Difícil de definir, com altos e baixos, o segundo livro do Rothfuss é uma leitura de fôlego
Bem, estou aqui com um problema. Estou aqui disposta a falar de um livro de quase 1.000 páginas. Um livro que quase ninguém tem falado entre os leitores de fantasia, todos muito ocupados com a prosa para massas de Martin e sua guerra.
Na verdade, estou disposta a comentar o segundo livro de "A Crônica do Matador do Rei", mas não sei bem por onde começar - então tentarei fazer isso pelo começo: "O Temor do Sábio - A Crônica do Matador do Reio: Segundo Dia", é o segundo volume da saga escrita por Patrick Rothfuss (leia entrevista com o autor aqui), editado no Brasil pela Editora Arqueiro, com tradução de Vera Ribeiro. Entre ele e o primeiro livro, "O Nome do Vento", lá se vão, na prática, dois anos. Quando Rothfuss lançou o primeiro livro, disse que o segundo não sairia no ano seguinte, porque ainda ia ter de ser escrito e o processo leva o seu tempo. E eu comentei em uma crônica aqui no blogue, que não ia ser problema esperar, desde que a continuação tivesse a mesma qualidade do primeiro livro. Porque, já se sabe, a prova dos nove de uma série não é o primeiro nem o último livro, mas o segundo. O primeiro chama a atenção do leitor e o último... bem se o leitor chegou ao último é porque gostou da série independente do que exista no meio. O último livro não precisa ser o melhor - embora o ideal é que fosse o mais espetacular de todos.
Mas o segundo volume é delicado. Se não agradar, o mais provável é que a série sofra um tranco. E quando se trata de uma trilogia - e Rothfuss jura que "A Crônica do Matador do Rei" é uma trilogia - o segundo volume pode comprometer irremediavelmente o caminho de toda a narrativa.
Então vejamos.
Sejamos muito claros: "O Temor do Sábio" é um livro de histórias. Não uma história, não apenas a história de Kvothe, o narrador-narrado, mas várias histórias. Na maioria delas, Kvothe é o protagonista, mas há algumas que são uma verdadeira joia delicada inserida no corpo do livro, que são lindas por si só e mereceriam, inclusive, um livro à parte, como a história da Lua contada por Hespe. Solicita esta leitora ao autor e às editoras que por ventura leiam estas linhas e gostem da ideia, que nada venha a ser mudado no texto a não ser que sejam incluídas ilustrações maravilhosas, porque ela merece. Se poderia dizer o mesmo da sequência com a Feluriana. Tem um gosto de Gaiman. Mereceria umas ilustrações glamurosas.
A história central de "O Temor do Sábio" é a transição de Kvothe da adolescência para uma fase mais adulta. Ele continua na Universidade, e com isso está garantido o cenário e o elenco, alunos e professores tão malucos e eu daria não sei o quê para estudar lá. Como sempre, muito divertido, cheio de peripécias, e muita magia de um tipo lógico, em que a gente acredita. Mas Kvothe também sairá para o mundo, para "perseguir o vento", e chegará à borda do mapa, e andará, talvez, um pouco para além dela. Encontrará a Feluriana e visitará o Ademre, e você, caro leitor que ainda não se decidiu a ler o livro, dirá que tudo isso pode ser lido na contracapa.
E pode mesmo.
Então vou lhe dizer o que eu li e que não está na contracapa e não, não são "spoilers".
Como eu disse, é um livro de histórias. Muitas histórias. Em certa medida, a abundância de narrativas lembrou "Merlin e Família", uma delicatessen do galego Álvaro Cunqueiro. Ambos livros chegam a abrumar com tantas narrativas, derramam-nas nas pupilas dos leitores sem o menor comedimento. Mas "Merlin e Família" é uma obra madura, e para "O Temor do Sábio" lhe faltam um par de anos maturando na gaveta do autor.
Deixem que eu me explique, como diria Kvothe: o texto de Rothfuss é uma delícia. Eu o li em muito menos tempo do que eu pensei que levaria. Achei que o fato de ser um livro longo, me levaria a tê-lo por mais tempo, mas não foi assim. Acabou-se tão rápido quanto um caneco de boa sidra. Porém, há um laivo estranho no texto. Em "O Nome do Vento" Rothfuss oferece um texto absolutamente limpo e irretocável. Tudo é perfeitamente equilibrado. Mas "O Temor do Sábio" nem sempre é assim. Muitas partes, como a referente à estadia de Kvothe com Feluriana, por exemplo, estão pontuadas de fórmulas repetidas. As metáforas são tão constantes e óbvias que derepente elas começam a saltar dos parágrafos como arestas mal lixadas em um trabalho de marcenaria. Em outras, sente-se a mão do autor forçando a cena. É difícil explicar isso, é preciso ler para saber. Trata-se de algo muito sutil. Uma palavra dita a mais. Um resmungo à mais. A história Kvothe anda numa tênue linha desde a primeira página do primeiro volume, mas no segundo, de vez em quanto ela escorrega. E o leitor sente o tranco. Mais de uma vez eu pensei: "este livro é tão presunçoso quanto o próprio Kvothe". Mas, afinal, é o livro do Kvothe... De vez em quanto tudo parece trágico demais, duro demais, e às vezes a reação de algum personagem é totalmente descabida.
Outra coisa que me chamou a atenção enquanto leitora, é que em "O Nome do Vento" o autor deixa muito mais espaço para o leitor tirar suas conclusões do que em "O Temor do Sábio". E essa é uma característica que me deixou simplesmente encantada no primeiro volume. No segundo, essa exigência que o autor faz em relação ao seu público só vai aparecer mesmo no final.
Agora, não é um livro ruim. É, ainda, um esforço de fôlego e está muito acima da média. Rothfuss se esforça de verdade para os brindar com algo original e de boa qualidade. Há momentos em que a gente sente que chegou ao coração da história de Kvothe, e outros que a gente percebe que é o "centro" do livro. Há um diálogo rimado entre Feluriana e Kvothe que é lindo, embora destoe de todo o restante da construção da narrativa (e isso me incomodou muito). Por outro lado, há audácias criativas no texto, como a fala de sinais dos ademrianos, um povo que vive num ponto distante da geografia da Civilização. Embora sempre seja um desafio, é relativamente comum o desenvolvimento de um ou mais idiomas estranhos nos grandes romances de fantasia da atualidade. Desde que Tolkien criou o quenya, dezenas de autores tem se esmerado em criar idomas próprios para seus povos. Rothfuss faz isso, mas cria uma linguagem de sinais que interfere na leitura do texto literário e isso é diferente.
E há música. Talvez essa seja a característica mais marcante da obra de Rothfuss: ele é o único autor que conheço, e, sobretudo, o único autor de fantasia que eu conheço, capaz de me fazer ouvir a música que seu personagem toca. Aliás, os melhores e mais inteligentes pontos do livro, na minha opinião, são os ligados diretamente à música. A música de Kvothe é sua alma, sua companheira, sua arma, seu escudo, seu retrato. E ele consegue colocar isso no texto. E, com poucas coisas, consegue fazer-se ouvir uma sinfonia trágica ao final. Ah, por certo: apesar de a passagem com Feluriana ser pontuada de "cenas de nu" (eufemismo), o detalhe mais verdadeiramente erótico e emocionante do livro é protagonizado pela música de Kvothe no Ademre. Quem tiver coração, lerá o que eu quero dizer. Muitas vezes o erótico não é a nudez do corpo, mas da alma e a verdade é que Kvothe é um dos poucos personagens que conseguem me emocionar, porque é verdadeiro até o âmago de seus ossos de tinta e papel.
Resumindo, fiquei com a impressão de que "O Temor do Sábio" seria muito melhor se tivesse passado um bom período de maturação na gaveta do autor. Ele teria com certeza, 200 páginas a menos e seria, com absoluta certeza, 200 vezes melhor, como um vinho maduro, e não, verde. As discussões na internet já estão se dividindo entre os que amaram o livro e os que odiaram. Eu, certamente gostei. Mas sinto que poderia ter gostado ainda mais. E apesar de tê-lo lido muito mais rapidamente do que pensei que o faria, acho que é um livro para se ler devagar, sem pressa, talvez, até, entremeando uma e outra leitura ao longo das muitas partes de que é feito.
Em todo o caso, estou à espera do Terceiro Dia. Mas sem pressa Rothfuss, por favor. Fiquei um pouco ressabiada, talvez.
De qualquer modo, apesar de ter me deixado de cabelos em pé, eu continuo achando que adoraria levar Bastas para Gramado. Você sabe, tomar um vinho, passear nos bosques (ainda que ralos), não ver o tempo passar... posso garantir que conheço um ou dois lugares que você, leitor-turista da bonita cidade serrana, nunca entrou.
Mas o Kvothe não. Eu me apaixonaria por ele. E isso é totalmente contraproducente.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
1.700 caracteres: Inveja estival
Domingo à tarde. Vou passear daquele meu jeito: saia, camiseta, bolsa, sandália de salto, óculos de sol – faz uma tarde estival de livro. Câmara fotográfica à tiracolo e por diante nada além da estrada, e isso sim é um gosto. A sombra das árvores desenhando um quebra-cabeça no asfalto, as copas frondosas, algumas floridas, rosa, roxo, branco. Vi uma chuva de ouro maturando as flores amarelas à espera de um vento para deixá-las ir, gotas luminosas de um amarelo-canário incrivelmente alegre.
O sol é um deleite.
Derrama-se do alto dos morros ao fundo dos vales por igual, clamando por uma água bem gelada, um sorvete que se derreta nos dedos, uma carícia de suor sobre a pele. O rio passa debaixo dos meus pés, eu parada sobre a ponte olhando a água escura e saltitante sobre as pedras, um canal pouco profundo que a estação é de seca. Mas aqui não, aqui a estação é de calor, as árvores dormitando preguiçosas sobre o rio no fundo do vale, murmurejando sua canção que é de ninar, que é de aplacar a sede, que é de abraçar o corpo com mãos frescas. Não faltam os que se rendem à sua sedução, o rio nem precisa se esforçar num dia como o de hoje. Um casal ganha a margem e ele molha a camiseta, torce, espera um pouco antes de vestir o tecido fresco. Lá adiante, a gurizada salta no remanso mais profundo aos gritos, às gargalhadas. Ali diante, meninos nadam no raso, jogam pedras. Ganha quem acertar a outra margem – mas como ninguém perde, também ninguém ganha. Passam dois felizardos, cada um numa câmara de carro inflada, os dois rodando e deslizando ao sabor do rio.
E eu no meu salto, nos meus óculos, a máquina em punho, a bolsa pesando, pesando...
Deus, eu nem sabia que era tão invejosa!
O sol é um deleite.
Derrama-se do alto dos morros ao fundo dos vales por igual, clamando por uma água bem gelada, um sorvete que se derreta nos dedos, uma carícia de suor sobre a pele. O rio passa debaixo dos meus pés, eu parada sobre a ponte olhando a água escura e saltitante sobre as pedras, um canal pouco profundo que a estação é de seca. Mas aqui não, aqui a estação é de calor, as árvores dormitando preguiçosas sobre o rio no fundo do vale, murmurejando sua canção que é de ninar, que é de aplacar a sede, que é de abraçar o corpo com mãos frescas. Não faltam os que se rendem à sua sedução, o rio nem precisa se esforçar num dia como o de hoje. Um casal ganha a margem e ele molha a camiseta, torce, espera um pouco antes de vestir o tecido fresco. Lá adiante, a gurizada salta no remanso mais profundo aos gritos, às gargalhadas. Ali diante, meninos nadam no raso, jogam pedras. Ganha quem acertar a outra margem – mas como ninguém perde, também ninguém ganha. Passam dois felizardos, cada um numa câmara de carro inflada, os dois rodando e deslizando ao sabor do rio.
E eu no meu salto, nos meus óculos, a máquina em punho, a bolsa pesando, pesando...
Deus, eu nem sabia que era tão invejosa!
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Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
1.700 caracteres (recuperado): Baú de viagens
No dia do Natal, muita gente para o almoço, na casa dos padrinhos. Normal. Helena, generosa, abre seu quarto e a gente vê aquele baú chinês sobre a cômoda. Você sabe, "baú" é forma de dizer, porque não parece um baú. Parece um armarinho cheio de portinholas, tampas e gavetinhas. Deve ter um nome próprio - os filhos de Adão dão nome a tudo - mas eu não entendo pisca de decoração.
Claro que o baú chama a atenção e as mulheres se reúnem em torno dele, curiosas. Aí Helena, sempre generosa, abre a tampa de cima da coisa e começa a tirar de lá, um a um, colares. Coloridos, de sementes, de couro, com medalhões, sem medalhões. Bijouterias?
Não. Lembranças.
À cada colar que Helena puxa da caxinha, uma história, uma cidade diferente, um lugar. Um país. Amigos. Muitos amigos. Helena é suave e longa, e nela cabem tantas histórias, cidades e lugares, quanto recordações de amigos. Cada anel, cada brinco, vale como uma foto, vem acompanhado de um relato, de uma imagem que ela lembra e, imensamente generosa, compartilha. Alguns vem acompanhados de "você estava lá, lembra?" Outros ela comprou de um autêntico hippie, daqueles que a gente acha que não existe mais. O anel grande fica lindo nas mãos elegantes dela, a pedra falsa que engana, porque não é dourada, é branca, dourado é o suporte do brilho claro. Pedra branca-dourada, que nos dedos dela parece um anel mágico nas mãos da rainha élfica.
Linda Helena, ela sabe: no cofrinho chinês não está guardado um espólio de contas, mas um inestimável tesouro de memórias. E mais ainda, sábia: nada se perpetua se não for lembrado, nada se multiplica se não for compartilhado.
E a gente se abriga no suave sorriso de Helena, viaja com ela cada vez que ela resgata um colar de índio, um medalhão de prata, um brinco de latão do cofre chinês. Como uma arca cujo encantamento só se realiza porque sua dona tem o dom da generosidade.
Claro que o baú chama a atenção e as mulheres se reúnem em torno dele, curiosas. Aí Helena, sempre generosa, abre a tampa de cima da coisa e começa a tirar de lá, um a um, colares. Coloridos, de sementes, de couro, com medalhões, sem medalhões. Bijouterias?
Não. Lembranças.
À cada colar que Helena puxa da caxinha, uma história, uma cidade diferente, um lugar. Um país. Amigos. Muitos amigos. Helena é suave e longa, e nela cabem tantas histórias, cidades e lugares, quanto recordações de amigos. Cada anel, cada brinco, vale como uma foto, vem acompanhado de um relato, de uma imagem que ela lembra e, imensamente generosa, compartilha. Alguns vem acompanhados de "você estava lá, lembra?" Outros ela comprou de um autêntico hippie, daqueles que a gente acha que não existe mais. O anel grande fica lindo nas mãos elegantes dela, a pedra falsa que engana, porque não é dourada, é branca, dourado é o suporte do brilho claro. Pedra branca-dourada, que nos dedos dela parece um anel mágico nas mãos da rainha élfica.
Linda Helena, ela sabe: no cofrinho chinês não está guardado um espólio de contas, mas um inestimável tesouro de memórias. E mais ainda, sábia: nada se perpetua se não for lembrado, nada se multiplica se não for compartilhado.
E a gente se abriga no suave sorriso de Helena, viaja com ela cada vez que ela resgata um colar de índio, um medalhão de prata, um brinco de latão do cofre chinês. Como uma arca cujo encantamento só se realiza porque sua dona tem o dom da generosidade.
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Quinta-feira, Fevereiro 09, 2012
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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
1.700 caracteres: Estações
Inverno. Olho as imagens que chegam da Europa desde um dos verões mais quentes da década. Parece inacreditável aquelas imagens e parece ainda mais inacreditável que aquelas paisagens nevadas, tão cheias de beleza reflitam uma situação tão difícil. O frio é uma coisa perigosa e mortal, mas é tão maravilhoso que é difícil crer que aquela doce camada branca que parece ter sido criada para a diversão, esconda um perigo real.
Na tela do computador abrem-se jardins brancos e esculturas de espuma congelada. Os rios parecem um quebra-cabeças de vidro delicadamente encaixado: dizem que os canais de Veneza são de puro gelo, um tapete de seda azul esverdado estendido nas águas da Sereníssima. As gôndolas estão imobilizadas, os gondoleiros encolhidos sob os capotes. Há silêncio nas imagens de Veneza, um silêncio feito de perplexidade.
Aqui, um grupo de cisnes precisa ser resgatados da água que os apreendeu em geladas e ciumentas mãozinhas brancas. Ali, as ruas são canais entre duas muralhas brancas, como se fossem uma ala recém inventada do Labirinto. O inverno não é apenas a melhor estação do ano para ouvir histórias, é também a melhor estação para inventá-las. Na modorra do verão quando as nuvens crescem em torres brancas de chuva e vento, as histórias cochilam, preguiçosas. À beira do mar as ideias brincam de erguer castelos de areia, despreocupadas da lógica e do fio condutor da narrativa. O mar, preguiçoso, faz desabar muralhas inteiras de intrigas e suspenses, ameias de poesia, e invade os pátios de menagem onde os sonhos faziam as honras da casa.
Verão: as histórias se desmancham em grãos brancos e ondas preguiçosas, enquanto as gaivotas grasnam agouros de chuva, calor e languidez.
Na tela do computador abrem-se jardins brancos e esculturas de espuma congelada. Os rios parecem um quebra-cabeças de vidro delicadamente encaixado: dizem que os canais de Veneza são de puro gelo, um tapete de seda azul esverdado estendido nas águas da Sereníssima. As gôndolas estão imobilizadas, os gondoleiros encolhidos sob os capotes. Há silêncio nas imagens de Veneza, um silêncio feito de perplexidade.
Aqui, um grupo de cisnes precisa ser resgatados da água que os apreendeu em geladas e ciumentas mãozinhas brancas. Ali, as ruas são canais entre duas muralhas brancas, como se fossem uma ala recém inventada do Labirinto. O inverno não é apenas a melhor estação do ano para ouvir histórias, é também a melhor estação para inventá-las. Na modorra do verão quando as nuvens crescem em torres brancas de chuva e vento, as histórias cochilam, preguiçosas. À beira do mar as ideias brincam de erguer castelos de areia, despreocupadas da lógica e do fio condutor da narrativa. O mar, preguiçoso, faz desabar muralhas inteiras de intrigas e suspenses, ameias de poesia, e invade os pátios de menagem onde os sonhos faziam as honras da casa.
Verão: as histórias se desmancham em grãos brancos e ondas preguiçosas, enquanto as gaivotas grasnam agouros de chuva, calor e languidez.
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Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012
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sábado, 4 de fevereiro de 2012
Crônica literária: O olhar do espelho
Um olhar feito de palavras
"Lord Jim" me caiu nas mãos em um sebo. Não lembro mais muito bem, mas o que pensei foi mais ou menos "puxa, nunca li Joseph Conrad e deveria ler".
A primeira leitura do livro, porém, não foi muito producente: pegava-o uma vez por semana, quando me deslocava até uma cidade vizinha para dar aula, que é a pior maneira de ler Conrad. Ele é denso demais, profundo demais, e se você deixar passar tanto tempo entre uma leitura e outra, quando retomar, provavelmente vai levar tempo demais se situando. Vai ter de ler algunas parágrafos antes, talvez uma página, e terminará se aborrecendo. Bem, eu terminei.
Mas, apesar da leitura conturbada, quando veio a notícia do naufrágio do Costa Concórdia, no mês passado, a primeira coisa em que pensei não foi no "Titanic". Foi em na primeira parte de "Lord Jim". Até comentei em um post. Dei uma rápida olhada nas minhas estantes em busca do romance e não encontrei. Imaginei que o tivesse passado para a biblioteca municipal e corri até lá, onde pude retirar uma vellha edição de capa dura e vermelha com dourado, de alguma coleção da Abril, com tradução de Mário Quintana.
E é claro que foi outra leitura, porque desta vez o li de uma vez só.
Embora não muito longo, "Lord Jim" é denso, como eu dizia, o que não o torna uma leitura muito fácil. Não, espere, "fácil" não é a palavra. O texto de Conrad é excelente, como atestará qualquer crítico literário, e "Lord Jim" é considerado sua melhor obra, embora a mais conhecida seja "O Coração das Trevas", por causa daquele filme "Apocalipse New". É o que eu classifico como "leitura fácil", porque é um texto que leva a gente, comprovando talento e trabalho duro por parte do autor. E o mais interessante é que "Lord Jim" é uma história de aventura dos mares do sul, com praticamente tudo o que se pode esperar, menos um tesouro enterrado no sentido literal da palavra.
A história começa com o julgamento de parte da tripulação do "Patna", um navio de peregrinos muçulmanos em peregrinação à Meca. O navio é velho como a Arca de Noé e em um determinado momento, numa noite muito calma, se choca com o que se supõe ser um destroço flutuante. A imaginação e o medo do personagem principal desenham o pior cenário possível: o navio avariado, fatalmente irá ao fundo com os 800 passageiros. Há sete botes salvavidas. Ao verificar um possível estrago, Jim realmente visualiza um amassado no casco interno do navio. Para cúmulo, percebe-se a aproximação de uma tempestade no horizonte. A tripulação ocidental - há dois malaios junto, que não tomam conhecimento de nada e são deixados no navio - foge. Foge do navio, do acidente, da responsabilidade e do destino trágico que prevêem para o "Patna". Há tanto medo envolvido nesta fuga, tanto pânico, que um deles morre do coração - enfarta de medo.
Só que a tempestade se desfaz. E o navio não tem nenhuma avaria realmente fatal. O "Patna", abandonado à deriva, é resgatado no dia seguinte, com todos os passageiros - que os quatro tripulantes ocidentais já creem mortos - incólumes.
Segue-se um julgamento e Jim é o único que encara o juri. Caído em desgraça, vaga pelos portos até que uma virada da sorte o coloca em terra, em um lugar chamado "Patusan" onde mais uma vez irá provar sua coragem e desta vez, sim, enfrentar seu destino.
O romance é simplesmente maravilhoso. Da primeira à última linha fala de dignidade e honra, essas noções que andam completamente fora de moda porque com muita frequência nos afrontam com nós mesmos e nos obrigam a tomar decisões que podem ter um desenrolar profundamente trágico.
Olhar no espelho a cada manhã pode ser um desafio enorme quando se tem uma consciência. E quando este olhar está plasmado em palavras, então, é como se ele se perpetuasse para o Todo Sempre que nós, seres humanos, conseguimos imaginar.
"Lord Jim" me caiu nas mãos em um sebo. Não lembro mais muito bem, mas o que pensei foi mais ou menos "puxa, nunca li Joseph Conrad e deveria ler".
A primeira leitura do livro, porém, não foi muito producente: pegava-o uma vez por semana, quando me deslocava até uma cidade vizinha para dar aula, que é a pior maneira de ler Conrad. Ele é denso demais, profundo demais, e se você deixar passar tanto tempo entre uma leitura e outra, quando retomar, provavelmente vai levar tempo demais se situando. Vai ter de ler algunas parágrafos antes, talvez uma página, e terminará se aborrecendo. Bem, eu terminei.
Mas, apesar da leitura conturbada, quando veio a notícia do naufrágio do Costa Concórdia, no mês passado, a primeira coisa em que pensei não foi no "Titanic". Foi em na primeira parte de "Lord Jim". Até comentei em um post. Dei uma rápida olhada nas minhas estantes em busca do romance e não encontrei. Imaginei que o tivesse passado para a biblioteca municipal e corri até lá, onde pude retirar uma vellha edição de capa dura e vermelha com dourado, de alguma coleção da Abril, com tradução de Mário Quintana.
E é claro que foi outra leitura, porque desta vez o li de uma vez só.
Embora não muito longo, "Lord Jim" é denso, como eu dizia, o que não o torna uma leitura muito fácil. Não, espere, "fácil" não é a palavra. O texto de Conrad é excelente, como atestará qualquer crítico literário, e "Lord Jim" é considerado sua melhor obra, embora a mais conhecida seja "O Coração das Trevas", por causa daquele filme "Apocalipse New". É o que eu classifico como "leitura fácil", porque é um texto que leva a gente, comprovando talento e trabalho duro por parte do autor. E o mais interessante é que "Lord Jim" é uma história de aventura dos mares do sul, com praticamente tudo o que se pode esperar, menos um tesouro enterrado no sentido literal da palavra.
A história começa com o julgamento de parte da tripulação do "Patna", um navio de peregrinos muçulmanos em peregrinação à Meca. O navio é velho como a Arca de Noé e em um determinado momento, numa noite muito calma, se choca com o que se supõe ser um destroço flutuante. A imaginação e o medo do personagem principal desenham o pior cenário possível: o navio avariado, fatalmente irá ao fundo com os 800 passageiros. Há sete botes salvavidas. Ao verificar um possível estrago, Jim realmente visualiza um amassado no casco interno do navio. Para cúmulo, percebe-se a aproximação de uma tempestade no horizonte. A tripulação ocidental - há dois malaios junto, que não tomam conhecimento de nada e são deixados no navio - foge. Foge do navio, do acidente, da responsabilidade e do destino trágico que prevêem para o "Patna". Há tanto medo envolvido nesta fuga, tanto pânico, que um deles morre do coração - enfarta de medo.
Só que a tempestade se desfaz. E o navio não tem nenhuma avaria realmente fatal. O "Patna", abandonado à deriva, é resgatado no dia seguinte, com todos os passageiros - que os quatro tripulantes ocidentais já creem mortos - incólumes.
Segue-se um julgamento e Jim é o único que encara o juri. Caído em desgraça, vaga pelos portos até que uma virada da sorte o coloca em terra, em um lugar chamado "Patusan" onde mais uma vez irá provar sua coragem e desta vez, sim, enfrentar seu destino.
O romance é simplesmente maravilhoso. Da primeira à última linha fala de dignidade e honra, essas noções que andam completamente fora de moda porque com muita frequência nos afrontam com nós mesmos e nos obrigam a tomar decisões que podem ter um desenrolar profundamente trágico.
Olhar no espelho a cada manhã pode ser um desafio enorme quando se tem uma consciência. E quando este olhar está plasmado em palavras, então, é como se ele se perpetuasse para o Todo Sempre que nós, seres humanos, conseguimos imaginar.
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