Só não aproveitou o sábado, quem não quis.

Tá tem gente que não pode, que tem compromissos inadiáveis, mas quem ficou na frente da TV reclamando que a programação aberta é um desastre, foi porque não se ligou de fora da janela tem um mundo cheio de possibilidades.
Na Igreja da Ascenção, às 19 horas, o Quarteto Barlavento fez um show de promoção do seu CD "
Ventos de Natal". O repertório foi natalino, remetendo às músicas do CD. Como o show ficou mais ou menos inserido no culto do domingo, que incluiu o batizado de um afortunado bebê cuja família ficou até o final do show, acredito que muita gente não prestigiou porque achou que se tratava de um evento religioso. Foi e não foi: é difícil de definir, uma vez que alinhavando as músicas uma locutora lia textos sobre o Natal (mas, também, nesta época é difícil fugir disso), e no final de tudo o pastor deu a sua bênção à comunidade. Mas a música não tem fronteiras, nem religião.
O quarteto está bem e bonito: afinados, os rapazes que fazem parte da Orquestra de Sopros de Novo Hamburgo capricharam nos arranjos. Mas eles podem ousar mais. O saxofone é um instrumento que remente imediatamente ao jazz e jazz é improviso, é balanço, é animação. O destaque da noite ficou, sem dúvida alguma, com
White Christmas, e
Jingle Bell's , que finalizaram o programa, logo após o toque dos sinos da igreja. O conjunto ficou muito legal e me remeteu a um momento mágico da minha estadia na Espanha: durante um show do maravilhoso conjunto de música galega, o
Milladoiro, (que por sua instrumentação pode ser reconhecida como de raíz celta), ao pé da catedral de Santiago de Compostela, à meia-noite tudo parou para ouvir os sinos da torre central. Até porque, o sino se impõe: por seu volume, por sua beleza, por sua voz cheia e brasina, que não pede licença para existir. Na Galícia, aplaudimos emocionados. Aqui, o pastor partiu para a explicação: durante o Natal dos Sinos, organizado pela prefeitura, todos os sinos tocam às 20horas. Porque simplesmente não nos emocionamos, também, sem necessidade de explicações? Os sinos tocam à sua hora, seja ela qual for, dobram o tempo, não precisam se explicar, não deviam precisar se explicar: como o sol não pede licença para nascer, o sino não pede licença para tocar. A gente é que devia fazer a vênia sem nenhuma ressalva.
Com tudo isso, fiquei com a impressão que o show mesmo foram aquelas duas músicas do final. Animadas, swingadas, meio molecas: como todo som de sax deveria de ser.

Depois veio a outra molecagem, a gaudéria. Molecagem no bom sentido: o show do grupo tradicionalista gaúcho
Os Fagundes , que trouxe na mala de garupa de seu repertório clássicos como
Céu, sol, sul,
Canto alegretense e
Castelhana. O público encheu a praça, mas eu fiquei com a impressão que havia gente que foi pega de surpresa. Mas, vai!, e tem surpresa melhor do que chegar na praça e dar com um espetáculo desses? Deu para encontrar velhos amigos e abraçar gente que eu não via há algum tempo, numa festa que reuniu grandes e pequenos, crianças e velhos. Até Papai Noel tomando chimarrão, tinha! E se há uma coisa a destacar no show dos "guris", além da animação, é a excelente afinação vocal do grupo, sem falar naquele vozeirão do Ernesto. Ala pucha, que beleza!
Vale comentar a mensagem que os artistas passaram, falando sobre a importância da família e do convívio, não só durante o Natal, mas durante o ano todo. Por fim, Nico Fagundes lembrou aos hambuguenses que o movimento tradicionalista gaúcho tem uma profunda dívida com o CTG de Lomba Grande, o primeiro e mais antigo do Rio Grande do Sul, o que foi novidade para muita gente, inclusive para esta cronista. É, Novo Hamburgo não sabe apreciar a si mesmo...
Para terminar, na minha opinião o melhor da noite foi depois, ver a praça cheia de gente, famílias passeando, namorados sentados nos bancos escondidinhos, as Bancas cheias. Quem dera as noites de verão de Novo Hamburgo fossem sempre assim, sem a necessidade de um show para levar todo mundo para a praça, que todas as noites fossem de passeio, de caminhadas, de juras cochichadas e beijos roubados, e não aquele deserto que se verá dentro em pouco. O espaço urbano só é nosso quando nos apropriamos dele. Se não o fizermos, aqueles que usam a noite para multiplicar as sombras, continuarão a espalhar medo e medonhisses pelas páginas dos jornais - e pelas nossas vidas.