico. Ela segura com confiança as mãos que a guardam, os olhos passeando pelas vitrines iluminadas de tentações e o mundo parece contido dentro das paredes, como se fosse uma invenção humana.


Acima de nós, na claraboia suja da praça central do shopping, o sol brinca de esconder com as nuvens. Eu bebo meu café, pensando nas Brancas de Neve inocentes e confiantes que transitam ao meu redor, que olham ao redor como se o mundo fosse apenas isso.


A escada rolante leva a princesinha embora e eu volto para minha xícara, feliz de estar na realidade e não na ficção: em que mundo de fadas alguém se delicia com algo negro e amargo, fora as bruxas e os vilões?
 
(17/07/2011) 


A bicicleta

Outro dia pensei em comprar uma bicicleta. Sabe como é: a liberdade sem imposto, sem combustível, e no mundo que gira debaixo da roda dianteira, o horizonte é logo ali.


Aí comecei a lembrar dos tempos em que tive uma bicicleta. Porque eu tive uma! Bem me lembro: duas rodas e um selim que depois de andar um tanto começava a incomodar, duro e gelado – isso quando não assava as virilhas. Era dourada, com um cesto preto (na verdade o que eu gostava mesmo era do cesto). A bici tinha marchas, mas eu nunca usava, porque ao mexer na alavanca fazia alguma coisa que ocasionava o desengate da corrente de tração, o que me levava a parar, tentar engatar a corrente, me sujar de graxa e, como nunca fui muito jeitosa com essas coisas, voltar para casa empurrando a magrela. Ralava o tornozelo nos pedais por mais meias que usasse, e no dia seguinte as coxas doíam como se tivesse lutado com a bicicleta e não tentado andar nela. Não, a liberdade não era simples, e o horizonte era um bocado longe.

A bici terminou escorada em uma parede, sustentando roupas por passar. Vendemos a dita cuja quando nos mudamos para o apartamento.

A liberdade é uma coisa linda. Mas se a gente não der duro por ela, não ralar o tornozelo, ou cansar as pernas, ela fica escorada contra a parede, juntando pó, até que um dia não está mais lá. Mas, lógico, se a gente desejar a liberdade apenas pelo enfeite – como o cestinho da bicicleta – é exatamente isso que acontece.

Um dia desses vou comprar uma bicicleta e pedalar até o horizonte, custe o que custar – tornozelos ralados, pernas doloridas, traseiro assado. Não importa. É a preguiça o que nos faz deixar a bicicleta da nossa vida pegando pó contra uma parede. Com o tempo, os ralados se curam, o corpo se fortalece. E descobrir o que tem do outro lado do horizonte bem vale o esforço.

Cada horizonte é único, mesmo que a gente já tenha ido até lá um milhão de vezes.

E cada pedalada que se dá para chegar lá, também.
(1º/07/2011)
 

Meu pai

Meu pai morreu.

Da noite para o dia, este homem que trabalhou a vida inteira com papéis de banco, tornou-se papéis. Sua casa, seus telefonemas, os programas que assistia na TV, tudo virou faturas e cartas. Seus sonhos, guardados dentro de uma agenda, são, agora, só panfletos de viagens que ficaram para outra vida. Suas esperanças, seus temores, tudo agora são exames, receitas, bulas. Nossas brigas, nossos acertos, nossas diferenças e semelhanças, a coisas em que acreditávamos, aquelas em que nunca concordaríamos, tudo virou papel: notícias de jornal, releases de lançamentos de livros, crônicas editadas em algum jornal, cartas que trocamos enquanto estivemos longe um do outro.

Meu pai morreu.

Seu sorriso ainda brilha nas fotos que tirou – fotos em papel. Aquele peixe que pescou – e que comemos em um delicioso jantar! – está em suas mãos de papel, da foto emoldurada. Sua risada está presente mas muda nas fotos dos velhos jantares, imagens de um tempo em que eu era menina. As multas que ele pagou (difícil se manter nos limites de velocidade, às vezes), as viagens que fizemos, os jantares e almoços, todas as ocasiões são agora notas de hotel, papéis com número de série e assinatura.

As pessoas morrem e a vida transforma-se em papel: fotos, burocracia, palavras escritas. O papel é material. A burocracia é tangível. Sobreviverá a nós, às nossas lembranças, ao que somos, dissemos, fizemos.

Meu pai morreu. Transformou-se em papel.

Dentro de mim vivem as lembranças dele: intransferíveis. Intocáveis.

A vida é virtual, fugaz como um sopro.

Troco os papéis inertes e cansados pelo sopro fugaz e vivo do sorriso. Nem que seja para discutir a cor do sofá um pouco depois.
(02/06/2011)
 
 
Telhados

Do alto da minha janela – nem tão alta assim – vejo telhados. Casas, sim, prédios, muitas janelas mas, fundamentalmente, telhados. De amianto, telhas de barro, zinco enferrujado, ângulos de 45º, como me ensinaram no curso de auxiliar de desenhista de arquitetura que frequentei no segundo grau, com calha, com recortes, simples meia-água com chaminé para a churrasqueira, quase sempre apagada.



E sem querer, os telhados que protegem e resguardam, contam histórias. Aquele que está mais limpo, porque os moradores o mandaram limpar com lava-jato, o da chaminé que não fumega, me conta de gente que gosta de limpeza, mas não parece achar o churrasco do fim de semana indispensável. O telhado do outro lado, limpo e novo, conta de uma casa que ficou pronta à recém, que começou a ser habitada agora, janelas que só aprenderam a abrir-se para o sol nos últimos tempos. Serão felizes? Trabalharão muito?


Debaixo do telhado de zinco enferrujado, proteção de um galpão que é uma empresa, mas não sei de quê, já dá para suportar a chuva, quando cai pesada – folhas de zinco enferrujadas não soam como as novas, mas cheiram à ferrugem o tempo todo, quanto mais em dias úmidos como os de hoje. Mas não fazem mal como, dizem, fazem as de amianto, leves, cinzentas, silenciosas.


Ah, e existe uma pequena cobertura de telhas de plástico, brancas e brilhantes, que ofuscam como se estalassem ao sol; como se gargalhassem luz.


Debaixo dos telhados, mil risadas, mil lágrimas, todas as histórias do mundo guardadas como se fosse possível esconder a vida. Como se fossem livros fechados a espera de um leitor capaz de espiar suas páginas.
(17/04/2011)
 
 

Contradição, todos nós


O contraste é nossa vida!

Dia 11 de março de 2011, a catástrofe se abate sobre o Japão evocando todos os filmes de fim de mundo que já vimos e outros que ainda vamos produzir. Choque. Medo. Tudo por culpa da onda, do tsunami devastador. Teríamos nos assustado com o terremoto em si mesmo, mas foi o mar quem colocou de joelhos a nação do Sol Nascente.

O tremor atingiu o coração. Todos rezamos pelas almas dos que se foram. Pelas vidas do que ficaram. Pela nossa vida.

Boquiabertos, acompanhamos imagens saídas de um pesadelo. O pesadelo do mar enfurecido, uma fúria fria e metódica que não combina bem com a sua costumeira amplitude de sentimentos.

O alerta se dispara. Todos à terra, gritam. Todos à terra!

À beira do mar da Califórnia, manhã cedinho, um homem segura uma prancha de surf e fita o mar. As ondas.

E ao vê-lo, sabemos o que vai fazer.

Não importa o tamanho da onda. Não importa o terror que nos inspire: nós amamos o mar.

Berço, embalo, abraço, brincadeira, romance. Sal de lágrimas, espuma de sonho, cor de esperança. Abraço que não se entrega, jogo de recomeça, como pode ser que em um momento se levante muralha e morte irônica e impiedosa?

E ainda assim, amamos o mar. Que o maltratamos, que o exploramos, que o destratamos, é verdade. Não há punição na Natureza, mas se houvesse, seria merecida, reconhecemos todos. Mas, ainda assim, amamos o mar. O devoramos, o singramos, o tememos.

11 de março, 2011, mesmo com o alerta de tsunami no Pacífico, Larry Young, roupa de neopreno, surfa em São Francisco. Olhando para ele, a gente sabe: lágrimas, medo ou desrespeito, tudo isso pouco importa. Amamos o mar.

Contradição é o nosso nome. Desafiar, o nosso destino.
(12/03/2011)
 
 
O Preço

Puseram preço à Terra. Finalmente, descobriram quanto ela vale!

5 quatrilhões de dólares.

5.000.000.000.000.000,00 – acho que é isso. Uma parte da fortuna do Tio Patinhas. Muito dinheiro – realmente! – mas, enfim, agora sabemos quanto ela custa.

Agora sabemos quanto custam os mares e seus os peixes. Os corais, as ilhas dos mares do sul, os pores do sol e a luz da Lua cheia. Agora sabemos quanto custam as ondas que banham as nossas crianças e os gigantes de água onde os surfistas deslizam. Sabemos quanto custam os castelos de areia e o Everest, 8.848 metros de rocha e gelo, e os ventos que sopram por lá, o ofego dos deuses.

 
Sabemos, agora, quanto custa o Ganges, o rio que é a cabeleira de um deus e as savanas africanas com seus leões, rinocerontes e elefantes. Sabemos quanto custam as neves do Kilimanjaro, enquanto existirem, o Fujiwama e o estreito do Bósforo, que na minha meninice chamava de "fósforo", lógico. Agora temos o preço da Antártica, sabemos quanto custam os Andes e a cadeia das Rochosas, o Pampa, os vulcões da Islândia, os rios da Europa, o Mediterrâneo e suas civilizações, e os ursos polares – não é genial saber quanto custam os ursos polares, agora que estão se extinguindo?

 
E sabemos o quanto custa a Amazônia, o Amazonas e a pororoca! Sabemos quanto custa a Terra e, portanto, entre outras coisas, quanto custamos nós mesmos. Quanto custa a Vida.

 
A nossa vida.

 
Será que agora que quantificamos a existência, a beleza, a alegria, teremos uma noção do que estamos perdendo cada vez que uma espécie desaparece, que um vazamento de petróleo dizima uma região?

 
Se tivermos 5 quatrilhões de dólares, poderemos comprar a nossa vida, quando ela se acabar?
(28.02.2011)


Despedida

Não sei se é o passar da vida, mas eu lembro de um tempo em que a chegada do trem teria me deixado muito mais animada. Eu lembro de dias em que a possibilidade de desfrutar da modernidade de um trem elétrico seria como a chegada do Futuro. Valeria qualquer preço.

Mas hoje, quando penso que a chegada do trem equivale ao desaparecimento das árvores que margeiam o Valão, meu coração bate no ritmo da despedida.

Não sou fã do Luiz Rau e acho sua existência uma afronta, a prova real da nossa incapacidade de conviver com a Natureza de modo digno. A água que corre por ele não é água, é um caldo malcheiroso, cuja cor varia conforme nosso humor, do negro ao pardo, às vezes passando pelo colorido, numa orgia de produtos químicos, falta de pudor e competência. Que infeliz certeza essa nossa de que água usada não precisa de tratamento antes de ir para o esgoto!

As árvores contudo, não se importam. Raízes poderosas, mergulham o solo contaminado e transformam nossa incompetência em sombra. Em flores. Em beleza e gentileza. Verdade que se infiltram nas tubulações, que levantam o calçamento e quebram o asfalto. Afinal, criaturas capazes de transformar a mixórdia química do Luiz Rau em folhas e delicados estames coloridos é capaz de muito mais!

Quisera me conformar: o progresso é impossível de ser detido, é filho do tempo. O trem virá e eu serei sua freguesa constante.

Mas cada vez que eu passar por cima do arroio morto e mumificado em cimento, lembrarei: aqui havia flores e sombra farta onde o vento vinha suspirar. Elas continuarão a florescer na minha lembrança.

Pelo menos até a memória se esvair nas águas do tempo, destino nosso de um dia.
(25.02.2011)


Manhã

Domingo.

O horário de verão terminou, há uma hora a mais para dormir, dizem. Para mim, tudo é cedo demais. Me acostumo rápido com o horário de verão, me acostumo a tudo, menos a despertar e ainda ser madrugada. Mas depois o corpo segue no mesmo tranco, como um trem ranzinza num trilho velho e, escuro ainda, os olhos se entreabrem para o dia que nem é dia, é só promessa de manhã.

Raiado o sol, o dia parece coberto por um véu leitoso. O céu azul, de tanta luz parece branco. Nuvens dispersas. O horizonte amaciado pela distância e pela parca, ralíssima, névoa. A cruz do Santuário abre seus braços para a cidade – Nossa Senhora, rogai por nós. Ali perto mataram uma mulher. Uma, que eu saiba. Ao lado Santuário, mas um pouco atrás dele, vejo agora, há outro cruzeiro. O mundo parece suave, talvez ainda não tenha despertado.

Na solidão da manhã domingueira, um alarme toca às vezes. Dois apitos, nada. Um apito, nada. Silêncio. Outro apito. Solitário e sem resposta. Ninguém vai ver o que houve. Todo mundo dorme – temos uma hora a mais para isso, ainda que os olhos se entreabram para a manhã. Um bebê chora. De vez em quando um cachorro late. O outro cochila no meio da rua. Às vezes ele olha para o asfalto atentamente, move a pata de um lado para o outro, como se quisesse segurar algo. Uma formiga? O tempo? O silêncio? Um raio de sol que tenha conseguido roubar o dourado ao alvorecer e se espreguice, magro, pelo caminho? Pode ser, porque agora as árvores alongam suas sombras e o tempo escorre bem de-va-gar.

Como se tivesse uma hora a mais para esticar a manhã de luz branca, silêncio pontuado de alarmes preguiçosos e o cochilar tranquilo do vira-latas da rua.
(22.02.2011)


A Cristaleira

Quando eu era pequena, havia em nossa casa uma cristaleira que contrapunha dois espelhos internos. Um dia ao fechar a porta do móvel, onde um dos espelhos estava preso, percebi que algo mágico acontecia no fundo dele, onde estava o outro espelho, quando um refletia o outro.


Era preciso descobrir aquele mundo novo e múltiplo, por isso meti a cabeça lá dentro deixando só uma fresta pela que cabia meu pescoço e minha mão e assim me via refletida até que a imagem, cada vez menor, desaparecia numa curva. Só sabia que ela continuava lá quando abanava e as incontáveis cópias de mim mesma acenavam também, presas aos meus dedos por liames invisíveis. O Infinito cabia dentro de uma cristaleira. Era um mistério. Quantas vezes espiei pelo lado de fora da porta para ver se os mundos refletidos não se multiplicavam numa corrente de imagens que ganhava a sala onde estávamos? E quantas vezes cogitei me meter ali dentro para ver o que acontecia quando os dois espelhos finalmente se defrontavam por completo? O que salvou a cristaleira, e provavelmente a mim também, foi o fato de eu me dar conta que ao fechar a porta, a escuridão me impediria de ver alguma coisa. Foi uma sorte nunca ter pensado em pegar a lanterna!

O Infinito morava na escuridão da cristaleira. Eu sabia disso. Sua superfície era lisa e sua dimensão intocável. Hoje, quando olho para a noite límpida, lembro naquela vertigem que me encantava e na tristeza de já ser grande demais para entrar e fechar a porta espelhada. Crescer era conquistar algumas coisas e perder outras.

Talvez o que acontecia na cristaleira fosse só Física. “Reflexo”, como dizia a Vó.

Mas suspeito, até hoje, que talvez fosse mágica.
(20/02/2011)

 
 
No elevador


Quando a senhora entrou no elevador, ele já estava sendo pilotado por um pai e sua filha.

“Meu cachorro chegou”, ela segredou estendendo o “o” de “chegou”, cúmplice, à nova passageira que sorriu de volta.

“É mesmo? E como é o nome dele?” indagou a mulher, curiosa. “Menino”, respondeu a pequena com uma lógica irrefutável. Afinal, ambos eram crianças, ela e ele, e se ela era uma pequena mulher, o recém-chegado era um pequeno cachorro. Um menino.

Aí o elevador parou e a porta se abriu e todo mundo desceu.

Ficaram no ar todas as dúvidas: se o cachorro é grande ou pequeno, se é feroz e latidor ou um amigo de todas a gentes. Ficou-se sem saber sua cor, o comprimento de seu pelo, o tamanho das orelhas, a textura de suas patas. Não se soube do seu rabo, se era peludo, alegre, embandeirado, pequeno ou daquele tipo de rabo espetado e duro, que faz ruído quando bate nos móveis e dói quando bate na canela das pessoas. Não se sabe se Menino tem a voz rouca ou aguda, embora eu imagine que, por ser criança, tenha os dentinhos afiados e branquinhos, enfileirados em torno de uma língua rosada e cheia de beijos caninos para distribuir. Não sei se tem olhos grandes ou não, mas imagino que deva ter uma mirada alegre e ansiosa por dizer à sua nova amiga que chegou porque seu coração pediu e nada no mundo vai deixá-lo tão feliz quanto a companhia dela. É por isso que as pessoas que amam cães os amam, pela sua franqueza e a incapacidade de esconder esse sentimento que sempre é maior do que eles.

Abriu-se, pois, a porta do elevador, todos desceram e ficamos sem saber tudo isso sobre Menino. Ficou apenas a adivinhação.

As viagens de elevador são sempre curtas demais, até mesmo para uma crônica.
(15.02.2011)



Trilha urbana

Nas ruas pelas que passo, o passado aflora junto aos meus pés.

Rompendo o cimento entre as pedras, florindo alegremente junto ao bueiro, enchendo os meios-fios de tufos esverdeados e macios, os dias em que esta era uma terra de vastos potreiros e colinas de solo avermelhado, os dias que fizeram do ontem, hoje, emergem com força revitalizada. Há calçadas que exibem autênticas cercas, quase da minha altura – o que tampouco é um privilégio botânico. Escapam apenas as ruas do centro mesmo, aquele em que as lojas ensurdecem o cliente que passa desavisado com um som alto demais até mesmo para o comércio.

E nem mesmo nesta região escapam todas.

Aqui e ali, a capoeira viceja, o inço, às vezes discretamente. Às vezes. Timidez é palavra que não conhecem. Ervas daninhas, mais fortes do que o asfalto, do que o movimento constante de carros e sapatos, do que os arranha-céus e as pedras, elas crescem desabridamente. Já não se anda em calçadas, desbrava-se trilhas. Aqui e acolá, nos terrenos desocupados, elas se enchem de cachos delicados que pendem bucólicos ao sabor da garoa e do orvalho. Quem sabe se não derrubarão muros, engolirão estacionamentos desertos e devorarão jardins por alugar, deglutindo o que somos para nos devolver o que éramos antes de querer ser cidade?

Amanhã, talvez, despertarei para um amanhecer onde os sinos das igrejas vencerão as campinas passadas recém emersas das calçadas descuidadas e sujas. E serão melhor as campinas pretéritas, do que a cidade do presente, mal cuidada e agreste, lixo urbano e capoeira mesclados numa triste equação, filha do descaso cidadão e público.

Pior do que viver nos ermos, é viver numa cidade cujo coração é deserto de cidade.
(12.02.2011)


Chove

Quando chove se pode ver um desfile de guarda-chuvas, sobretudo perto do meio-dia, quando as pessoas saem para almoçar. As cores são variadas, e a maioria tenta ser redonda, mas aí depende do número de varetas. Quanto mais varetas um guarda-chuvas tem, mais próximo do círculo ele está. Há guarda-chuvas cor do céu, amarelos, negros e muito clássicos, com interior prateado, com padrão de borboletas, de oncinha, de zebra, estampas de flores miúdas e coloridas como jardins ambulantes, e outros multicores que parecem aqueles velhos guarda-sóis de cabo de madeira, que o vento de Tramandaí adorava levar, quando eu era pequena e íamos à praia. E tive até um que era de plástico transparente, uma espécie de sonho de consumo: adorava estar debaixo dele e ver a chuva caindo sem me tocar.

Totalmente ecologicamente incorreto. Ele ainda deve estar tentando se deteriorar.


Finalmente, só para quebrar o romantismo e a poesia, passa aquele guarda-chuva amorfo, vareta quebrada, várias pontas soltas ameaçando espetar alguém, o pano negro feito um poliedro saído de um pesadelo – nenhuma mão humana criaria tal coisa por querer! Geralmente está apressado. Não é nem mais pobre, é apenas feio e desengonçado, um guarda-chuva de mau humor que, inexplicavelmente, ninguém esquece em lugar algum. E se esquece, em seguida o encontram e o adotam, que mesmo esquisito, na hora do aperto, qualquer forma serve para resguardar da chuva.

Quando chove, o sonho e o pesadelo se alinham nas varetas dos guarda-chuvas, e passam lado a lado na calçada. Se chocam, rodam, flutuam coloridos, monocromáticos, rotos, quase inteiros.

E enquanto a calçada floresce guardas-chuvas, do céu cinzento desaguam ribeirões.
(09.02.2011)


Tempo

Eu sei que a maioria das pessoas costumam dizer que o tempo passa voando e que "já" estamos em Fevereiro, que daqui a pouco é Dezembro.

Hein?

Sou do contra, não acho nada disso. Na verdade, me sinto abrumada de olhar para o calendário e pensar que cá estamos em Fevereiro. Ainda nem é Carnaval, a Páscoa está lá longe, o que significa que precisam passar sobre nós quatro Luas Cheias, desde a última antes do final do ano (o cálculo pode nos parecer arrevesado, criaturas tecnológicas que somos, mas é assim que é). Isso quer dizer que o frio do inverno está longe e que as festas juninas ainda são apenas um número numa folhinha. E o resto, nossa, nem dá para perceber.

É Fevereiro, dia três. Para maior aflição, hoje começa o Ano do Coelho. Ou seja, o ano está apenas começando. E tem aqueles que dizem que o ano só começa mesmo em Março, o que quer dizer que ele ainda nem começou!

Como uma coisa que nem começou pode passar depressa?

Tenho para mim que nos falta fazer as pazes com o Tempo. Parar dizer que não temos, parar de dizer que ele voa. Faz falta abrir um espaço para o Tempo em nossas vidas, mas quem tem tempo para isso? Outro dia li no jornal que uma moça sugeriu um desafio bem simples: passar dois minutos olhando para um belíssimo papel de parede para os internautas, uma visão magnífica do por do sol à beira mar, ouvindo o quebrar das ondas, mesmo que fosse pelo alto-falante de plástico. Dois minutos inteiros sem teclar, nem atender ao telefone, mandar mensagem no celular ou mexer no mouse.

Dois minutos – tudo isso?

Não sei se alguém passou no teste.

Para pessoas para quem o Tempo voa e o ano passa num piscar do olhos, dois minutos podem ser uma eternidade.
(03.02.2011)


Questão pessoal

Estou convencida de que as portas giratórias dos bancos não gostam de mim. É pessoal, um troço meio rançoso. E não é de minha parte, de jeito nenhum! Sempre gostei de portas giratórias. Quando era pequena e havia uma em algum filme, eu ficava olhando embasbacada e me perguntando como seria entrar em uma delas. Porque a gente não atravessa as giratórias como todas as demais – a gente navega nelas. Descreve um percurso que comprova a geometria pelo avesso: a menor distância entre dois pontos e uma linha reta. Ou seja, a porta giratória comprova essa regra, experimentando ir por um semicírculo, que não é o caminho mais curto.

Não lembro da minha primeira porta giratória, mas lembro da última. Perdão, da mais recente – quem dera que fosse a última! Foi no banco. Já sabe do que estou falando, não? Daquela devassa que é promovida na bolsa de um, tendo a segurança de todos como argumento: para o escaninho de acrílico transparente vai a vida da gente. Celular, chave, carteira com moedas, pacote de absorvente. Santo mico!

Papel de bala, agenda, caneta, batom, hidratante, óculos de sol, câmara fotográfica, escova de cabelo, de dentes, rodinha para patinete, quem pode saber o que se esconde numa bolsa de mulher? Os guardas de banco que ficam assessorando as portas giratórias. Quer saber o que há naquelas malas que a gente carrega? Pois pergunte a um deles!

Afinal, quando tudo parece perdido, a danada da porta cede e a gente entra. E por um momento, depois da fila do caixa, parece que deu tudo certo. A gente vai até a saída, entra na porta outra vez... e ela para no meio do caminho, com aquele apito estridente. Na saída, veja bem!

É pessoal, ou não é?
(1º/02/2011)


Barcarolle

No meio da baía de Biscane, no sul da Flórida, apareceu um paino.

Um piano de cauda: corpo, três pernas e a tampa, tudo negro como um pesadelo, com exceção das teclas de marfim e os pedais de bronze. O instrumento mais surrealista que já inventaram, no lugar mais improvável que alguém já imaginou: um banco de areia no meio do mar. Dizem os especialistas que a água não irá afetá-lo, porque está acima da linha das marés. Dizem que as aves irão morar lá, fazer ninho entre os dós e os lás. As pequenas gaivotas grasnarão a quinta de Beethoven, enquanto o sol se põem na partitura única da tarde, acorde maior dentre todos os rés, os mis, os fás e os sis que faltavam. E no próximo furacão, quem sabe, o vento arrancará sua tampa feito um amante enlouquecido de desejo e o tomará para si, e tocarão os dois uma sinfonia magnífica e diabólica como nenhum ser humano jamais ousou compor.

Quem ouvir aquela música sonhará com novos mundos a desbravar. Mundos onde não há banda larga, nem celular ou TV a cabo, mas que, ainda assim, serão tão impressionantes que nada disso fará falta. E eles se perderão nestes mundos, e talvez mandem notícias um dia, contando como é incrivelmente maravilhoso ser o primeiro a tocar outras terras, outros planetas, outros universos.

Nós os invejaremos e desejaremos sua sorte, sentados diante da tela do computador, sem ousar dar o primeiro passo rumo ao desconhecido. Ficaremos à espera de que surja um piano no meio da rua, no meio da praça, o meio do lixo, no meio do nada, a espera do vento que toque para nós a canção diabólica e magnífica que nos impulsionará, finalmente, para o amanhã e para a aventura.

Ledo engano.

O vento não sopra a mesma canção duas vezes
(27/01/2011) 




Suor de nuvem

Terça-feira, dez horas. Saio corajosamente sem guarda-chuva, para cumprir o roteiro de recados matinais. Está nublado, mas e daí? Daí que ali na esquina, as gotinhas já me tocam, tão delicadas que o chão mal e mal é sapecado pelos sinais escuros feito um sarampo sobre o granito. Sarapintado se diz. O chão está sarapintado. Sarapinta, mas não molha, e ainda assim o gato, que gosta menos de chuva do que eu, se esconde debaixo de um carro. Não é nada, eu digo, não é nem chuva de molhar bobo, aquela garoa que engana, que parece que não chove, mas molha o mundo. Mas o gato não se convence nem sai debaixo do carro, se limita a olhar o mundo com um vigilante par de olhos verdes.

No final da rua, os homens cavam um buraco. Suam tanto que talvez nem sintam o beijo delicado da chuva. Abrem o asfalto, máquinas amarelas se confundindo com os braços fortes, o ruído, vozes, passos. O trem vem aí, o trem elétrico e moderno, vai ligar Novo Hamburgo à Porto Alegre, depois de devorar as árvores que são a única coisa bonita do Valão. Ainda são. Por pouco tempo.

Ali adiante, o trânsito que não para, a esquina, o rugido interminável que é o respirar da cidade.

Aqui na pele de pedra de calçada, ainda, o toque delicado da chuvinha miúda que nem garoa é. Quieta, fresca e dengosa. Daqui a pouco pode ser ribeirão, mas agora ainda é só um carinho de nuvem na face da gente apressada que passa e passa sem parar, sob o olhar escondido do gato e o meu passo sem pressa rumo ao cotidiano de asfalto.
(18.01.2011)