domingo, 4 de setembro de 2011

Crônica literária: Saudades do que às vezes fomos

Sentei para ler "Tudo o que fizemos", de Carlos André Moreira, sem grandes expectativas. Foi mais uma curiosidade: o título, editado pela Leitura XXI, concorre ao Gauchão de Literatura deste ano. De Carlos, os únicos textos que conhecia eram as matérias da Zero Hora, onde ele trabalha, atualmente na editoria de Cultura. Mas foi só começar as primeiras páginas para me entusiasmar com a história de um grupo de adolescentes de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, que resolvem roubar o sino que marca os horários da escola.

O principal aliciante não poderia deixar de ser muito pessoal: quando fui interna na Fundação Evangélica, na década de 80, uma colega roubou não o sino, mas o badalo da barulhenta coisa de bronze e ficamos um final de semana inteiro sem ouvir aquele eco melodioso e gelado ao mesmo tempo.

De outro lado está a minha predileção por narrativas que enfocam esse período nebuloso que é a adolescência, onde a gente ainda não é adulto, mas já não é mais criança, onde nos vigiam como se fossemos moleques e nos exigem atitudes maduras. Tudo é muito dramático quando se é adolescente, tudo é muito verdadeiro e muito intenso. Não é à toa que Romeu e Julieta são adolescentes. Se fossem cinco anos mais velhos, seriam personagens de alguma novela irônica de Machado de Assis. De modos que o livro me cativou já de saída.

"Tudo o que fizemos" enfoca a difícil e tortuosa trilha do amadurecimento, que começa com as perdas, os encontros, os enfrentamentos com o outro e consigo mesmo através do outro. Afinal, todos nós temos contas para acertar com nossas memórias, com o nosso cotidiano. Carlos André consegue fazer isso com um texto honesto, às vezes duro e sempre surpreendente. Em mais de um capítulo tive a saborosa vontade de "ler de novo" o último trecho, o último parágrafo. Fazia tempo que um autor não me entusiasmava desse jeito e me arremessasse diretamente à leitura de outro trabalho seu, neste caso o conto "Um dos nossos" no volume "Ficção de Polpa: Crime!", editado pela Não Editora (veja resenha completa aqui). Conto, aliás, onde ele se sai ainda melhor!

Uma das boas características de ambos textos é o sabor dos diálogos. Por exemplo, em "Tudo o que fizemos" o autor não se detém no preconceito básico de que a Literatura, tendo a capacidade de formar seres humanos, vá se embarafustar em lições de moral e em vocabulários rebuscados. Longe disso! Sem se render à gíria fácil, Carlos, em "Tudo o que fizemos", consegue aproximar-se e mergulhar na sonoridade da adolescência, sem temer os palavrões, por exemplo, mas valendo-se da presença deles, ou de sua ausência, como uma forma de identificar a personalidade de cada um, e criando um termômetro para a tensão que se acumula até a última página. Porque, sim, a história trata do roubo do sino da escola, mas um roubo que não deu certo de todo. É essa tensão e essa situação que parece tão assustadora para quem está metido na pele dos quinze, dezesseis anos, que gera os impasses e faz emergir a verdade de cada um, com toda a força e todas as consequências que isso significa.

Além disso, o cenário de cidade do interior é retratado com uma justa homenagem, aquela ausência de perspectiva que o excesso de perspectiva dá: quem tem a vida inteira pela frente, muitas vezes não consegue ver o que fazer com ela. Para quem cresceu no interior e lembra bem do "nada para fazer" que parece marcar a vida, a leitura de "Tudo o que fizemos" vai ser mais do que uma evocação: vai ser como ver uma velha foto e sentir saudade de tudo o que fomos, naquelas vezes em que o sol parecia brilhante demais e o mundo um lugar muito pequeno e muito difícil para realizar nossos sonhos.

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